VIOLÊNCIA, MÍDIA, SOCIEDADE E
ÉTICA
O CASO DO ÔNIBUS 174
ROGÉRIO LANNES ROCHA
Jornalista
Coordenador do Programa Reunião Análise e Difusão de Informação sobre Saúde
(Radis/Fiocruz)
Mestrando em Comunicação e Cultura na Eco/UFRJ
Membro do Núcleo de Pesquisas em Estratégias de Comunicação (Nupec/UFRJ).
Resumo: O episódio do ônibus 174 é paradigmático não só pela extrema violência vivida por aquele grupo de pessoas – situação comum especialmente nas periferias pobres das grandes cidades brasileiras –, ou pelas diferentes reações de cada um, mas, principalmente, pelo fato de tudo ter sido acompanhado por milhões de pessoas ao vivo pela TV e, posteriormente, pela imprensa, desencadeando amplo debate. Neste texto, a visão da tragédia carioca do 174 como um choque de diferentes éticas, a análise do papel da mídia e uma reflexão sobre a ética.
A
tragédia
Na
tarde e noite de 12 de junho de 2000, acontecimentos violentos num ônibus da
linha 174, Gávea/Central do Brasil, no Rio de Janeiro, envolveram personagens e
seguiram roteiro rumo a inexorável destino trágico, como numa tragédia grega,
onde ocorre o mito: “a imitação de ações de vida que despertam terror e
piedade”.1 O mito nesta tragédia
carioca foi um encontro, em situação limite, de diferentes éticas presentes na
sociedade brasileira. Ética aqui entendida, essencialmente, como a forma pela
qual o desejo de continuidade do grupo atravessa o sujeito.2
Aparentemente,
tudo começou quando um passageiro que saltou do ônibus denunciou à polícia que
havia um homem armado a bordo. Uma patrulha da PM interceptou o coletivo na Rua
Jardim Botânico, altura do Parque Lage, e iniciou-se uma maratona em que Sandro
do Nascimento, 21 anos, manteve 11 passageiros como reféns, enquanto tentava
negociar com a polícia sua fuga. Durante angustiantes quatro horas e meia, ele
ameaçou matar Luana Guimarães Belmonte, 19 anos, Janaína Lopes Neves, 23 anos,
e Geisa Firmo Guimarães, 20 anos, que eram puxadas pelo cabelo ou pelo braço de
um lado para outro dentro do coletivo, sob a ameaça de um revolver. Janaína
chegou a ter sua morte simulada, enquanto a polícia, a imprensa e populares
cercavam o veículo. No momento final e mais tenso do episódio, Sandro desceu do
ônibus com a arma apontada para Geisa, aparentemente com a intenção de se
entregar, quando o policial Marcelo Oliveira Santos, da tropa de elite da PM,
partiu em sua direção atirando com uma metralhadora. Sandro não sofreu qualquer
ferimento, enquanto a passageira caía atingida por quatro tiros3, morrendo à caminho do hospital. Ato contínuo, cinco policiais
agarraram Sandro e o colocaram dentro de um camburão, partindo em direção a um
hospital distante, o Souza Aguiar, no centro da cidade, onde ele chegou com o
pescoço quebrado, morto por estrangulamento.
Tudo
parecia seguir uma determinação, como numa tragédia, em que mesmo o acaso da
presença daquelas pessoas fazia sentido. Até algumas ações aparentemente sem
nexo das “personagens” dessa história encontram a razão de ser no etos
que a cada um envolve, que cada um integra, com o qual está comprometido. Um
trágico choque de diferentes éticas particulares a grupos e indivíduos que
coexistem numa sociedade partida e dividida em relação a um “bem comum”. Uma
tragédia cujo final pateticamente infeliz, com a morte da refém e de seu algoz
– por incompetência da polícia, segundo interpretação majoritária da mídia e
dos leitores de jornal –só vem confirmar o estado de violência
institucionalizado na sociedade brasileira.
Violência
e ética
O
que torna o episódio do ônibus 174 paradigmático é não só a extrema violência
vivida por aquele grupo de pessoas – situação, infelizmente, comum
especialmente nas periferias pobres das grandes cidades brasileiras –, nem as
diferentes reações de cada um, mas, principalmente, o fato de tudo ter sido
acompanhado por milhões de pessoas ao vivo pela TV e, posteriormente, pela
imprensa, desencadeando amplo debate. A mídia ouviu governantes,
personalidades, religiosos e especialistas em segurança, balística, medicina
legal e direito. O assunto monopolizou editoriais, artigos de colunistas,
enquetes on-line e uma avalanche de e-mails, fax e cartas de leitores que
chegaram às redações desde os primeiros momentos após os acontecimentos e
ocupando espaço sem precedentes e por vários dias nas páginas dos jornais.
Houve cerimônias religiosas e manifestações de rua.
Foi
como se nenhum segmento social tivesse deixado de comentar o caso, numa catarse4 do coro5, composto pela mídia e os curiosos que afluíram
para o local (e que, segundo a polícia, queriam linchar o “assaltante”) e pelo
público das TVs e rádios que faziam a transmissão direta. Até mesmo as
autoridades, que supostamente estariam representadas pela polícia no local, se
comportaram como coro, dando declarações à distância, comentando os
acontecimentos como se a elas não coubesse nenhum papel decisório nas ações do
aparelho repressivo de Estado.
A
atitude dos governantes diante dos fatos é um dos indícios do que se poderia
identificar como ações movidas por diferentes éticas. Neste caso, uma ética
menos comprometida com o “bem público”, do que com a imagem de seus governos.
Preocupado com a imagem de sua política de segurança, o governador do Rio de
Janeiro questionava, no início daquela tarde, o fascínio da mídia pelas
notícias sobre violência, em pronunciamento num encontro internacional de
proprietários de veículos de comunicação. Logo após a tragédia do 174, o
governador oscilou entre declarações bastante contraditórias: primeiro elogiou
a ação da polícia, depois lamentou apenas que tivessem havido mortes: “confesso
que o desfecho não me agradou”6. No dia seguinte, assumi
nova postura, criticando seus comandados e destituindo os comandantes da
Polícia Militar e do Batalhão de Operações Especiais (BOPE).
“Ficamos
contristados por não ver uma ação mais rápida”7, foi o comentário do Presidente da República, acrescentando que a
polícia deveria ter agido mais prontamente, como se o desfecho trágico se
devesse à pouca energia da corporação e não à precipitação do policial que saiu
atirando contra Sandro e Geisa e à ação ilegal dos cinco outros que executaram
o preso. Ao enfocar o caso apenas como um fato policial, ou de violência a ser
combatida com um Plano Nacional de Segurança – anunciado às pressas poucos dias
depois, como resposta ao clamor público gerado pelo episódio –, o Presidente
procurou dar a impressão de que tinha uma política de intervenção imediata para
a solução de um problema emergente e, ao mesmo tempo, desviar as atenções para
as causas econômicas e sociais presentes no episódio. Não seria o violento
Sandro, um típico subproduto da injustiça social sustentada pelo modelo
econômico defendido pelo governo federal, que produz milhares de menores
abandonados, moradores de rua, migrantes do campo para as periferias das
cidades e delas para os centros, excluídos de toda a sorte? Afinal, ele
pertencia ao “bando” de 72 meninos e meninas de rua que se abrigava sob as
marquises das sedes de grandes bancos, próximo à Igreja da Candelária, em julho
de 1993, quando oito foram mortos enquanto dormiam.8
Tendo
escapado daquela ação de policiais no centro do Rio, Sandro – conhecido pelo
apelido de “mancha” na época da chacina, quando tinha 13 anos – seguiu
driblando a morte trágica à qual estava predestinado pela ética da exclusão
social total e pelo cinismo de apagar-lhe as pistas. Em busca de sobrevivência
– sem nenhum apoio efetivo de governos e organismos da sociedade, mesmo após a
evidência do desamparo daqueles menores com o episódio da chacina –, ele
continuou fazendo do crime meio e modo devida. Foi condenado, preso, fugiu de
delegacias. Ressurgiu epicamente num banal porte de arma denunciado por um
anônimo à uma patrulha.
Homens
portando armas circulam todos os dias nos ônibus cariocas e há vezes em que são
saldados como heróis por executarem anonimamente assaltantes que se aventuram
nos coletivos. É claro que nem sempre os disparos são certeiros e acabam
provocando tiroteios que elevam o número de vítimas fatais nos assaltos. Mas,
exceto quando o atirador sai ferido ou morto, a ele é permitido pelos
passageiros e policiais deixar discretamente o local sem testemunhas,
descrições, detenções ou buscas.
Sandro
era um assaltante em potencial e, assim identificado, o ônibus foi parado.
Quando um policial tentou entrar no ônibus, ele fez seu primeiro refém,
expulsou o policial e iniciou uma sucessão de tentativas de evasão com o
veículo, intimidação e roubo de dinheiro dos passageiros, ameaças à polícia,
exigência de armamento, dinheiro e um veículo para fuga, numa gradação de
agitação e violência que logo se traduziu em clima de terror dentro e em torno
do ônibus e em toda a parte onde a população acompanhava os acontecimentos pela
TV, que logo chegou ao local.9
Colocado,
de repente e mais uma vez, no centro da cena nacional, Sandro vive intensamente
o reconhecimento10 de si como o protagonista
daquela tragédia. Encurralado e, provavelmente, drogado11, ele assume integralmente a essência e a face do
mal na sociedade: humilha e ameaça ostensivamente suas reféns (aos poucos,
deixou sair todos os homens do ônibus), vocifera contra a polícia, obriga uma
das passageiras a escrever com batom no vidro do ônibus que é “louco”, que tem
“um pacto com o diabo” e que vai “matar geral”, se não lhe fosse permitida a
fuga.12 Sua expressão alucinada,
com o rosto negro, magro e desdentado, envolto com um pano e um boné, gritando
e apontando sua arma contra a polícia na janela do ônibus virou um ícone da
maldade e do terror na cobertura da imprensa e no imaginário da população, o
negro mal e diabólico13. Incitada a comentar o
caso, a esposa do governador chegou a afirmar que “pela foto (publicada nos
jornais), está claro que ele estava endemoninhado”.14
A
história de Sandro chegava ao ponto de mudança – sua peripécia15 - em que o drible à morte – o máximo de “boa fortuna”
a que os seus iguais têm direito – cederia vez para o fim trágico, que ali ele
desafiava mais uma vez, incorporando tudo de mau que lhe fora legado e
atribuído. O herói da ética da vingança contra todos, no “dia da caça”,
despertando o terror. Mesmo assim, em meio a todo o clima de negação de
qualquer valor virtuoso, ele apenas simula a morte da refém. Ameaça com o “mal”
total contra o “bem” – na figura dos passageiros indefesos –, mas, na prática,
impõe um limite. Despertou piedade nas reféns mais assediadas por suas ameaças.
Luana, estudante de Comunicação da PUC, declarou no dia seguinte que “não
desejava a morte de Sandro, preferia que ele nunca tivesse existido”16, argumentando que ele também era uma vítima da
sociedade.
Luana
foi arrastada por Sandro de um lado para outro dentro do ônibus, quando ele
ainda tentava inutilmente obrigar que um passageiro, que não sabia dirigir,
conduzisse o veículo em fuga. Deixada de lado, ela passou a tentar conversar
com o agressor e as outras passageiras, buscando acalmá-los. Suas declarações
do dia seguinte só confirmaram suas ações durante o episódio, movidas por uma
ética solidária.
Janaína,
estudante de Administração da PUC, que entre outros momentos de tortura viveu a
simulação de sua própria morte no chão do coletivo e que, enquanto pôde, pediu
que os policiais atendessem os pedidos do bandido, para poupar sua vida e a dos
outros, declarou aos jornais que sentia raiva e pena de Sandro: “ele é um
espelho do que a sociedade faz com pessoas como ele”.17
Mas
quem, levada pelo acaso de estar na hora e no lugar “errados”, viveu a condição
extrema da mudança trágica de sua vida em direção à “má fortuna” foi Geisa.
Naquele momento, ela sabia que estava diante de um algoz que ela, em seu
trabalho cotidiano, buscava evitar que existisse. Este reconhecimento do
caráter da personagem foi tornado público pela mídia na seqüência dos
acontecimentos, com a divulgação do trabalho como recreadora num cetro de
atendimento a pessoas vítimas de violência na favela da Rocinha . Como na
tragédia grega, ela viveu ali, na ação, a reviravolta rumo ao destino trágico.
Depois de temer ser morta dentro do ônibus, ela desce as escadas do veículo
agarrada como um escudo por Sandro e, de maneira absurda, em conseqüência da
ação policial.
O
caminho de Geisa cruzou com o de Sandro no momento da mudança de fortuna de
ambos - peripécia e reconhecimento simultâneos18: ela recreadora para meninos pobres da Rocinha, ele
ex-menino de rua; ambos buscando alternativa de vida para os que crescem pobres
e marginalizados; ele sobrevivendo segundo a ética do crime, ela trabalhando
para e segundo a ética solidária e comunitária. No que parecia ser o momento
final, ele sobrevive, ela morre “em cena” – uma catástrofe que só
algumas tragédias produzem, segundo Aristóteles19.
Ao
determinar a morte da refém, a polícia é movida por sua ética de combater “o
mal” com o mal, mesmo à custa da eliminação do bem. Uma ética que é incorporada
pelo atirador despreparado que partiu para o frustrado ato de heroísmo em que
mataria Sandro num lance espetacular, mesmo sem necessidade e expondo a refém a
grave risco, em nome do princípio ético de eliminar bandidos. Mas o bandido
sobrevive.
Aí
entra novamente a polícia com a execução de Sandro, desarmado e sob custódia,
em nome da ética de exclusão total – uma radicalização da exclusão social e da
eliminação do “mal” –, de repressão e eliminação dos excluídos rebeldes, da
vingança, do justiçamento, da punição sem julgamento e sem atenuantes.
Poderia
a polícia ser vista como um braço fiel do Estado, nesta hora, fazendo valer um
“tipo” de justiça. Mas acresce à prévia omissão de responsabilidade e comando
do Estado, neste caso, o fato de que simplesmente a polícia não obedece
inteiramente o poder de Estado, não segue a lei, nem se pauta pelos princípios
que dela emanam e não se sensibiliza com a voz da comunidade. Ela faz e segue
suas próprias leis, segundo a ética privada do justiceiro, muitas vezes por
interesses meramente pecuniários – conforme a ética da corrupção, do mercado na
ilegalidade –; outras, por interesses pessoais ou de grupo de agentes policiais
envolvidos com atividades criminosas – numa ética utilitarista ou
individualista também num campo da ilegalidade.
Mas
isto não quer dizer que a polícia seja ente bastardo, afastado da sociedade.
Sua existência nesses moldes tem amplo respaldo por parte de estruturas de
poder de estado e da ideologia de parte da mídia. Não é por outro motivo que,
mesmo sob críticas em relação aos seus “excessos’, a polícia segue intocável no
papel que desempenha desde sempre na sociedade brasileira, com períodos de
maior ou menor ilegalidade nas suas ações. No essencial, conta também com apoio
majoritário da população, principalmente das elites – às quais protege
prioritariamente – e das classes médias – a quem presta favores e faz
concessões -, em seus descaminhos. 45,03% dos leitores do Jornal do Brasil, que
participaram de uma pesquisa pela Internet afirmaram “aprovar a ação dos
policiais que mataram o assaltante após a sua prisão”, o que foi recriminado
apenas por 44,35% dos leitores on line20. Até mesmo as classes populares costumam apoiar
ações violentas da polícia, quando se trata de uma situação distante, sem
perceber que elas são o seu alvo prioritário.
Considerações
sobre o caso, a mídia e a sociedade
Toda
tragédia tem seu herói. Para Aristóteles, este personagem não deve ser nem
muito bom nem muito mau, deve ser capaz de despertar piedade e terror com seu
destino. Sandro seguiu sua peripécia evitando a inexorabilidade da morte
violenta em assaltos, prisões e fugas, até o desenlace no ônibus 174, e
poderia encarnar, nesta tragédia, a figura do herói que sobreviveu à miséria, à
marginalidade, às execuções de meninos de rua por policiais, confrontando a
sociedade publicamente com suas mazelas. Afinal, Wagner dos Santos, companheiro
de Sandro na Candelária e principal testemunha da chacina, hoje asilado na
Suíça, é tratado e reconhecido desta forma por defensores dos direitos
civis, ONGs e até pela mídia.
Como
vimos, com Geisa também ocorre a “mutação” rumo à má fortuna. Seu encontro com
a morte como antítese de seu movimento de busca de vida e “salvação” para tipos
como o seu algoz naquele momento, reveste Geisa de certa “subdivindidade” que a
determina como ser trágico21, herói da tragédia. O
destino de Geisa nos remete ao reconhecimento do Tideu de Teodectes, em
que o pai diz: “venho salvar meu filho e eu próprio devo morrer”22, ou ao mito cristão da morte de Cristo para redimir
os pecadores. Mais do que heroína, Geisa passa da condição de vítima à de
mártir, na visão de grande parte da mídia e da população.
No
dia 29 de julho, o programa “Criança Esperança”, da Rede Globo, mostrou cenas
do episódio ocorrido no mês anterior, em que Janaína registra no vidro do
ônibus as ameaças ditadas por Sandro, usando batom e escrevendo as palavras de
forma invertida para serem compreendidas por que estava do lado de fora. O apresentador
elogia a coragem e a destreza da jovem durante o “seqüestro” e pede a ela que
escreva: “Criança Esperança - este programa é dedicado à Geisa”. Nada é
perguntado a Janaína. Ela nada fala. Nada é mencionado sobre as afirmações de
Janaína e Luana, de que Sandro também era vítima. Logo ele, reconhecidamente
menor abandonado, uma criança sem esperança, que sociedade e mídia viram
sobreviver na chacina da Candelária e não foram capazes de alterar seu destino.
Com
este simplismo, a TV optou pela superficialidade na revisão do tema. A má
fortuna da heroína foi ter morrido e não o fato de que foi vítima do aparato
policial que deveria proteger a sua vida, ou mesmo de alguém que ela buscava
evitar que existisse, através de seu trabalho comunitário na Rocinha.
Se
os jornais contribuíram para o debate sobre o caso com a intensa cobertura da
notícia e muitas páginas reservadas para a expressão de diferentes opiniões de
leitores e articulistas, o mérito da TV foi manter as câmeras ligadas
ininterruptamente (a GloboNews durante todo o tempo e a Record, a partir do
início da noite), já que, desligado o fio da mídia – o olho da sociedade
naquele momento –, a polícia estaria mais livre para desvarios. Ironicamente,
porém, nem a transmissão ao vivo impediu que ela agisse contrariando o bom
senso e a lei.
Não
há como saber o quanto a presença da mídia pode ter prolongado o impasse ou
potencializado as ações de Sandro, da polícia e da população reunida em torno
do ônibus, como argumentaram algumas cartas de leitores dos jornais. Mesmo com
toda a sua “loucura”, Sandro chegou a advertir aos gritos: “isso aqui não é
filme não... aqui acaba mal...” O certo é que o grau de incomunicação e o
tensionamento das diferentes éticas existentes na sociedade brasileira e
refletido naquela tragédia, fizeram com que tudo transcorresse da pior maneira,
mesmo com os holofotes acesos.
Toda
tragédia, em Aristóteles, tem um nó, que se constitui de “todos os casos
que estão fora da ação e, muitas vezes dentro” dela, “até o lugar onde se dá o
passo para a boa ou a má fortuna”, e um desenlace, que é “todo o resto
da ação... do início da mudança até o fim”23.
A morte de Sandro sob custódia da polícia (consentida por quase metade dos
leitores do JB on line) tem menos a ver com o desenlace da
tragédia do ônibus 174, do que com o nó onde estão as origens do que
aconteceu naquele confronto. É expressão do nó dentro da ação. Nó
que expõe a realidade brasileira, geradora de violência, não apenas aquela
anômica, das ações de psicopatas, do ilegalismo; mas principalmente a violência
institucional, invisível, do estado de violência24. Por ter sido menino de rua, vítima da violência
policial e do abandono social, Sandro é paradigma de muitos no Brasil. Neste
exato momento muitos Sandros e muitos policiais como os que o executaram e
provocaram a morte de Geisa estão sendo produzidos pela sociedade brasileira
(incluindo Estado e mídia). Por isso a tragédia do 174 pode ser vista como desenlace
de um processo de produção sistemática de injustiças sociais e violência em
larga escala, de exclusão econômica e social, de uma crise ética que requer
profunda análise.
Há
os que vêem no episódio do ônibus 174 um fato isolado, gerado por um indivíduo
violento. A mídia, por sua vez, tende a tratar fatos como este como um “caso”,
em que a narrativa emocional e a cobertura de seus desdobramentos exclui a
reflexão sobre o contexto social que produz o evento. O poder constituído busca
“bodes expiatórios” para culpar (ou punir, quando pune), desviando a discussão
da questão social para o âmbito da segurança policial. Mas o desafio que se
coloca no exercício de interpretação dos acontecimentos daquele dia e de suas
origens e repercussões é buscar fazer uma reflexão ética. Abordar
filosoficamente os fatos, buscar uma reflexão ética, é distinguir, como em
Platão, a “facticidade” da “normatividade”25;
identificar o etos vigente, conforme propõe Aristóteles, para buscar o
que é o bem e o que é o mal na polis que fracassou em oferecer a “vida boa” a
seus cidadãos26; pensar, como Kant, os princípios
que norteiam a ética (moral para ele) expressas nas atitudes de cada um27; distinguir, como Marx, as formas de sociabilidade
que coordenam as ações dos sujeitos, sejam intencionais ou simbolicamente
mediadas.28
No
processo de uma reflexão ética, outra questão está colocada: trata-se de fazer
um resgate ou uma escolha ética?
Diante
da crise ética da sociedade brasileira – observada a sua relação com o que se
passa com outros povos e culturas e com o papel que neste contexto desempenham
os modelos econômicos, o poder dos Estados e da mídia –, será o caso de se
resgatar princípios de uma ética universal, valores emanados de divindades,
aristocracias, elites, Estados e leis? Ou a alternativa está no campo da
escolha de um agir ético, praxis29 que, entre outros caminhos, pode derivar para uma ética privada da
busca da autonomia e liberdade individual, mas também pode se referenciar num
“bem comum” que emane das classes sociais ou das comunidades humanas,
construído nas relações de troca e de convivência?
Diante
da injustiça social, da violência policial e da ideologia excludente ou
silêncio cúmplice da mídia, classes populares brasileiras ainda encontram
formas diversas de sobreviver organizadas em comunidades, preservadas pela
força do comum.
No
documentário “Notícia de uma guerra particular”, de Walter Moreira Salles, essa
ética comunitária se manifesta na angústia e decisão das mulheres da favela
Santa Marta, no Rio de Janeiro, seguindo de perto os policiais que conduzem
jovens por estreitas vielas até o alto do morro, para impedir que eles sejam
espancados ou mortos. O cortejo tenso prossegue até que os policiais desistem e
retornam às viaturas, no asfalto, levando os suspeitos presos, mas vivos. Na
imagem das câmeras, a expressão de alívio dos moradores diante daquela pequena
vitória do solidário: a arte feita sobre a realidade da comunidade apartada.
A
ética comunitária dos excluídos está presente nos desenhos e redações das
crianças que freqüentam a creche e escola “Meninos de Luz”, que viveu um dia de
terror em meio aos tiros entre policiais e traficantes numa invasão aos Morros
do Cantagalo e Pavão-Pavãozinho, em Copacabana, no Rio de Janeiro, em maio de
2000. São traços e palavras de meninos acostumados a ver outros meninos
baleados pela polícia, mas que falam de amor aos familiares, de necessidade de
paz, desejo de justiça, espírito de resistência e esperança, os valores mais
virtuosos nos sonhos dos grupos familiares locais.30 A arte imanente na comunidade sitiada.
Esta
ética se manifesta também nas imagens do videoclipe do grupo O Rappa, realizado
para a música “A minha alma (A paz que eu não quero)”, do CD “Lado B, Lado A”,
vencedor do Prêmio Multishow de Música Brasileira 2000, dedicado pela banda ao
ex-Coordenador de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Luís Eduardo Soares, e
do concorrido Vídeo Music Brasil 2000, da MTV. No clipe, o menino “Gigante” –
negro e de óculos – , o menor da sua turma de vizinhos, se desgarra do grupo em
meio ao tumulto de uma ação policial na favela e assiste atento e atônito aos
policiais prendendo outras crianças e adolescentes e matando um deles atrás do
camburão com um tiro, enquanto a comunidade aflita reclama, corre para o local
e inicia saque e depredação de lojas, vira e incendeia um carro, ameaça
confrontar-se com policiais que brandem armas e atiram para o alto. Enquanto se
desenrolam as cenas em preto e branco, segue o refrão: “...me abrace, me dê um
beijo, faça um filho comigo, mas não me deixe aqui sentado na poltrona, num dia
de domingo...”, fazendo a arte transcender a comunidade violentada.
Vivemos
um momento em que as três dimensões da vida descritas por Aristóteles – a bios
da política, a da ética e a do prazer – são mediadas e influenciadas em um
novo ambiente simulado ao lado dos sistemas reais31, uma esfera do quase real, a “quarta bios” ordenada
pela informação. A “bios virtual”32,
onde a mídia se sustenta pelo discurso da moralidade, determinando hábitos,
costumes e modo de pensar segundo sua ética utilitarista e comprometida com o
mercado e o capital. E neste contexto, “quando o fio da mídia se desliga, é
cada um por si”.33 ...Ou ainda resta a
esperança nas alianças e na convivência comunitárias e solidárias?
Referências
Livros
ARISTÓTELES.
Ética a Nicômacos. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 1999.
FORD, A. La marca de la bestia:
identificación, desigualdades e infoentretenimiento en la sociedad
contemporánea. Buenos Aires: Norma, 1999.
KANT,
I. Crítica da razão prática. Lisboa: Edições 70, s/d.
LESKY,
A. A tragédia grega. São Paulo: Perspectiva, 1971.
OLIVEIRA,
M. A. Ética e sociabilidade. São Paulo: Loyola, 1996.
ROITMAM,
A. (org.). O desafio ético. Rio de Janeiro: Garamond, 2000.
SODRÉ,
M. Claros e escuros: identidade, povo e mídia no Brasil. Petrópolis:
Vozes, 1999.
_________
O social irradiado: violência urbana, neogrotesco e mídia. São Paulo:
Cortez, 1992.
Periódicos
“Guerra
urbana – crianças de escola do Cantagalo transformam cenas de conflito no morro
num pedido de paz”. Jornal do Brasil. 21 mai. 2000. p. 15.
Quantos
são afinal nossos internautas? Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 29 jun.
2000. Internet. p. 3.
“JB on line”. Jornal do Brasil. 15
jun. 2000. p. 1.
Vida real. O Dia. Rio de Janeiro, 8 jul. 2000. Caderno D+ Mulher. p.
4.
“Para
Luana, seqüestrador foi vítima”. Jornal do Brasil. 14 jun. 2000. p. 24.
“O
Rio continua a cidade maravilhosa”. O Globo. 14 jun. 2000. p 21.
XEXEU,
A. “Para não dizer que não falei de Rosinhas”. Jornal do Brasil. 16 jun. 2000. Caderno B, p. 6.
“Marcados
para morrer”. Jornal do Brasil. 19 jun. 2000. p. 1 e 18.
“Um
erro fatal”. O Globo. 13 jun. 2000. p.1 e 15-21.
“Saiba
mais sobre o fracasso da ação policial”. O Globo. 14 jun. 2000. p. 18.
Notas
1 Para Aristóteles, a tragédia “é a imitação de uma ação”, que suscite “piedade e terror” e “que se executa mediante personagens que agem e que diversamente se apresentam, conforme o próprio caráter e pensamento”. O mito, para ele, é também a imitação das ações – “a composição dos atos” – , que são qualificadas pela diferença de caráter e pensamento. Por caráter, o autor entende “o que nos faz dizer das personagens que elas têm tal ou qual qualidade”; por pensamento, “tudo quanto digam as personagens para demonstrar o que quer que seja ou para manifestar sua decisão”. ARISTÓTELES. Poética. VI 30 e XI 62.
2 Cf. Muniz Sodré, em aula. Eco/UFRJ. 2000.
3 Um tiro do policial e três da arma de Sandro, segundo a perícia. “Saiba mais sobre o fracasso da ação policial”. O Globo. 14 jun. 2000. p. 18.
4 Em Aristóteles, a catarse tem o efeito de “purificar os sentimentos de piedade e terror” presentes na tragédia, interpreta Eudoro de Souza, na introdução à tradução portuguesa de Poética. Lisboa: INCM, 1998. p. 99.
5 A presença do público no local ou via TV, através das câmeras e holofotes, não foi irrelevante no rumo dos acontecimentos daquele dia. O “canto em cena” do público local rompendo os cordões de isolamento e, segundo a polícia, tentando linchar Sandro, é usado como argumento dos advogados de defesa dos policiais, para justificar o assassinato do assaltante sob custódia policial, como “legitima defesa da sociedade”. “O coro também deve ser considerado como um dos atores; deve fazer parte do todo, e da ação...”, diz Aristóteles. Poética. XVIII 110.
6 “Um erro fatal”. O Globo. 13 jun. 2000. p.1 e 15-21.
7 Ibidem.
8 Dos sobreviventes da chacina da Candelária, 40 foram assassinados, cinco morreram de Aids, seis estão presos, dois são gerentes de tráfego, um está doente, cinco têm “vida digna”, quatro ainda vivem na rua. “Marcados para morrer”. Jornal do Brasil. 19 jun. 2000. p. 1 e 18.
9 O Jardim Botânico, bairro de classe média e rica e sede da Rede Globo é um dos epicentros midiáticos do país – freqüentemente, basta uma chuva forte e as imagens de suas ruas alagadas são transmitidas em rede para todo o Brasil.
10 Reconhecimento como “passagem do ignorar ao conhecer, que se faz para amizade ou inimizade das personagens que estão destinadas para a dita ou a desdita”. ARISTÓTELES. Poética. XI 61.
11 As evidências, embora tidas como aspecto de destaque na argumentação de leitores e articulistas em suas avaliações a posteriori do fato, não chegaram a ser comprovadas pelo exame cadavérico, que priorizou identificar as razões de sua inexplicável morte após a detenção.
12 Em artigo escrito no início de 2000, o então coordenador de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Luiz Eduardo Soares, diz que “o garoto negro e pobre é quase invisível, nas grandes cidades brasileiras” e segue fazendo uma análise apropriada para a compreensão do reconhecimento vivido por Sandro: “Nós passamos por eles, nas ruas, com indiferença. Quando um deles se aproxima, portando uma arma e nos ameaçando, ganha visibilidade e conquista todos os atributos da presença. Em breve, a densidade ontológica alcançada pela imposição do medo lhe dará nome e status, ainda que os privilégios da identidade se radiquem na escala negativa, construída no mundo do crime. A dialética ardilosa faz com que a auto-estima se afirme pelo avesso, como a contrapartida da capacidade de despertar medo, como a contrapartida do reconhecimento obtido pela ameaça, como o subproduto de uma tangibilidade perversa.” ROITMAN, A. 2000. p. 60 e 61.
13 A face com a expressão alucinada de Sandro foi destacada de uma foto e usada como vinheta, junto com a frase “inferno no 174”, para ilustrar todas as páginas da cobertura do caso pelo jornal EXTRA. Muniz Sodré lembra que desde o início da escravidão moderna, o homem negro é aquele obrigado a realizar o desejo de outrem – o senhor: “Na prática, cumprir a vontade alheia é sujeitar-se à imprevisibilidade das representações que possam advir do descontrole ético das tarefas. Assim, o negro passa a ser representado ora como negro bom (em geral, infantilizado, subserviente, sorridente, nos termos da representação social do bom selvagem de Rousseau), ora como negro mal (animalizado, homicida, impiedoso, mais ou menos conforme os traços do selvagem Caliban, personagem shakespeareano de A Tempestade)”. Ele acrescenta que a historiografia mostra como o lado demoníaco do senhor podia ser assumido por seu escravo negro, desenvolvendo-se deste modo, ao longo dos tempos, “uma imagem sombria e desfavorável que se incorpora às representações intelectualizadas e, subseqüentemente, ao senso comum das populações de cor clara”. Sodré, M. 1999. p. 148.
14 XEXEU, A. “Para não dizer que não falei de
Rosinhas”. Jornal do Brasil. 16 jun. 2000. Caderno B, p. 6.
15 A “mutação dos sucessos no contrário” vivida pela personagem. ARISTÓTELES. Poética. XI 60.
16 “Para Luana, seqüestrador foi vítima”. Jornal do Brasil. 14 jun. 2000. p. 24.
17 “O Rio continua a cidade maravilhosa”. O Globo. 14 jun. 2000. p 21.
18 Situação descrita por Aristóteles como do
“mito complexo”. Poética. X 58.
19 ARISTÓTELES. Poética. XI 64.
20 “JB on line”. Jornal do Brasil. 15 jun. 2000. p. 1.
21 Segundo Eudoro de Sousa, na introdução à tradução portuguesa da obra de Aristóteles, “é na tragédia e pela tragédia que o herói se reveste daquela subdivindade ou super-humanidade, que se determina como o ser trágico” e que “o herói não se determina a si mesmo como trágico, mas é por outrem determinado como tal”. ARISTÓTELES. Poética. Lisboa: INCM, 1998. p 83.
22 Ibidem. XVI 96.
23 ARISTÓTELES. Poética. XVIII 105. ?(p. 128.)
24 Cf. Muniz Sodré, em aula. Eco/UFRJ. 2000.
25 OLIVEIRA, M. Ética e Sociabilidade. São Paulo: Loyola, 1996. p. 34.
26 Ibidem. p. 61.
27 Ibidem. pp. 176-179.
28 Ibidem. p. 259.
29 Praxis entendida não como prática repetidora, mas como transformadora de relações, operando sobre sujeito e objeto.
30 “Guerra urbana – crianças de escola do Cantagalo transformam cenas de conflito no morro num pedido de paz”. Jornal do Brasil. 21 mai. 2000. p. 15.
31 Ironicamente, todas as fotos e imagens do memento da morte de Geisa trazem ao fundo, como uma lua, uma propaganda luminosa do UOL, maior provedor brasileiro da Internet.
32 Cf. Muniz Sodré, em aula. Eco/UFRJ. 2000.
33 Ibidem.