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UFSJ homenageia Intercom, lembrando Antonio Callado e Humberto Mauro

Guilherme Rezende

Com palestras de Ana Arruda Callado, Antônio Hohlfeldt e Paulo Augusto Gomes, a INTERCOM e a Universidade Federal de São João del-Rei- UFSJ – celebraram os 90 anos de vida Antônio Callado e os 110 anos de nascimento de Humberto Mauro, dias 17 e l8 de maio, no Teatro do Campus Dom Bosco. Os Seminários de Crítica da Cultura sobre as obras do escritor do cineasta encerraram a programação do I Congresso de Letras, Artes e Cultura da Universidade Federal de São João del-Rei UFSJ. O evento comemorativo dos 30 anos de existência da INTERCOM e do vigésimo aniversário da UFSJ teve apoio da FAPEMIG e da Secretaria de Cultura e Turismo de São João del-Rei e integrou o conjunto de atividades de São João del-Rei como Capital Brasileira da Cultura em 2007.

Além das sessões de palestras, informações sobre a vida e a obra dos dois artistas e dos conferencistas convidados foram objeto de uma exposição no salão da antiga biblioteca do Campus Dom Bosco. No dia 18 de maio, sexta-feira, os participantes do Congresso fizeram um passeio no Trem da Cultura, percorrendo, no comboio puxado pela Maria Fumaça, o trecho São João del-Rei-Tiradentes-São João del-Rei, ao som de música ao vivo e leitura de poemas de escritores de são-joanenses.

O Coordenador do encontro, prof. Guilherme Rezende, na abertura dos Seminários, referiu-se à preocupação com a interdisciplinaridade que deu sustentação à parceria da Intercom com o Promel- Programa de Mestrado em Letras. Rezende observou que foi a partir dessa afinidade de princípios que a Intercom e o Programa do Mestrado em Crítica da Cultura da UFSJ conceberam os Seminários propiciando a “reflexão sobre as relações entre o jornalismo e a literatura na obra de Antônio e Callado e a proposta de Cinema Educativo do cineasta mineiro”.

Callado, Repórter -Antônio Callado, repórter” foi o tema da conferência da professora doutora em jornalismo e viúva do escritor, Ana Arruda Callado. Em sua exposição emocionada, Ana Arruda destacou a atuação de Callado em duas passagens de sua carreira jornalística, as coberturas da guerra do Vietnam e das Ligas Camponesas de Francisco Julião. Segundo a conferencista, Antônio Callado deixou pelo menos duas lições: a impossibilidade de separar o jornalismo da literatura e desmistificação da neutralidade jornalística.

Ao considerar que “jornalismo é um gênero literário, como já ensinava Alceu Amoroso Lima e como o praticaram os repórteresCharles Dickens, Ernest Hemingway e tantos outros grandes escritores”, Ana Arruda afirmou que Antônio Callado, “mesmo quando fazia jornalismo, estava fazendo literatura”

Arruda ressaltou também que Callado nunca escondeu suas opções ideológicas: como repórter, “sempre teve uma posição clara diante dos problemas do Brasil e do mundo”. Ao preferir, por exemplo, acompanhar a guerra do Vietnam, sediado em Hanói, como um dos poucos jornalistas do mundo ocidental, começou o seu trabalho com a seguinte pauta: “Como conseguiram os vietnamitas derrotar completamente uma grande potência da Europa Ocidental, a França, em 1954, e como conseguiram levar os americanos à mesa de conferência, em Paris, em 1968?

Segundo Ana, Em algumas aulas de jornalismo que ainda se dá pelo Brasil”, este seria um mau exemplo, porque repórter não pode se envolver nos problemas, “tem que ser isento; não tem que emitir opinião". Ana contestou essa posição com toda a veemência, ao frisar que não entende porque “essa invenção ganhou tanto prestígio”:

- Toda boa reportagem é opinativa. Quando se denuncia, está-se apontando o mal, o errado. Quando se descreve um grande feito ou uma experiência que deu certo, está-se elogiando quem o praticou ou a possibilitou. Mortalidade infantil – é possível ser neutro? Caos no trânsito – a palavra caos já é opinativa. Podemos verificar isso diariamente, lendo as manchetes dos jornais expostos em bancas. Reportagem isenta não existe; texto isento não existe. “Todo texto é uma distribuição de afetos”, já ensinava J.F. Lyotard.

A conferencista ressalvou, no entanto, que o repórter Antônio Callado, em seu comportamento “muito discreto e avesso a auto-referências”, sempre soube distinguir muito bem as convicções ideológicas da honestidade na prática profissional.

Ana Arruda concluiu sua palestra, citando uma crônica de Antônio Callado publicou na Folha de S.Paulo, como parte de uma campanha romântica que empreendeu para reunir, “no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, as estátuas de Eco e Narciso, que estavam localizadas a um quilômetro uma da outra”.

O teatro de Callado - Na outra palestra do Seminário, o coordenador do Núcleo de Pesquisas em Jornalismo da Intercom, prof. Dr. Antônio Hohlfeldt (PUC-RS) qualificou Antônio Callado como o “nosso escritor mais político”.

- Antonio Callado foi aquele cidadão que jamais se omitiu em momento algum sobre nenhum episódio de nossa conturbada vida político-partidária. Antonio Callado é nosso escritor mais político.

Hohlfeldt recordou uma entrevista que fez com Callado, no lançamento do livro “Reflexos do Baile” e o dilema que passou para escolher, como jurado de um concurso nacional de literatura, o Prêmio Goethe de Literatura, em 1982, entre uma obra de Antônio Callado e Autran Dourado.

Crítico teatral há vários anos em Porto Alegre, com coluna semanal no Jornal do Comércio, Hohlfeldt mostrou uma outra vertente da obra de Antônio Callado: a sua obra dramatúrgica. Direcionou sua abordagem para apresentar uma visão crítica do conjunto de peças que Antônio Callado escreveu: A cidade assassinada, Frankel, O colar de coral, Forró no Engenho Cananéia, Pedro Mico, A revolta da cachaça, Uma rede para Iemanjá e O tesouro de Chica da Silva.

Antônio Hohlfeldt, entretanto, foi mais além na sua análise, explicando como o jornalismo, a literatura e o teatro se articulam na obra de Antônio Callado. Enquanto, "o jornalismo faz um levantamento e mapeamento de determinadas realidades contraditórias, contra as quais se coloca o intelectual Antonio Callado”, o “romance narra e reproduz – em novas chaves de significação – essas mesmas contradições” e “ a dramaturgia coloca as personagens vivendo as próprias contradições que se colocam tanto ao nível individual quanto social”.

Para Hohlfeldt, “o teatro termina por ser um instrumento mais completo do projeto literário de Antônio Callado, porque consegue reunir as suas duas tendências claramente observadas a respeito de sua ficção: a psicologia das personagens e suas ações políticas”.

Humberto Mauro - Na noite do dia 18 de maio, o cineasta e crítico de cinema Paulo Augusto Gomes fez uma descrição detalhada da obra cinematográfica de Humberto Mauro. Crítico de Cinema desde 1967, Paulo Augusto Gomes foi também diretor e roteirista de diversos curtas-metragens - Sinais de Pedra, Solidão e Os Verdes Anos - e longas-metragens, como Os camaradas, O circo das qualidades humanas e Idolatrada. Ex-presidente da Associação Mineira de Cineastas, foi professor de cursos de cinema na PUC-MG, UEMG e FAT. Em 2006, presidiu o júri Internacional do 8º Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte e dirigiu o curta-metragem “Minas Portuguesa”, para a produtora VT-3 e USIMINAS. Vai lançar, nos próximos meses, o livro “Pioneiros do Cinema em Minas Gerais”, que reúne entrevistas com vários cineastas que fizeram filmes no Estado, no tempo do cinema mudo, com destaque para Humberto Mauro.

Paulo Gomes iniciou sua palestra realçando os primeiros passos de Mauro na arte cinematográfica, ainda na cidade mineira de Cataguases, uma das expressões mais significativas do movimento modernista em Minas Gerais, que culminaram nos primeiros filmes, Na Primavera da Vida , Tesouro Perdido, Brasa Adormecida e Sangue Mineiro. Relevou também a sua ligação com Adhemar Gonzaga e os grandes filmes, que produziu pela Cinédia, Ganga Bruta e Favella de meus amores.

A ênfase da palestra, porém, foi a numerosa produção de Humberto Mauro pelo Instituto Nacional de Cinema Educativo, o INCE, atendendo a um convite de Roquette Pinto. Dos mais de 350 documentários realizados, três foram exibidos. No primeiro, um precursor do vídeo-clipe, de 1945, Mauro criou uma versão cinematográfica para as canções populares “Chuá-chuá” e “Casinha Pequenina”. O segundo documentário, “Brasilianas Meus oito anos”, registra as memórias de infância de Humberto Mauro. Ainda sob um forte clima de emoção na platéia que assistira à palestra, Paulo Augusto Gomes finalizou sua conferência com o documentário “São João del-Rei”, de 1958, focalizando os principais monumentos do Patrimônio Histórico e Artístico da cidade. Os documentários exibidos constam de um DVD da Funarte, especialmente cedido à organização do Seminário pelo Centro Técnico Audiovisual -CTAv da Secretaria do Audiovisual –SAV - do Ministério da Cultura.