VIOLÊNCIA, MÍDIA, SOCIEDADE E ÉTICA
O CASO DO ÔNIBUS 174

ROGÉRIO LANNES ROCHA

Jornalista
Coordenador do Programa Reunião Análise e Difusão de Informação sobre Saúde (Radis/Fiocruz)
Mestrando em Comunicação e Cultura na Eco/UFRJ
Membro do Núcleo de Pesquisas em Estratégias de Comunicação (Nupec/UFRJ).

Resumo:  O episódio do ônibus 174 é paradigmático não só pela extrema violência vivida por aquele grupo de pessoas – situação comum especialmente nas periferias pobres das grandes cidades brasileiras –, ou pelas diferentes reações de cada um, mas, principalmente, pelo fato de tudo ter sido acompanhado por milhões de pessoas ao vivo pela TV e, posteriormente, pela imprensa, desencadeando amplo debate. Neste texto, a visão da tragédia carioca do 174 como um choque de diferentes éticas, a análise do papel da mídia e uma reflexão sobre a ética.

A tragédia

Na tarde e noite de 12 de junho de 2000, acontecimentos violentos num ônibus da linha 174, Gávea/Central do Brasil, no Rio de Janeiro, envolveram personagens e seguiram roteiro rumo a inexorável destino trágico, como numa tragédia grega, onde ocorre o mito: “a imitação de ações de vida que despertam terror e piedade”.1 O mito nesta tragédia carioca foi um encontro, em situação limite, de diferentes éticas presentes na sociedade brasileira. Ética aqui entendida, essencialmente, como a forma pela qual o desejo de continuidade do grupo atravessa o sujeito.2

Aparentemente, tudo começou quando um passageiro que saltou do ônibus denunciou à polícia que havia um homem armado a bordo. Uma patrulha da PM interceptou o coletivo na Rua Jardim Botânico, altura do Parque Lage, e iniciou-se uma maratona em que Sandro do Nascimento, 21 anos, manteve 11 passageiros como reféns, enquanto tentava negociar com a polícia sua fuga. Durante angustiantes quatro horas e meia, ele ameaçou matar Luana Guimarães Belmonte, 19 anos, Janaína Lopes Neves, 23 anos, e Geisa Firmo Guimarães, 20 anos, que eram puxadas pelo cabelo ou pelo braço de um lado para outro dentro do coletivo, sob a ameaça de um revolver. Janaína chegou a ter sua morte simulada, enquanto a polícia, a imprensa e populares cercavam o veículo. No momento final e mais tenso do episódio, Sandro desceu do ônibus com a arma apontada para Geisa, aparentemente com a intenção de se entregar, quando o policial Marcelo Oliveira Santos, da tropa de elite da PM, partiu em sua direção atirando com uma metralhadora. Sandro não sofreu qualquer ferimento, enquanto a passageira caía atingida por quatro tiros3, morrendo à caminho do hospital. Ato contínuo, cinco policiais agarraram Sandro e o colocaram dentro de um camburão, partindo em direção a um hospital distante, o Souza Aguiar, no centro da cidade, onde ele chegou com o pescoço quebrado, morto por estrangulamento.

Tudo parecia seguir uma determinação, como numa tragédia, em que mesmo o acaso da presença daquelas pessoas fazia sentido. Até algumas ações aparentemente sem nexo das “personagens” dessa história encontram a razão de ser no etos que a cada um envolve, que cada um integra, com o qual está comprometido. Um trágico choque de diferentes éticas particulares a grupos e indivíduos que coexistem numa sociedade partida e dividida em relação a um “bem comum”. Uma tragédia cujo final pateticamente infeliz, com a morte da refém e de seu algoz – por incompetência da polícia, segundo interpretação majoritária da mídia e dos leitores de jornal –só vem confirmar o estado de violência institucionalizado na sociedade brasileira.

Violência e ética

O que torna o episódio do ônibus 174 paradigmático é não só a extrema violência vivida por aquele grupo de pessoas – situação, infelizmente, comum especialmente nas periferias pobres das grandes cidades brasileiras –, nem as diferentes reações de cada um, mas, principalmente, o fato de tudo ter sido acompanhado por milhões de pessoas ao vivo pela TV e, posteriormente, pela imprensa, desencadeando amplo debate. A mídia ouviu governantes, personalidades, religiosos e especialistas em segurança, balística, medicina legal e direito. O assunto monopolizou editoriais, artigos de colunistas, enquetes on-line e uma avalanche de e-mails, fax e cartas de leitores que chegaram às redações desde os primeiros momentos após os acontecimentos e ocupando espaço sem precedentes e por vários dias nas páginas dos jornais. Houve cerimônias religiosas e manifestações de rua.

Foi como se nenhum segmento social tivesse deixado de comentar o caso, numa catarse4 do coro5, composto pela mídia e os curiosos que afluíram para o local (e que, segundo a polícia, queriam linchar o “assaltante”) e pelo público das TVs e rádios que faziam a transmissão direta. Até mesmo as autoridades, que supostamente estariam representadas pela polícia no local, se comportaram como coro, dando declarações à distância, comentando os acontecimentos como se a elas não coubesse nenhum papel decisório nas ações do aparelho repressivo de Estado.

A atitude dos governantes diante dos fatos é um dos indícios do que se poderia identificar como ações movidas por diferentes éticas. Neste caso, uma ética menos comprometida com o “bem público”, do que com a imagem de seus governos. Preocupado com a imagem de sua política de segurança, o governador do Rio de Janeiro questionava, no início daquela tarde, o fascínio da mídia pelas notícias sobre violência, em pronunciamento num encontro internacional de proprietários de veículos de comunicação. Logo após a tragédia do 174, o governador oscilou entre declarações bastante contraditórias: primeiro elogiou a ação da polícia, depois lamentou apenas que tivessem havido mortes: “confesso que o desfecho não me agradou”6. No dia seguinte, assumi nova postura, criticando seus comandados e destituindo os comandantes da Polícia Militar e do Batalhão de Operações Especiais (BOPE).

“Ficamos contristados por não ver uma ação mais rápida”7, foi o comentário do Presidente da República, acrescentando que a polícia deveria ter agido mais prontamente, como se o desfecho trágico se devesse à pouca energia da corporação e não à precipitação do policial que saiu atirando contra Sandro e Geisa e à ação ilegal dos cinco outros que executaram o preso. Ao enfocar o caso apenas como um fato policial, ou de violência a ser combatida com um Plano Nacional de Segurança – anunciado às pressas poucos dias depois, como resposta ao clamor público gerado pelo episódio –, o Presidente procurou dar a impressão de que tinha uma política de intervenção imediata para a solução de um problema emergente e, ao mesmo tempo, desviar as atenções para as causas econômicas e sociais presentes no episódio. Não seria o violento Sandro, um típico subproduto da injustiça social sustentada pelo modelo econômico defendido pelo governo federal, que produz milhares de menores abandonados, moradores de rua, migrantes do campo para as periferias das cidades e delas para os centros, excluídos de toda a sorte? Afinal, ele pertencia ao “bando” de 72 meninos e meninas de rua que se abrigava sob as marquises das sedes de grandes bancos, próximo à Igreja da Candelária, em julho de 1993, quando oito foram mortos enquanto dormiam.8

Tendo escapado daquela ação de policiais no centro do Rio, Sandro – conhecido pelo apelido de “mancha” na época da chacina, quando tinha 13 anos – seguiu driblando a morte trágica à qual estava predestinado pela ética da exclusão social total e pelo cinismo de apagar-lhe as pistas. Em busca de sobrevivência – sem nenhum apoio efetivo de governos e organismos da sociedade, mesmo após a evidência do desamparo daqueles menores com o episódio da chacina –, ele continuou fazendo do crime meio e modo devida. Foi condenado, preso, fugiu de delegacias. Ressurgiu epicamente num banal porte de arma denunciado por um anônimo à uma patrulha.

Homens portando armas circulam todos os dias nos ônibus cariocas e há vezes em que são saldados como heróis por executarem anonimamente assaltantes que se aventuram nos coletivos. É claro que nem sempre os disparos são certeiros e acabam provocando tiroteios que elevam o número de vítimas fatais nos assaltos. Mas, exceto quando o atirador sai ferido ou morto, a ele é permitido pelos passageiros e policiais deixar discretamente o local sem testemunhas, descrições, detenções ou buscas.

Sandro era um assaltante em potencial e, assim identificado, o ônibus foi parado. Quando um policial tentou entrar no ônibus, ele fez seu primeiro refém, expulsou o policial e iniciou uma sucessão de tentativas de evasão com o veículo, intimidação e roubo de dinheiro dos passageiros, ameaças à polícia, exigência de armamento, dinheiro e um veículo para fuga, numa gradação de agitação e violência que logo se traduziu em clima de terror dentro e em torno do ônibus e em toda a parte onde a população acompanhava os acontecimentos pela TV, que logo chegou ao local.9

Colocado, de repente e mais uma vez, no centro da cena nacional, Sandro vive intensamente o reconhecimento10 de si como o protagonista daquela tragédia. Encurralado e, provavelmente, drogado11, ele assume integralmente a essência e a face do mal na sociedade: humilha e ameaça ostensivamente suas reféns (aos poucos, deixou sair todos os homens do ônibus), vocifera contra a polícia, obriga uma das passageiras a escrever com batom no vidro do ônibus que é “louco”, que tem “um pacto com o diabo” e que vai “matar geral”, se não lhe fosse permitida a fuga.12 Sua expressão alucinada, com o rosto negro, magro e desdentado, envolto com um pano e um boné, gritando e apontando sua arma contra a polícia na janela do ônibus virou um ícone da maldade e do terror na cobertura da imprensa e no imaginário da população, o negro mal e diabólico13. Incitada a comentar o caso, a esposa do governador chegou a afirmar que “pela foto (publicada nos jornais), está claro que ele estava endemoninhado”.14

A história de Sandro chegava ao ponto de mudança – sua peripécia15 - em que o drible à morte – o máximo de “boa fortuna” a que os seus iguais têm direito – cederia vez para o fim trágico, que ali ele desafiava mais uma vez, incorporando tudo de mau que lhe fora legado e atribuído. O herói da ética da vingança contra todos, no “dia da caça”, despertando o terror. Mesmo assim, em meio a todo o clima de negação de qualquer valor virtuoso, ele apenas simula a morte da refém. Ameaça com o “mal” total contra o “bem” – na figura dos passageiros indefesos –, mas, na prática, impõe um limite. Despertou piedade nas reféns mais assediadas por suas ameaças. Luana, estudante de Comunicação da PUC, declarou no dia seguinte que “não desejava a morte de Sandro, preferia que ele nunca tivesse existido”16, argumentando que ele também era uma vítima da sociedade.

Luana foi arrastada por Sandro de um lado para outro dentro do ônibus, quando ele ainda tentava inutilmente obrigar que um passageiro, que não sabia dirigir, conduzisse o veículo em fuga. Deixada de lado, ela passou a tentar conversar com o agressor e as outras passageiras, buscando acalmá-los. Suas declarações do dia seguinte só confirmaram suas ações durante o episódio, movidas por uma ética solidária.

Janaína, estudante de Administração da PUC, que entre outros momentos de tortura viveu a simulação de sua própria morte no chão do coletivo e que, enquanto pôde, pediu que os policiais atendessem os pedidos do bandido, para poupar sua vida e a dos outros, declarou aos jornais que sentia raiva e pena de Sandro: “ele é um espelho do que a sociedade faz com pessoas como ele”.17

Mas quem, levada pelo acaso de estar na hora e no lugar “errados”, viveu a condição extrema da mudança trágica de sua vida em direção à “má fortuna” foi Geisa. Naquele momento, ela sabia que estava diante de um algoz que ela, em seu trabalho cotidiano, buscava evitar que existisse. Este reconhecimento do caráter da personagem foi tornado público pela mídia na seqüência dos acontecimentos, com a divulgação do trabalho como recreadora num cetro de atendimento a pessoas vítimas de violência na favela da Rocinha . Como na tragédia grega, ela viveu ali, na ação, a reviravolta rumo ao destino trágico. Depois de temer ser morta dentro do ônibus, ela desce as escadas do veículo agarrada como um escudo por Sandro e, de maneira absurda, em conseqüência da ação policial.

O caminho de Geisa cruzou com o de Sandro no momento da mudança de fortuna de ambos - peripécia e reconhecimento simultâneos18: ela recreadora para meninos pobres da Rocinha, ele ex-menino de rua; ambos buscando alternativa de vida para os que crescem pobres e marginalizados; ele sobrevivendo segundo a ética do crime, ela trabalhando para e segundo a ética solidária e comunitária. No que parecia ser o momento final, ele sobrevive, ela morre “em cena” – uma catástrofe que só algumas tragédias produzem, segundo Aristóteles19.

Ao determinar a morte da refém, a polícia é movida por sua ética de combater “o mal” com o mal, mesmo à custa da eliminação do bem. Uma ética que é incorporada pelo atirador despreparado que partiu para o frustrado ato de heroísmo em que mataria Sandro num lance espetacular, mesmo sem necessidade e expondo a refém a grave risco, em nome do princípio ético de eliminar bandidos. Mas o bandido sobrevive.

Aí entra novamente a polícia com a execução de Sandro, desarmado e sob custódia, em nome da ética de exclusão total – uma radicalização da exclusão social e da eliminação do “mal” –, de repressão e eliminação dos excluídos rebeldes, da vingança, do justiçamento, da punição sem julgamento e sem atenuantes.

Poderia a polícia ser vista como um braço fiel do Estado, nesta hora, fazendo valer um “tipo” de justiça. Mas acresce à prévia omissão de responsabilidade e comando do Estado, neste caso, o fato de que simplesmente a polícia não obedece inteiramente o poder de Estado, não segue a lei, nem se pauta pelos princípios que dela emanam e não se sensibiliza com a voz da comunidade. Ela faz e segue suas próprias leis, segundo a ética privada do justiceiro, muitas vezes por interesses meramente pecuniários – conforme a ética da corrupção, do mercado na ilegalidade –; outras, por interesses pessoais ou de grupo de agentes policiais envolvidos com atividades criminosas – numa ética utilitarista ou individualista também num campo da ilegalidade.

Mas isto não quer dizer que a polícia seja ente bastardo, afastado da sociedade. Sua existência nesses moldes tem amplo respaldo por parte de estruturas de poder de estado e da ideologia de parte da mídia. Não é por outro motivo que, mesmo sob críticas em relação aos seus “excessos’, a polícia segue intocável no papel que desempenha desde sempre na sociedade brasileira, com períodos de maior ou menor ilegalidade nas suas ações. No essencial, conta também com apoio majoritário da população, principalmente das elites – às quais protege prioritariamente – e das classes médias – a quem presta favores e faz concessões -, em seus descaminhos. 45,03% dos leitores do Jornal do Brasil, que participaram de uma pesquisa pela Internet afirmaram “aprovar a ação dos policiais que mataram o assaltante após a sua prisão”, o que foi recriminado apenas por 44,35% dos leitores on line20. Até mesmo as classes populares costumam apoiar ações violentas da polícia, quando se trata de uma situação distante, sem perceber que elas são o seu alvo prioritário.

Considerações sobre o caso, a mídia e a sociedade

Toda tragédia tem seu herói. Para Aristóteles, este personagem não deve ser nem muito bom nem muito mau, deve ser capaz de despertar piedade e terror com seu destino. Sandro seguiu sua peripécia evitando a inexorabilidade da morte violenta em assaltos, prisões e fugas, até o desenlace no ônibus 174, e poderia encarnar, nesta tragédia, a figura do herói que sobreviveu à miséria, à marginalidade, às execuções de meninos de rua por policiais, confrontando a sociedade publicamente com suas mazelas. Afinal, Wagner dos Santos, companheiro de Sandro na Candelária e principal testemunha da chacina, hoje asilado na Suíça, é tratado e reconhecido desta forma por defensores dos direitos civis, ONGs e até pela mídia.

Como vimos, com Geisa também ocorre a “mutação” rumo à má fortuna. Seu encontro com a morte como antítese de seu movimento de busca de vida e “salvação” para tipos como o seu algoz naquele momento, reveste Geisa de certa “subdivindidade” que a determina como ser trágico21, herói da tragédia. O destino de Geisa nos remete ao reconhecimento do Tideu de Teodectes, em que o pai diz: “venho salvar meu filho e eu próprio devo morrer”22, ou ao mito cristão da morte de Cristo para redimir os pecadores. Mais do que heroína, Geisa passa da condição de vítima à de mártir, na visão de grande parte da mídia e da população.

No dia 29 de julho, o programa “Criança Esperança”, da Rede Globo, mostrou cenas do episódio ocorrido no mês anterior, em que Janaína registra no vidro do ônibus as ameaças ditadas por Sandro, usando batom e escrevendo as palavras de forma invertida para serem compreendidas por que estava do lado de fora. O apresentador elogia a coragem e a destreza da jovem durante o “seqüestro” e pede a ela que escreva: “Criança Esperança - este programa é dedicado à Geisa”. Nada é perguntado a Janaína. Ela nada fala. Nada é mencionado sobre as afirmações de Janaína e Luana, de que Sandro também era vítima. Logo ele, reconhecidamente menor abandonado, uma criança sem esperança, que sociedade e mídia viram sobreviver na chacina da Candelária e não foram capazes de alterar seu destino.

Com este simplismo, a TV optou pela superficialidade na revisão do tema. A má fortuna da heroína foi ter morrido e não o fato de que foi vítima do aparato policial que deveria proteger a sua vida, ou mesmo de alguém que ela buscava evitar que existisse, através de seu trabalho comunitário na Rocinha.

Se os jornais contribuíram para o debate sobre o caso com a intensa cobertura da notícia e muitas páginas reservadas para a expressão de diferentes opiniões de leitores e articulistas, o mérito da TV foi manter as câmeras ligadas ininterruptamente (a GloboNews durante todo o tempo e a Record, a partir do início da noite), já que, desligado o fio da mídia – o olho da sociedade naquele momento –, a polícia estaria mais livre para desvarios. Ironicamente, porém, nem a transmissão ao vivo impediu que ela agisse contrariando o bom senso e a lei.

Não há como saber o quanto a presença da mídia pode ter prolongado o impasse ou potencializado as ações de Sandro, da polícia e da população reunida em torno do ônibus, como argumentaram algumas cartas de leitores dos jornais. Mesmo com toda a sua “loucura”, Sandro chegou a advertir aos gritos: “isso aqui não é filme não... aqui acaba mal...” O certo é que o grau de incomunicação e o tensionamento das diferentes éticas existentes na sociedade brasileira e refletido naquela tragédia, fizeram com que tudo transcorresse da pior maneira, mesmo com os holofotes acesos.

Toda tragédia, em Aristóteles, tem um , que se constitui de “todos os casos que estão fora da ação e, muitas vezes dentro” dela, “até o lugar onde se dá o passo para a boa ou a má fortuna”, e um desenlace, que é “todo o resto da ação... do início da mudança até o fim”23. A morte de Sandro sob custódia da polícia (consentida por quase metade dos leitores do JB on line) tem menos a ver com o desenlace da tragédia do ônibus 174, do que com o onde estão as origens do que aconteceu naquele confronto. É expressão do dentro da ação. que expõe a realidade brasileira, geradora de violência, não apenas aquela anômica, das ações de psicopatas, do ilegalismo; mas principalmente a violência institucional, invisível, do estado de violência24. Por ter sido menino de rua, vítima da violência policial e do abandono social, Sandro é paradigma de muitos no Brasil. Neste exato momento muitos Sandros e muitos policiais como os que o executaram e provocaram a morte de Geisa estão sendo produzidos pela sociedade brasileira (incluindo Estado e mídia). Por isso a tragédia do 174 pode ser vista como desenlace de um processo de produção sistemática de injustiças sociais e violência em larga escala, de exclusão econômica e social, de uma crise ética que requer profunda análise.

Há os que vêem no episódio do ônibus 174 um fato isolado, gerado por um indivíduo violento. A mídia, por sua vez, tende a tratar fatos como este como um “caso”, em que a narrativa emocional e a cobertura de seus desdobramentos exclui a reflexão sobre o contexto social que produz o evento. O poder constituído busca “bodes expiatórios” para culpar (ou punir, quando pune), desviando a discussão da questão social para o âmbito da segurança policial. Mas o desafio que se coloca no exercício de interpretação dos acontecimentos daquele dia e de suas origens e repercussões é buscar fazer uma reflexão ética. Abordar filosoficamente os fatos, buscar uma reflexão ética, é distinguir, como em Platão, a “facticidade” da “normatividade”25; identificar o etos vigente, conforme propõe Aristóteles, para buscar o que é o bem e o que é o mal na polis que fracassou em oferecer a “vida boa” a seus cidadãos26; pensar, como Kant, os princípios que norteiam a ética (moral para ele) expressas nas atitudes de cada um27; distinguir, como Marx, as formas de sociabilidade que coordenam as ações dos sujeitos, sejam intencionais ou simbolicamente mediadas.28

No processo de uma reflexão ética, outra questão está colocada: trata-se de fazer um resgate ou uma escolha ética?

Diante da crise ética da sociedade brasileira – observada a sua relação com o que se passa com outros povos e culturas e com o papel que neste contexto desempenham os modelos econômicos, o poder dos Estados e da mídia –, será o caso de se resgatar princípios de uma ética universal, valores emanados de divindades, aristocracias, elites, Estados e leis? Ou a alternativa está no campo da escolha de um agir ético, praxis29 que, entre outros caminhos, pode derivar para uma ética privada da busca da autonomia e liberdade individual, mas também pode se referenciar num “bem comum” que emane das classes sociais ou das comunidades humanas, construído nas relações de troca e de convivência?

Diante da injustiça social, da violência policial e da ideologia excludente ou silêncio cúmplice da mídia, classes populares brasileiras ainda encontram formas diversas de sobreviver organizadas em comunidades, preservadas pela força do comum.

No documentário “Notícia de uma guerra particular”, de Walter Moreira Salles, essa ética comunitária se manifesta na angústia e decisão das mulheres da favela Santa Marta, no Rio de Janeiro, seguindo de perto os policiais que conduzem jovens por estreitas vielas até o alto do morro, para impedir que eles sejam espancados ou mortos. O cortejo tenso prossegue até que os policiais desistem e retornam às viaturas, no asfalto, levando os suspeitos presos, mas vivos. Na imagem das câmeras, a expressão de alívio dos moradores diante daquela pequena vitória do solidário: a arte feita sobre a realidade da comunidade apartada.

A ética comunitária dos excluídos está presente nos desenhos e redações das crianças que freqüentam a creche e escola “Meninos de Luz”, que viveu um dia de terror em meio aos tiros entre policiais e traficantes numa invasão aos Morros do Cantagalo e Pavão-Pavãozinho, em Copacabana, no Rio de Janeiro, em maio de 2000. São traços e palavras de meninos acostumados a ver outros meninos baleados pela polícia, mas que falam de amor aos familiares, de necessidade de paz, desejo de justiça, espírito de resistência e esperança, os valores mais virtuosos nos sonhos dos grupos familiares locais.30 A arte imanente na comunidade sitiada.

Esta ética se manifesta também nas imagens do videoclipe do grupo O Rappa, realizado para a música “A minha alma (A paz que eu não quero)”, do CD “Lado B, Lado A”, vencedor do Prêmio Multishow de Música Brasileira 2000, dedicado pela banda ao ex-Coordenador de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Luís Eduardo Soares, e do concorrido Vídeo Music Brasil 2000, da MTV. No clipe, o menino “Gigante” – negro e de óculos – , o menor da sua turma de vizinhos, se desgarra do grupo em meio ao tumulto de uma ação policial na favela e assiste atento e atônito aos policiais prendendo outras crianças e adolescentes e matando um deles atrás do camburão com um tiro, enquanto a comunidade aflita reclama, corre para o local e inicia saque e depredação de lojas, vira e incendeia um carro, ameaça confrontar-se com policiais que brandem armas e atiram para o alto. Enquanto se desenrolam as cenas em preto e branco, segue o refrão: “...me abrace, me dê um beijo, faça um filho comigo, mas não me deixe aqui sentado na poltrona, num dia de domingo...”, fazendo a arte transcender a comunidade violentada.

Vivemos um momento em que as três dimensões da vida descritas por Aristóteles – a bios da política, a da ética e a do prazer – são mediadas e influenciadas em um novo ambiente simulado ao lado dos sistemas reais31, uma esfera do quase real, a “quarta bios” ordenada pela informação. A “bios virtual”32, onde a mídia se sustenta pelo discurso da moralidade, determinando hábitos, costumes e modo de pensar segundo sua ética utilitarista e comprometida com o mercado e o capital. E neste contexto, “quando o fio da mídia se desliga, é cada um por si”.33 ...Ou ainda resta a esperança nas alianças e na convivência comunitárias e solidárias?

Referências

Livros

ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 1999.

FORD, A. La marca de la bestia: identificación, desigualdades e infoentretenimiento en la sociedad contemporánea. Buenos Aires: Norma, 1999.

KANT, I. Crítica da razão prática. Lisboa: Edições 70, s/d.

LESKY, A. A tragédia grega. São Paulo: Perspectiva, 1971.

OLIVEIRA, M. A. Ética e sociabilidade. São Paulo: Loyola, 1996.

ROITMAM, A. (org.). O desafio ético. Rio de Janeiro: Garamond, 2000.

SODRÉ, M. Claros e escuros: identidade, povo e mídia no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1999.

_________ O social irradiado: violência urbana, neogrotesco e mídia. São Paulo: Cortez, 1992.

Periódicos

“Guerra urbana – crianças de escola do Cantagalo transformam cenas de conflito no morro num pedido de paz”. Jornal do Brasil. 21 mai. 2000. p. 15.

Quantos são afinal nossos internautas? Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 29 jun. 2000. Internet. p. 3.

“JB on line”. Jornal do Brasil. 15 jun. 2000. p. 1.

Vida real. O Dia. Rio de Janeiro, 8 jul. 2000. Caderno D+ Mulher. p. 4.

“Para Luana, seqüestrador foi vítima”. Jornal do Brasil. 14 jun. 2000. p. 24.

“O Rio continua a cidade maravilhosa”. O Globo. 14 jun. 2000. p 21.

XEXEU, A. “Para não dizer que não falei de Rosinhas”. Jornal do Brasil. 16 jun. 2000. Caderno B, p. 6.

“Marcados para morrer”. Jornal do Brasil. 19 jun. 2000. p. 1 e 18.

“Um erro fatal”. O Globo. 13 jun. 2000. p.1 e 15-21.

“Saiba mais sobre o fracasso da ação policial”. O Globo. 14 jun. 2000. p. 18.

Notas

1   Para Aristóteles, a tragédia “é a imitação de uma ação”, que suscite “piedade e terror” e “que se executa mediante personagens que agem e que diversamente se apresentam, conforme o próprio caráter e pensamento”. O mito, para ele, é também a imitação das ações – “a composição dos atos” – , que são qualificadas pela diferença de caráter e pensamento. Por caráter, o autor entende “o que nos faz dizer das personagens que elas têm tal ou qual qualidade”; por pensamento, “tudo quanto digam as personagens para demonstrar o que quer que seja ou para manifestar sua decisão”. ARISTÓTELES. Poética. VI 30 e XI 62.

2   Cf. Muniz Sodré, em aula. Eco/UFRJ. 2000.

3   Um tiro do policial e três da arma de Sandro, segundo a perícia. “Saiba mais sobre o fracasso da ação policial”. O Globo. 14 jun. 2000. p. 18.

4   Em Aristóteles, a catarse tem o efeito de “purificar os sentimentos de piedade e terror” presentes na tragédia, interpreta Eudoro de Souza, na introdução à tradução portuguesa de Poética. Lisboa: INCM, 1998. p. 99.

5   A presença do público no local ou via TV, através das câmeras e holofotes, não foi irrelevante no rumo dos acontecimentos daquele dia. O “canto em cena” do público local rompendo os cordões de isolamento e, segundo a polícia, tentando linchar Sandro, é usado como argumento dos advogados de defesa dos policiais, para justificar o assassinato do assaltante sob custódia policial, como “legitima defesa da sociedade”. “O coro também deve ser considerado como um dos atores; deve fazer parte do todo, e da ação...”, diz Aristóteles. Poética. XVIII 110.

6   “Um erro fatal”. O Globo. 13 jun. 2000. p.1 e 15-21.

7   Ibidem.

8   Dos sobreviventes da chacina da Candelária, 40 foram assassinados, cinco morreram de Aids, seis estão presos, dois são gerentes de tráfego, um está doente, cinco têm “vida digna”, quatro ainda vivem na rua. “Marcados para morrer”. Jornal do Brasil. 19 jun. 2000. p. 1 e 18.

9   O Jardim Botânico, bairro de classe média e rica e sede da Rede Globo é um dos epicentros midiáticos do país – freqüentemente, basta uma chuva forte e as imagens de suas ruas alagadas são transmitidas em rede para todo o Brasil.

10  Reconhecimento como “passagem do ignorar ao conhecer, que se faz para amizade ou inimizade das personagens que estão destinadas para a dita ou a desdita”. ARISTÓTELES. Poética. XI 61.

11  As evidências, embora tidas como aspecto de destaque na argumentação de leitores e articulistas em suas avaliações a posteriori do fato, não chegaram a ser comprovadas pelo exame cadavérico, que priorizou identificar as razões de sua inexplicável morte após a detenção.

12  Em artigo escrito no início de 2000, o então coordenador de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Luiz Eduardo Soares, diz que “o garoto negro e pobre é quase invisível, nas grandes cidades brasileiras” e segue fazendo uma análise apropriada para a compreensão do reconhecimento vivido por Sandro: “Nós passamos por eles, nas ruas, com indiferença. Quando um deles se aproxima, portando uma arma e nos ameaçando, ganha visibilidade e conquista todos os atributos da presença. Em breve, a densidade ontológica alcançada pela imposição do medo lhe dará nome e status, ainda que os privilégios da identidade se radiquem na escala negativa, construída no mundo do crime. A dialética ardilosa faz com que a auto-estima se afirme pelo avesso, como a contrapartida da capacidade de despertar medo, como a contrapartida do reconhecimento obtido pela ameaça, como o subproduto de uma tangibilidade perversa.” ROITMAN, A. 2000. p. 60 e 61.

13  A face com a expressão alucinada de Sandro foi destacada de uma foto e usada como vinheta, junto com a frase “inferno no 174”, para ilustrar todas as páginas da cobertura do caso pelo jornal EXTRA. Muniz Sodré lembra que desde o início da escravidão moderna, o homem negro é aquele obrigado a realizar o desejo de outrem – o senhor: “Na prática, cumprir a vontade alheia é sujeitar-se à imprevisibilidade das representações que possam advir do descontrole ético das tarefas. Assim, o negro passa a ser representado ora como negro bom (em geral, infantilizado, subserviente, sorridente, nos termos da representação social do bom selvagem de Rousseau), ora como negro mal (animalizado, homicida, impiedoso, mais ou menos conforme os traços do selvagem Caliban, personagem shakespeareano de A Tempestade)”. Ele acrescenta que a historiografia mostra como o lado demoníaco do senhor podia ser assumido por seu escravo negro, desenvolvendo-se deste modo, ao longo dos tempos, “uma imagem sombria e desfavorável que se incorpora às representações intelectualizadas e, subseqüentemente, ao senso comum das populações de cor clara”. Sodré, M. 1999. p. 148.

14  XEXEU, A. “Para não dizer que não falei de Rosinhas”. Jornal do Brasil. 16 jun. 2000. Caderno B, p. 6.

15  A “mutação dos sucessos no contrário” vivida pela personagem. ARISTÓTELES. Poética. XI 60.

16  “Para Luana, seqüestrador foi vítima”. Jornal do Brasil. 14 jun. 2000. p. 24.

17  “O Rio continua a cidade maravilhosa”. O Globo. 14 jun. 2000. p 21.

18  Situação descrita por Aristóteles como do “mito complexo”. Poética. X 58.

19  ARISTÓTELES. Poética. XI 64.

20  “JB on line”. Jornal do Brasil. 15 jun. 2000. p. 1.

21  Segundo Eudoro de Sousa, na introdução à tradução portuguesa da obra de Aristóteles, “é na tragédia e pela tragédia que o herói se reveste daquela subdivindade ou super-humanidade, que se determina como o ser trágico” e que “o herói não se determina a si mesmo como trágico, mas é por outrem determinado como tal”. ARISTÓTELES. Poética. Lisboa: INCM, 1998. p 83.

22  Ibidem. XVI 96.

23       ARISTÓTELES. Poética. XVIII 105. ?(p. 128.)

24  Cf. Muniz Sodré, em aula. Eco/UFRJ. 2000.

25  OLIVEIRA, M. Ética e Sociabilidade. São Paulo: Loyola, 1996. p. 34.

26  Ibidem. p. 61.

27  Ibidem. pp. 176-179.

28  Ibidem. p. 259.

29  Praxis entendida não como prática repetidora, mas como transformadora de relações, operando sobre sujeito e objeto.

30  “Guerra urbana – crianças de escola do Cantagalo transformam cenas de conflito no morro num pedido de paz”. Jornal do Brasil. 21 mai. 2000. p. 15.

31  Ironicamente, todas as fotos e imagens do memento da morte de Geisa trazem ao fundo, como uma lua, uma propaganda luminosa do UOL, maior provedor brasileiro da Internet.

32  Cf. Muniz Sodré, em aula. Eco/UFRJ. 2000.

33  Ibidem.