Por uma teoria
analítico-discursiva do documentário
Mariana
Baltar
Mestranda no programa de pós-gradução em Comunicação,
Imagem e Informação
Universidade Federal Fluminense/UFF
Resumo: Este artigo se propõe a refletir sobre constituição de um campo de reflexão específico para o universo do documentário. Estabelecendo portanto uma proposta de análise que leve em consideração de um lado, as especificidades de sua materialidade (sendo cinema isso quer dizer decupagem, planos, montagem de imagem e som...); de outro lado sua historicidade (a articulação do ideológico e do simbólico em “lugares de fala” e experiências de espectatorialidade). Tal proposta aponta para a necessidade de se entender a experiência documental (mundo da obra somado ao mundo do espectador) enquanto discurso – pensando sobretudo o termo discurso tal como o discute a Análise do Discurso.
“Um conjunto real e verdadeiro é uma doença das nossas idéias.”
Fernando Pessoa
As
questões de definição do gênero documentário perpassam a própria noção do
estatuto da imagem; como ela significa, que papel ocupa enquanto mediadora e de
que lugar (simbólico e ideológico) fala a suas audiências. Se entendemos o
sentido como algo “cambiável” – dialógico para usar um vocabulário emprestado
de Bakhtin – precisamos entendê-lo como um convite; onde o sujeito é
chamado a se instalar nesse sentido, aceitando ou não o “proposto” pela
enunciação.
Uma
certa corrente da teoria do cinema, de linha mais estruturalista, preconizava
que tudo era ficção – não reconhecendo portanto diferenças entre obras
ficcionais e obras classificadas como documentário. Reconhecer que um
documentário não pode ser um extrato da realidade – elevado ao estatuto de
verdade – não significa necessariamente ignorar as diferenças de construção de
sentido entre uma obra documentária e uma obra de ficção.
Tal
diferença se dá quando percebemos que o sentido é construído no jogo de
correlações (correlações de força inclusive) entre obra, audiência e formação
histórica; ou seja, entre sujeitos. Portanto, é mais coerente se falar em
diferentes processos de construção do sentido, em se tratando de diferentes
gêneros narrativos. O que não implica numa estagnação do gênero.
A
noção de quebra de fronteiras – documentário que incorpora estratégias
narrativas da ficção, ficção que incorpora as do documentário, do vídeo-clip,
dos jogos eletrônicos de computador, telejornal que se mistura com a tradição
da teledramaturgia – demonstra que os gêneros existem, têm uma história de usos
e sentidos que constituem também uma ferramenta a ser considerada na análise;
pois tal ferramenta é, sem dúvida, considerada na experiência da audiência.
Enquanto
audiência nos colocamos de maneiras distintas diante de uma enunciação
documentária – da mesma maneira diante de um telejornal, ou de uma
teledramaturgia, ou de uma obra cinematográfica de ficção... enfim, são
infinitas variáveis que configuram o contexto da formação histórica da obra e
de seu encontro com a audiência. 1
Portanto
é preciso pensar a análise dando conta desse duplo movimento – estético e
comunicacional – da obra (que é sempre obra + audiência) e sua formação
histórica. Dentro da tradição da teoria cinematográfica, a reflexão de Ismail
Xavier (1984) é uma das que inspiram tal deslocamento. Assim como outros
pensadores mais contemporâneos2, Xavier parece não deixar
para trás uma tradição de análise fílmica, propondo um pensar sobre as
estratégias narrativas em sua inter-relação com o modelo de cinema – com as
proposições ideológicas e históricas do contexto de engendramento daquelas
teorias e obras.
Cinema
enquanto Discurso
Xavier
(1984) vai optar por chamar o cinema de discurso cinematográfico. Pensar o
cinema como discurso não é um mero escolher de palavras; é um marcar de
posição. Logo na introdução, escreve: “Aqui é assumido que o cinema, como
discurso composto de imagens e sons é, a rigor, (...)sempre um fato de
linguagem, um discurso produzido e controlado, de diferentes formas, por uma
fonte produtora” (Xavier, 1984:10).
O
que vai interessar mais prontamente a ele, pelo menos nesse livro, é a
discussão das propostas estéticas em sua relação tanto com a iconicidade quanto
com a indicialidade da imagem3, especialmente no que diz
respeito às poéticas do realismo; exatamente por conta da ‘impressão de
realidade’ da imagem (ou seja, seu caráter indicial). Nesta obra, Xavier faz
uma revisão crítica das teorias e práticas (poéticas cinematográficas) que
marcam a gênese da tradição cinematográfica, pensando-as em sua inter-relação
ao mundo histórico.
A
problemática do cinema como discurso está longe de ser o objeto do livro de
Xavier, ele na verdade parte dessa noção nas suas análises. O que vai me
interessar mais especificamente aqui é exatamente que noção de cinema está
implicada nas análises e na revisão crítica do autor. Ao assumir o termo
discurso, Xavier acentua a inter-relação das estratégias cinematográficas
(decupagem, montagem – enfim os elementos próprios da linguagem) com a
constituição de uma dada ideologia e/ou formação histórica.. Isso fica mais
explícito por exemplo na análise que ele faz da constituição da indústria
cinematográfica hollywoodiano e a consolidação do modelo clássico-narrativo.
É
por isso que ele vai propor um deslocamento da habitual pergunta em relação a
ideologia da indústria de Hollywood: “A meu ver, o problema básico em torno da
produção de Hollywood não está no fato de existir uma fabricação ou não; mas
está no método desta fabricação e na articulação deste método com os interesses
dos donos da indústria (ou com os imperativos da ideologia burguesa.)”
(Idem:33). O que está implicado aqui é a necessidade de se pensar o filme não
como obra-em-si, mas como obra imbricada com o seu mundo produtor; filme como
elemento da comunicação. O movimento de boa parte do livro é considerar, por
exemplo, o aparato discursivo (citado por Xavier como sendo propaganda,
crítica, literatura) constituindo sentido para aquela estratégia narrativa.
Para
Robert Stam, o filme é: ”em um nível mimesis, representação, mas é também uma
fala, um ato de interlocução contextualizada entre produtores e receptores
socialmente situados. Dizer que arte é ‘construção’ não deveria ser o fim das
discussões, mas o começo. Temos que perguntar, construída por quem? e em que
correlação com quais ideologias e discursos?”4 (Stam, 2000:228)
O
que se anuncia aqui é a problemática de um “lugar-de-fala” determinado para tal
interlocução. Um lugar de fala que vai significar tanto quanto as estratégias
estéticas (e por estratégias estéticas quero dizer especificamente as
articulações narrativas que incluem, no caso do cinema, planos, fotografia,
som, montagem... enfim, que compõem a materialidade da obra). Assim é que
recolocamos a questão das diferenças estratégicas entre um discurso ficcional e
documental (no caso específico da cinematografia).
Bill
Nichols (1991) é uma referência para o estabelecimento de uma reflexão do
documentário – levando em conta a junção entre elementos estéticos e formações
históricas, caracterizando os diversos movimentos da produção deste universo
não-ficcional em termos de Modos de Representação5. O que é importante notar é que Nichols recorta a “realidade
acontecendo”, esse gerúndio de realidade, como o elemento que o filme quer ou
não mostrar; um efeito de realidade que é construído na materialidade da
organização do discurso fílmico. Onde, montagem, escolha de enquadramentos, uso
do som são elementos que conduzem essa impressão, transparente ou opaca, de
captação e tratamento da realidade.
Para
forjar sua teoria, Nichols parte de uma constatação: que, para a sociedade, o
estatuto do documentário é o de evidência do mundo que o habilita para ser um
discurso sobre o mundo histórico que compartilhamos – mesmo que as teorias
cinematográficas insistem em afirmar ao contrário. E tal fato abre o caminho
para pensar especificidades de um campo analítico para o não-ficcional (não
prescindindo da tradição da teoria cinematográfica tributária e engendrada no
universo ficcional).
É
assim que ele coloca o documentário como alinhado aos discursos de sobriedade
(embora não exatamente um “igual” dentro deste universo). Saberes como os da
ciência, economia, política, educação... que constituem uma autoridade de dizer
sobre o mundo – o que também se configura enquanto poder, se pensarmos em
termos foucaultianos6. “Seu discurso tem um ar de
sobriedade a partir do momento em que eles raramente são receptivos aos
personagens ou eventos do ‘mundo do faz de conta’ (a não ser que eles sirvam
pragmaticamente à simulação do mundo ‘real’). Discursos que são de sobriedade
pois consideram sua relação com o real como direta, imediata, transparente.
Através dele o poder se exerce.” (Nichols, 1991:4).
É
por tal relação de familiaridade com os discursos de sobriedade – de alinhamento
ou de afastamento, se considerarmos as obras mais híbridas ou reflexivas – que
a experiência do documentário exige do analista um posicionamento que reflita
sobre variáveis diversas do universo ficcional. Diante do documentário a
audiência se “prepara” para absorver um argumento e não necessariamente
compreender uma estória.
O
apelo a identificação é de outra ordem pela relação do fílmico com o mundo
histórico. E tal apelo é conduzido na materialidade do filme. “A significação
do filme vem com as imagens. Ela é imagens e sons, é sempre algo concreto,
material e específico. O que o filmes têm a dizer sobre a resistência da
condição humana ou sobre a pressão das questões do cotidiano não pode ser
separado da forma de dizer, de como esse dizer nos afeta, de como nos atraímos
pela obra e não pela teoria da obra. A maior parte das teorias contemporâneas
são um pouco deficientes neste nível de percepção – embora não desconsidere os
efeitos ideológicos” (Nichols, 1991: xiii).
Nichols
chama a atenção para o fato dos documentários terem sido esquecidos como
objetos de uma certa corrente teórica que procurava analisar o cinema a luz do
inconsciente ou na sua relação com a ideologia. Se o documentário era marginal
para tais teorias, tributárias da semiótica ou que incorporam o pensamento
psicanalítico, isso se dava pelo pressuposto de que a questão do documentário
era a questão do seu tema. Assim, filmes históricos eram objeto da história,
filmes etnográfico, da Antropologia...
Porém,
uma vez que se entende as narrativas como constituídas e “constituidoras” de um
imaginário – e não se opõe imaginário ao real; mas se percebe entre eles uma
inter-relação produtora de visões de mundo – é preciso incluir com mais
propriedade os documentários como objeto da teoria cinematográfica
contemporânea que considere suas especificidades.
A
relação do documentário com a realidade não passa necessariamente pela ilusão
de transparência – ou seja, se a imagem é um extrato verdadeiro da realidade ou
se é manipulação... Passa por um efeito de sentido que é construído pela
materialidade da narrativa. Por um efeito de realidade – ou seja, como o filme
quer se mostrar transparente ou não em sua relação com o mundo histórico. O que
me interessa é: que documentários querem parecer – em suas estratégias
narrativas e estéticas – fiel à realidade? Como se articulam esteticamente para
tanto e, em última instância, de que lugar falam (um lugar sempre ideológico no
sentido mais amplo).
É
por tais razões que defendo a necessidade de pensar analiticamente a
materialidade do filme associada a sua historicidade, um convite a pensar o
filme como um Discurso.
Entender
o Discurso
“Imagens
podem sim ser uma forma de autentificação guardando algo anterior a elas mesmas
(...), mas os frames, contextos, estruturas narrativas, formas televisivas,
apropriações dos espectadores (...) Isso constitui, conjuntamente, a arena
social do embate interpretativo” (Nichols, 1993:190). É preciso portanto
recolocar o embate interpretativo na ordem da análise do não-ficcional – e esta
é a real especificidade do campo (em relação a uma tradição de teoria
cinematográfica).
Mas
tal embate leva a um deslocamento no conceito mesmo de interpretação; fugindo
da habitual definição desta como ato de compreensão e afirmação do sujeito diante
de uma enunciação. Se o sentido é dialógico e vai se construindo pelas relações
entre os sujeitos, a interpretação é um gesto intrínseco ao significar.
Perspectiva
que encontra eco nas afirmações teóricas da Análise do Discurso – sobretudo a
tributária da corrente francesa. A soma de tais pressupostos com a tradição de
análise cinematográfica exposta até agora constitui uma ferramenta teórica
afinada com as necessidades que trazem a experiência do documentário. Pois
assim será possível trabalhar com duas matizes que interessam especificamente à
experiência do documentário: sua materialidade (estratégias narrativas e
estéticas – uma certa herança analítica) e sua comunicabilidade (o processo de
produção de sentido, que precisa levar em conta sempre a noção de “lugar de
fala”).
Tudo
significa no jogo de relações da produção de sentido; o silêncio, o não-dito, o
equívoco, as epígrafes dos textos, verbais e não-verbais... (as próprias
reticências). Jogo que tem lugar na incompletude dos sentidos, entendidos como
tal quando tanto o material e quanto o simbólico da língua ganham espaço na
análise. É no âmbito do “conjunto das disciplinas da interpretação” (Pêcheux,
1999), onde se situa a Análise do Discurso7,
que se desenvolve um certo deslocamento no entendimento da linguagem.
As
disciplinas da interpretação se encontram como um contraponto à tradicional
análise estrutural: “É porque há o outro nas sociedades e na história,
correspondente a esse outro próprio ao linguageiro discursivo, que aí pode
haver ligação, identificação ou transferência, isto é, existência de uma
relação abrindo espaço para interpretar. E é porque há essa ligação que as
filiações históricas podem-se organizar em memórias, e as relações sociais em
redes de significantes” (Pêcheux, 1997, p. 54).
O
desafio da Análise do Discurso é desvendar a Interpretação8, trabalhando-a como conceito fundamental dos processos de construção
de sentido. Vendo-a como gesto no Discurso, não entendido aqui como mera fala
ou exposição, mesmo que escrita de algo. O Discurso está onde está a linguagem
e portanto a relação, sempre dialógica, entre sujeitos. Dominique Maingueneau
diz: “toda produção de linguagem pode ser considerada discurso” (1993, p.11).
Nessa
busca pelo olhar discursivo, a idéia mesmo de Interpretação ganha outros
contornos. Ela deixa de ser entendida como a compreensão de um texto ou fala,
um ato deliberado, consciente, atuante; e passa a ser um gesto intrínseco dos
sujeitos em relação. Uma operação que convida o indivíduo a ser sujeito, e
portanto a ocupar um lugar na historicidade das relações sociais e culturais,
interpelado pela ideologia e afetado pelo inconsciente. É porque opera a
Interpretação sempre que o homem é sujeito e se assujeita no discurso e no
decurso das suas relações com o mundo.
Eni
Orlandi (1996, p. 147), escreve: “a forma de interpretação – leia-se da relação
dos sujeitos com os sentidos – é historicamente modalizada pela formação social
em que se dá, e ideologicamente constituída.” Daqui decorre a necessidade de
pensar “lugares de fala” (formações históricas e discursivas – para se falar em
conceitos) que orientam os movimentos de produção de sentido. Chamar o sentido
de movimento é colocar no centro da questão o pressuposto de que não há
significado em si, mas sim uma inter-relação tanto com quem “fala”, como para
quem se “fala”9 – e que o próprio sentido é
historicamente construído nessa inter-relação (o próprio documentário por
exemplo fala de um lugar que é historicamente construído como sendo um lugar de
falar sobre a realidade10).
Pode
causar um certo estranhamento teórico aliar a Análise do Discurso a uma
tradição de análise da imagem; afinal tal ferramenta é tradicionalmente
empregada no campo da língua; no campo do verbal. Este porém é um deslocamento
inspirado por trabalhos mais recentes que entendem Discurso como movimento de
produção de sentido que não se restringe ao plano verbal. É assim que Eni
Orlandi (1992) analisa o silêncio como constitutivo do sentido e Tânia Clemente
de Souza (1999) analisa a materialidade sonora das línguas indígenas como
Discurso11.
O
trajeto de ambas pesquisadoras apontam para um caminho diferenciado na
possibilidade de tratamento da imagem: “acaba-se por se propor para o estudo do
não-verbal uma descrição formal da imagem, não entrando em pauta a
materialidade significativa da imagem na sua dimensão discursiva. Ou seja, não
se discutem nem os usos que vêm sendo feitos - como na mídia, por exemplo – da
imagem, nem as possibilidades de interpretação da imagem social e
historicamente determinadas.” (Souza, 1998).
É
comum atribuir a idéia de discursividade à colocação do sujeito e da
interpretação. Como se considerar o cinema enquanto discurso estivesse limitado
a perceber a mediação de uma subjetividade. Esta é a crítica, aliás, feita por
Fernão Ramos (2000) à maioria das análises atuais no campo do não-ficcional.
Contudo, é preciso entender o que está proposto aqui como discursividade.
Trata-se de desvendar como a enunciação (o discurso) significa levando em conta,
de um lado, as especificidades de sua materialidade (sendo cinema isso quer
dizer decupagem, planos, montagem de imagem e som...); de outro lado sua
historicidade (levando em conta a articulação do ideológico e do simbólico em
“lugares de fala” e experiências de espectatorialidade).
Advogar
pela necessidade de uma reflexão específica para o documentário não significa
reunir as produções indexadas12 enquanto tal num saber
unívoco e pretensamente homogeneizador. Ao contrário, é procurar entender
melhor as diferenças através exatamente de sua dispersão: “reconhecer em que
medida nosso objeto de estudo é construído e reconstruído por uma diversidade
de agentes discursivos e comunidades interpretativas” (Nichols, 1991:17).
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Notas
1 Lembrar, como acena Paul Ricouer (1997), que a obra é sempre outra obra quanto o mundo do texto se encontra com o mundo do leitor. “A obra, poder-se-ia dizer, resulta da interação entre texto e leitor. (...) A leitura torna-se esse piquenique em que o autor leva as palavras e o leitor, a significação” (p. 289).
2 Entre eles Michel Renov, Bill Nichols e Roger Odin, apenas para ficar num circuito de reflexão a cerca do documentário.
3 Aqui Xavier está diretamente dialogando com uma tradição teórica comum no período em que ele primeiro escreveu o livro, 1977. A semiótica desenvolvia a noção da imagem como ícone e índice. Xavier contudo vai se diferenciando da abordagem semiótica quando leva em conta exatamente a inter-relação entre estratégias narrativas e formação histórica que engendra tais estratégias.
4 Neste trabalho, todas as citações de bibliografia em língua estrangeira são traduções livres.
5 O autor recorta em quatro os modos de representação: explicativo, observacional, interativo e reflexivo.
6 Roberto Machado, analisando o pensamento de Foucault, lembra: “todo ponto de exercício do poder é, ao mesmo tempo, um lugar de formação de saber” (1993:xxi)
7 A Análise do Discurso (AD) nasce no panorama do pensamento sobre a linguagem a partir de uma ruptura com os preceitos da lingüística, operada sobretudo por Mikhail Bahktin. Em seu desenvolvimento, a AD vai incorporando pressupostos da lingüística, assim como do materialismo histórico, das Ciências Sociais e da Psicanálise, sobretudo a lacaniana. Porém, o fundamental é que há um deslocamento nesses pressupostos, que colocam a linguagem como um fato (e não um dado, tal como quer a lingüística), e entende o sujeito constituído em suas relações como sendo interpelado pela ideologia e pelo inconsciente.
8 Iniciar a palavra sempre por Maiúscula é uma opção para marcar o deslocamento de seu sentido. Trabalho portanto com a necessidade de se firmar um outro entendimento da Interpretação – tal como inspira Eni Orlandi (1996) e Paul Ricouer (1987).
9 Falar aqui não está restrito ao verbal. Imagens, sons, corpos e outros tantos dispositivos são igualmente falantes.
10 Conferir trabalho de Nichols (1991) que configura o documentário como alinhado aos discursos de sobriedade; ou seja, um saber constituído.
11 Atualmente Souza se dedica a pensar a imagem sob a ótica da Análise do Discurso. (Souza, 1998 e 2001).
12 Essa idéia de indexação encontra eco no pensamento de Carl Plantinga em seu livro “Rethoric and Representation in Non Fiction Film”. As narrativas audiovisuais são socialmente indexadas como ficção ou documentário, a partir de determinações diversas: narrativas e extranarrativas, o que implica em diferentes condições de espectatorialidade e portanto de diálogo entre público e obra.