Televisão Digital:
novas
possibilidades narrativas
Leticia
Passos Affini
Introdução
Este
trabalho visa questionar algumas questões que envolvem as novas tecnologias de
informação e de comunicação. As tecnologias estão convergindo para um sistema
único e integrado provocando mudanças em nossos hábitos e comportamentos. O
presente estudo tem como objetivo fornecer material para reflexão sobre a
transição da televisão analógica para a digital. Esta permite a integração em
rede via internet. A nova tecnologia provocará alterações na linguagem
televisiva, ou seja, seu processo narrativo será inteiramente modificado com a
nova tecnologia que conta com a flexibilidade da interatividade proporcionada
pelo microcomputador, ou seja, o receptor e o emissor participarão de um
processo de comunicação bilateral interativa. A interatividade é possível
graças à internet que liga, em rede, o emissor com o receptor, desta forma, o
processo narrativo será totalmente diferente do atual. Não existe fronteira
entre televisão e microcomputador a partir do surgimento da tecnologia digital
e da compressão de dados que possibilitam a digitalização do sinal televisivo.
Para reforçar a peculiaridade da televisão digital e a possibilidade de estarmos
no limiar de um novo tipo de televisão, salientamos a grande mudança pela qual
passa a sociedade, saindo da televisão analógica para a digital. As novas
tecnologias estão introduzindo mudanças profundas no modo de organizar, de
produzir e de consumir informações.
A
televisão digital trabalha com uma possibilidade maior de informações,
acrescenta texto às imagens e aos sons, ela possui, devido ao meio pelo qual é
veiculada, ou seja, o computador, ligado em rede na Internet, algumas
características próprias e definidoras de suas diferenças para com a televisão
analógica. Estes elementos estão introduzindo novas relações entre obra, autor
e receptor, e assim, transformando radicalmente a comunicação.
O
momento atual é marcado por uma hesitação em relação às novas tecnologias de
comunicação, a mudança da convencional transmissão analógica para a digital
envolve vários setores de atividades econômicas, são eles: as emissoras de
televisão, o receptor, o governo, as empresas de telecomunicações, as empresas
que desenvolvem software e os provedores de internet. Para a concretização da
televisão digital faz-se necessária a confluência de interesses de iniciativas
em domínios: políticos, técnicos, industriais e legais. Existe um consenso no
fato de que todas as tecnologias caminham para o microcomputador, por isso a
necessidade de parceria entre as televisões, os provedores e as empresas que
desenvolvem os softwares necessários para a interatividade.
A
televisão, segundo Kerckhove1, é uma tecnlogia incompleta
porque é um meio de comunicação de sentido único. Com o advento da televisão
digital teremos uma nova televisão, onde será possível estabelecer uma conexão
ponto múltiplo, unindo os usuários entre si e com a emissora. Neste contexto,
não será possível identificar o emissor porque ele é potencialmente um receptor
ou o receptor porque ele é potencialmente um emissor, isso só é possível na
junção da televisão digital com a internet.
Linguagem
A
transmissão de sinal televisivo com a tecnologia de computadores e de rede de
dados exige uma troca de equipamentos tanto no pólo de captação (câmeras, ilhas
de edição e finalização) , distribuição (transmissores), e recepção
(monitores), do sinal. Fato que acarretará em um grande investimento financeiro
por todas as partes envolvidas no processo. No Brasil, o Ministério das
Comunicações através da Agência Nacional de Telecomunicações – (Anatel) é
responsável pela definição do sistema a ser adotado para as transmissões
digitais. Para cumprir tal tarefa há o envolvimento de outros órgãos como: SET
Sociedade Brasileira de Engenharia de Televisão e ABERT Associação Brasileira
de Emissoras de Rádio e Televisão, que realizam testes com os seguintes
sistemas de tecnologia digital: ATSC Advanced Television Systems Committee dos
Estados Unidos, DVB Digital Video Broadcast da Europa e ISDB do Japão. A
escolha de um padrão de televisão digital para o país implica em um consenso
entre esses órgãos além de investimentos financeiros em grande escala.
Os
monitores de recepção de sinal digital terão o padrão 16 x 9 mais horizontal e
mais próximo ao cinema do que o atual 4 x 3, desta forma o campo visual será
mais amplo. No formato digital a imagem terá todos os seus detalhes acentuados
permitindo uma leitura igualmente nítida dos elementos que estiverem em todos
os planos do enquadramento, isso tornará os cortes mais lentos e a câmera terá
mais possibilidade de se aproximar do cenário, exigindo um cuidado maior em
relação aos objetos de cena, maquiagem, interpretação de atores e iluminação. A
televisão analógica narra em primeiro plano, forma narrativa que confina os
atores, cenários e os objetos de cena numa área muito pequena do quadro, e
torna irrelevante o segundo plano, ou seja, o que está por trás. Desta forma é
necessário aproximar a câmera de seus objetos para que o telespectador
presencie a cena, isso limita a composição de quadros e a movimentação dos
elementos em cena.
Adaptação
As
novas possibilidades de formas narrativas decorrentes da fusão da televisão
digital com a internet implicam na consolidação de uma nova linguagem
televisiva. Os formatos de programas atuais devem ser adaptados para atender às
exigências narrativas da televisão digital. A adaptação deve levar em conta a
possibilidade de participação do receptor.
“A adaptação implica o princípio absurdo de que valores significados existem independentemente do significante expressivo que lhe dá vida. Quando se vai de um sistema a outro, há uma mudança necessária de valores nos significados correspondente à mudança de significantes”2.
A
questão que envolve a noção de adaptação nasceu da afirmação de MCLUHAN3 “o meio é a mensagem, porque é o meio que configura e controla a
proporção e a forma das ações e associações humanas”. Assim, devemos levar em
conta as características fundamentais do meio/veículo televisão digital para o
qual transitamos. Devemos ter o que T. S. Eliot chamou de “olho criativo”, isto
é, um olhar que não esteja contaminado por preceitos arcaicos, mas que busque a
recriação da linguagem televisiva para seu novo formato digital. Haverá emoção
para o mais frio de todos os meios de comunicação, a televisão digital cria
novos conceitos, oferece aos usuários/receptores/internautas, interatividade e
integração de conteúdos.
A
adaptação pressupõe uma modificação ou transformação de caráter informacional.
Informação é toda estrutura processual de signos que exibe um grau de ordem. A
definição genérica de signo é tudo aquilo que representa algo para alguém sob
algum aspecto ou circunstância. Segundo Max Bense4, três são os tipos de informação: documentária, semântica e estética.
A informação documentária reproduz algo observável; é uma sentença de registro.
A informação semântica transcende a documentária, pois, vai além do horizonte
do observável, acrescentando algo novo. A informação estética transcende a
semântica. Pois se apresenta com o privilegio da função poética, isto é, uma
mensagem estruturada ambiguamente em termos do sistema de convenções ou códigos
ao qual pertence. As informações documentárias e semânticas podem ser
codificadas e transmitidas de várias maneiras com o mesmo sentido, já a
informação estética não pode ser decodificada senão pela análise do nível
sintático dos signos selecionados pelo artista. Esta fragilidade é devida à
natureza auto-reflexiva da mensagem estética; sua ambigüidade ou polivalência
está intimamente relacionada à sua configuração. Teoricamente a informação
estética é intraduzível.
Esta
impossibilidade de traduzir mensagens estéticas leva Haroldo de CAMPOS a propor
uma teoria de tradução como recriação, “Numa tradução dessa natureza não se
traduz apenas o significado, traduz-se o próprio signo, ou seja, sua
fisicalidade, sua materialidade”5. Assim, com a televisão
digital surgirá uma nova manifestação da linguagem televisiva. Aqui, as mudanças
são inevitáveis porque não se adapta só o significado da mensagem, mas o
próprio signo em sua materialidade.
A
Web tende a crescer, em conexão ponto-múltiplo e não ponto a ponto, a ampliar
sua capacidade de unir meios de comunicação à medida que vão desenvolvendo
novas tecnologias, elaborando processos intersemióticos onde se tem em um ritmo
alucinante vídeo, áudio, texto, fotos, gráficos, animação, objetos em 3D e etc,
tudo ao mesmo tempo agora. Dos muitos fatores que compõem a estrutura da
linguagem televisiva a adaptação suspende, acrescenta e transforma vários
encadeamentos narrativos. As imagens construídas por qualquer rede de signos
têm que ser lidas, a habilidade de leitura dever ser adquirida pelo receptor,
através do modo como as imagens são encadeadas. Em alguns códigos,
principalmente no da mídia eletrônica, a leitura está diretamente relacionada
ao repertório pessoal da cada receptor/internauta e é determinada pelo uso de
recortes já realizados e, por isso, facilmente reconhecidos e identificados. A
exigência de decodificação caminha no sentido de aproveitar a linguagem
televisiva já estabelecida no repertório coletivo, de forma que a adaptação
opere com uma seleção sígnica garantida pela decodificação do receptor.
A
linguagem da televisão depende da cultura, do passado e do desenvolvimento das
outras formas de comunicação social. Segundo Ciro MARCONDES FILHO6, a linguagem da televisão, no Brasil, deriva das formas de comunicação
populares.
Uma
das principais características da linguagem televisiva é a questão do presente,
Arlindo MACHADO7, afirma “que só o vídeo
(televisão)8 pode restituir o presente
com presença de fato”. Na linguagem televisiva o receptor aceita suspender
temporariamente os seus critérios de credibilidade, passando a estabelecer um
pacto de fantasia com o espetáculo apresentado, como se os fatos estivessem
acontecendo em um mundo à parte, independentemente do ato da enunciação. Assim,
o transporte de informação de um veículo para outro, só pode ocorrer se a
pessoa que realiza a operação tiver pleno domínio do veículo com o qual
trabalha, para poder recriar a mensagem; esta recriação faz surgir uma nova
mensagem, uma nova obra, uma nova linguagem.
A
principal característica da internet é a estrutura da informação que, segundo
LÉVY9 deve ser organizada de modo
semelhante ao sistema de raciocínio humano: associativo, não-linear, intuitivo,
muito imediato. Graças a interação da televisão digital com a internet o
receptor poderá responder às informações provenientes da televisão com seu
teclado e mouse de forma que atuará no processamento de informações, deixando
de ser um mero receptor passivo das informações veiculadas pelas emissoras de
televisão. O que até hoje se consolidou como programas interativos não passam
de formatos arcaicos onde o receptor poder escolher o final da narrativa, não
tendo possibilidade de participar do processo de construção da narrativa.
Prossumidor
Um
exemplo de prossumidor, ou seja, o consumidor que produz o seu produto, um
conceito analisado por KERCKOVE10 pode ser encontrado no site
da MTV, a emissora inaugurou o e-clip, um videoclip interativo, onde o usuário
pode interagir remixando a música e criando uma nova seqüência de imagens. Com
liberdade para “navegar” no mar de imagens armazenadas pela MTV ele produz o
seu clip, que será único, dificilmente dois usuários do programa formarão a
mesma combinação de imagens por que não existe um trajeto que já esteja
definido. O usuário cria seu clip produzindo o seu produto a partir de uma
grande quantidade de imagens e sons porque ele pode acessar instantaneamente e
possui total liberdade para agrupá-las produzindo a narrativa da forma que
melhor lhe couber. Ao concluir seu e-clip o usuáio poderá enviá-lo para quem
desejar e ainda arquivá-lo de forma que outra pessoa possa acessá-lo se tiver
interesse. Estas possibilidades caracterizam a comunicação interativa que é
fundada na participação e não apenas na emissão de mensagens, mas na produção
conjunta da emissão e recepção. A televisão digital transforma o espectador em
emissor. O casamento da televisão digital com a internet propiciará liberdade
de expressão.
O
e-clip apresenta características de videogame porque permite que o usuário
avance estágios e descubra novos caminhos. O usuário quer seus desejos
atendidos rapidamente e não quer ter dificuldades com os softwares, que devem
ser simples e fáceis de serem utilizados, de forma que não sejam necessários
profundos conhecimentos de informática.
Outro
exemplo de prossumidor pode ser encontrado na tecnlogia de multiplixação de
canais, esta será mais uma grande mudança na linguagem televisiva para os
receptores nas transmissões ao vivo, por exemplo: em uma partida de futebol são
dispostas pelo campo 5 câmeras, as imagens de cada câmera é enviada para a mesa
de corte e o diretor de imagens determina qual a câmera que terá sua imagem
transmitida para o receptor, com a multiplixação de canais o receptor terá
acesso às imagens das 5 câmeras. Desta forma ele terá a possibilidade de fazer
a sua edição de imagens, ele escolherá o ângulo que quer assistir do jogo. Esta
mesma tecnologia permite o uso de vários canais de áudio: só o som ambiente da
torcida, o áudio do narrador, o áudio do comentarista, todos eles trafegarão em
trilhas separadas de forma que o receptor poderá escolher o que quer ouvir. O
usuário estará livre para montar sua partida de futebol.
No
campo da ficção os roteiristas poderão desenvolver histórias que se desenrolem
em planos paralelos, cada um deles ocupando um canal, as personagens poderão
ocupar canais específicos, de forma que a trama tomará determinado rumo em um
canal e ao mesmo tempo evoluirá por outros caminhos no canal em outro canal, a
ficção terá formulas múltiplas, os canais exercerão a função que o hiperlink
exerce no hipertexto. A narrativa será construída em uma forma dinâmica, a
história é contada sob diversos pontos de vista numa mesma estrutura narrativa.
Conclusão
A
promessa da televisão digital está se tornando realidade, a convergência da
televisão com a internet proporcionará uma nova linguagem televisiva e
provocará mudanças em nossos hábitos e comportamentos, teremos que reavaliar o
nosso conceito sobre o veículo e suas funções sociais.
A
possibilidade de interatividade fará com que o receptor interatue com a
narrativa modificando a atual leitura de processos narrativos na televisão que
está diretamente determinada pelo uso redundante de alguns recortes já
realizados, e por isso, facilmente reconhecidos e decodificados. O novo
processo narrativo deverá obedecer as exigências de decodificação do receptor,
que caminha no sentido de aproveitar imagens já estabelecidas no repertório
coletivo.
A
elaboração da linguagem televisiva para o formato digital evidencia a autonomia
de escolha por parte do receptor/internauta que terá possibilidade de reflexão,
a televisão evolui. Kerckhove afirma que “tudo o que é estúpido na televisão
passa a ser inteligente com a televisão de alta definição (digital)”.11 A televisão é caracterizada pela difusão
unidirecional em grande escala, fornecendo a mesma informação para indivíduos
totalmente diferentes e não possibilitando ao receptor contribuir ou selecionar
as informações.
A
televisão interativa promete um adensamento na audiência, já que cria maior
interesse porque liga necessidades individuais a mentes coletivas, permitindo a
transmissão de informações arquivadas em bancos de memórias que compõem um
cérebro coletivo, vivo que nunca pára, sempre há alguém conectado à rede,
produzindo, pensando, analisando, transmitindo e combinando informações.
A
mudança de produtor/receptor para consumidor/utilizador transformará os
usuários do sistema de televisão digital em seus próprios produtores, essa
descentralização das produções vem acompanhada pelo barateamento das
tecnologias produtivas e pela facilidade de uso das mesmas, são as tecnologias
plug-and-play, que não exigem conhecimentos específicos de informática para
fazer uso dos softweres.
A
televisão digital exigirá uma completa reciclagem das fórmulas de criação e das
técnicas de produção hoje conhecidas, o impacto da nova tecnologia na linguagem
televisiva será tão grande que afetará o trabalho de diretores, roteiristas,
diretores de fotografia, técnicos de som, cenógrafos, figurinistas,
maquiadores, atores, produtores todos deverão desenvolver os seus trabalhos num
plano de exigência e de complexidade muito maior, marcado pela interatividade.
Todas
as possibilidades de linguagem televisivas questionadas no presente trabalho
encontram-se em fase de implantação. No Brasil ainda não foi definido qual
sistema de transmissão será utilizado. Assim que a Anatel decidir será dado o
primeiro passo para a concretização da televisão digital. O processo de
implantação está em um estágio primário, deixando dúvidas a respeito de que forma
e quais serão os serviços a serem oferecidos ao mercado. Seu padrão estético
depende dos profissionais da área e sua interatividade da disposição dos
telespectadores para se transformarem em prossumidores.
Referências
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MCLUHAN,
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In: Rede Imaginária. São Paulo: Cia das Letras, 1991.
Periódicos
REVISTA
TELAVIVA. São Paulo: Glasberg, nº 96, julho de 2000 .
REVISTA
TELAVIVA. São Paulo: Editora Glasberg, nº 97, setembro de 2000.
REVISTA
MEIO E MENSAGEM. São Paulo: M&M, XXII (926), 18 de setembro de 2000.
Edição Especial “Televisão 50 anos”.
REVISTA MEIO DIGITAL. São Paulo: M&M,, I (5),
18 de setembro de 2000. Edição Especial “Televisão digital: o panorama no
mundo”.
Notas
1 KERCKHOVE, Derrick . O senso comum antigo e novo. In: PARENTE, André (org.) Imagem- máquina. Rio de Janeiro: Editoa 34 Letras, 1993.
2 JOHNSON, Randal. Literatura e cinema: Macunaíma - do modernismo na literatura ao cinema novo. São Paulo: T.A. Queiroz, 1982.
3 MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação: como extensões do homem. São Paulo: Cultrix, 1964.
4 CAMPOS, Haroldo de. A nota estética de Max Bense. In:CAMPOS, Haroldo de Metaliguagem: Ensaios da teoria e crítica literária. 3.ed., São Paulo: Cultrix, s.d.,p.9-20.
5 CAMPOS, Haroldo de. A nota estética de Max Bense. In:CAMPOS, Haroldo de Metaliguagem: Ensaios da teoria crítica literária. 3. ed., São Paulo: Cultrix, s. d., p. 9-20
6 MARCONDES FILHO, Ciro. Televisão: a vida pelo vídeo. 3 ed., São Paulo: Moderna, 1989. p. 57
7 MACHADO, Arlindo.A arte do vídeo. 2 ed. São Paulo: Brasiliense, 1990.
8 Nota minha
9 LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993.
10 KERCKHOVE, Derrick de. A pele da cultura. Lisboa: Relógio D‘água, 1997.
11 KERCKHOVE, Derrick de. A pele da cultura. Lisboa: Relógio D‘água, 1997. p.89.