O Não Ser é Ser Virtual
Carlos
Henrique Medeiros de Souza
Doutorando em Comunicação - UFRJ
Palavras Chave: Princípios, Virtual, Conhecimento.
Resumo: Este artigo propõe uma reflexão a cerca dos a princípios de Morin dentro dos conceito de reducionismo, complexidade e virtualidade. Será que sabemos definir o que é ser virtual? O que podemos observar nos filmes Matrix e Tempos Modernos de Charle Chaplin? O foco principal deste artigo esta no fato de que - O Não Ser é Ser Virtual. Para tal oferecemos uma rápida reflexão sobre as já citadas obras cinematograficas, procurando assim tecer alguns comentários sobre este difícil tema.
Introdução
O
livro A inteligência da complexidade reproduz artigos, seminários e entrevistas
de Edgar Morin, mais contribuições do filósofo e educador Jacques
Ardoine, do astrofísico Hubert Reeves, de Monique Mounier-Kuhn e de Jean-Louis
Le Moigne.
Discute
com clareza e profundidade o caminho do conhecimento e seus modelos, propondo o
pensamento complexo como maneira de ultrapassar o reducionismo e determinismo
que impregna a cultura ocidental e que se mostra inadequado para interagir e
viver na sociedade do conhecimento, característica do novo século.
Existe uma inadequação cada vez maior, profunda e grave entre os nossos conhecimentos disjuntos, partidos, compartimentados entre disciplinas, e, de outra parte, realidades problemas cada vez mais polidisciplinares, transversais, multidimensionais, transacionais, globais, planetários enfim. Nessa situação tornam-se invisíveis os conjuntos complexos, as inter-relações e retroações entre as partes e o todo, as entidades multidimensionais, os problemas essenciais.
O
Conceito de Reducionismo
É
o principio que se baseia na crença de que todas as coisas podem ser decompostas
e reduzidas em seus elementos fundamentais que constituem as suas unidades
invisíveis, como átomo na Física, a célula na Biologia, a substancias simples
na Química, e outros.
O
reducionismo faz com que as pessoas raciocinem sobre um determinado assunto sem
uma visão ampla das coisas. É como se o cérebro estivesse dividido em setores,
e para cada assunto teria um único setor.
Conceito
de Complexidade
Morin
afirma que a complexidade irrompe desorganizada o que é uma noção nova que deve
ser explorada, definida, pois à primeira vista ela irrompe com a aparência de
irracionalidade, incerteza, confusão e desordem.
Desta
maneira Morin aponta ainda:
O pensamento complexo, um pensamento que pensa” convida a superação da lógica indutivo- dedutivo - identitária por meio da sua junção com o processo dialógico que irá “unir as noções antagônicas para pensar os processos organizadores, produtivos e criadores no mundo complexo da vida e da história humana.
Morin
utiliza a imagem de um edifício para representar o pensamento complexo. A base
é constituída a partir de três teorias: informação, cibernética e sistema que
contém os instrumentos necessários para uma teoria da organização. No andar
seguinte viriam as idéias de auto-organização, baseadas em Von Neuman, Von
Foerster e Prigogine. Morin complementa este edifício com outros três
elementos: o princípio dialógico, o de recursão e o hologramático.
Os
princípios de Morin
O
princípio dialógico tem por função “unir as noções antagônicas para
pensar os processos organizadores, produtivos e criadores no mundo complexo da
vida e da história humana”. A dialogicidade irá contribuir no caminho para a
superação do paradigma que propõe juntar tudo mas distinguindo cada parte;
A
recursão é o “círculo gerador no qual os produtos e os efeitos são eles
próprios produtores e causadores daquilo que os produz”. Por exemplo: o Homem é
um produto da história humana que por sua vez foi produzida pelo Homem.
O
princípio hologramático é em si um paradoxo sobre como a parte está no
todo, mas o todo está na parte. Nas palavras de Morin: “Da mesma maneira, que o
indivíduo é uma parte da sociedade, mas a sociedade está presente em cada
indivíduo enquanto todo através da sua linguagem, sua cultura, suas normas”.
O
caminho proposto por Edgar Morin na construção do pensamento complexo reúne os
princípios da ciência clássica (ordem, separabilidade e lógica) integrando-os e
ligando o concreto das partes à totalidade.
Princípios
guias
Para pensar a
complexidade, o filósofo propõe sete princípios-guias que são complementares e
interdependentes:
1. princípio sistêmico ou
organizacional: “que liga o conhecimento das partes ao conhecimento do todo”;
2. princípio “hologramático”: paradoxo dos
sistemas complexos onde “não somente a parte está no todo, mas em que o todo
está inscrito na parte”;
3. princípio do círculo retroativo: permite o
conhecimento dos processos auto-reguladores, onde a causa age sobre o efeito e
este sobre a causa;
4. princípio do círculo recursivo: “círculo
gerador no qual os produtos e os efeitos são eles próprios produtores e
causadores daquilo que os produz”, ultrapassando a noção de regulagem para a de
autoprodução e auto-organização;
5. princípio de auto-eco-organização: autonomia e
dependência. “Os seres vivos são seres auto-organizadores que se autoproduzem
ininterruptamente e gastam energia para salvaguardar sua autonomia. Como eles
têm necessidade de gastar energia, de informação e de organização no seu meio
ambiente, sua autonomia é inseparável dessa dependência, e é preciso, pois,
concebê-los como seres auto-eco-organizadores”;
6. o princípio dialógico: que une princípios ou
noções que em princípio são excludentes, mas indissociáveis;
7. o princípio de reintrodução do conhecimento em
todo conhecimento: “todo conhecimento é uma reconstrução/tradução por um
espírito/cérebro numa cultura e num tempo determinados”.
Na
preocupação dos educadores de preparar os educandos para a sociedade do
conhecimento, a construção do pensamento complexo é uma ferramenta importante
para dar substância a tantas outras necessidades que passam pela educação, como
o mesmo Edgar Morin propõe em sua obra Os Sete Saberes necessários à Educação
do Futuro .
O
pensamento de Edgar Morin é uma proposta aberta e instigante que proporciona a
cada leitor uma viagem pessoal e intransferível que deve ser realizada por
todos aqueles que trabalham na área educacional.
O
Filme : TEMPOS MODERNOS
Durante
séculos, o ser humano buscou a superação de si mesmo. Acelerou radicalmente o
processo tecnológico, sempre atrás de substituir ou aperfeiçoar algo que já
havia criado, mais ou menos como a natureza faz durante o processo de evolução
das espécies. A diferença é que, enquanto a natureza leva séculos, milênios
para fazer isso, o homem faz em anos, ou até meses. Se for comparado o tempo de
existência do planeta Terra no Universo com o do ser humano, percebe-se o
quanto isso é verdadeiro. Enquanto o mundo tem alguns bilhões de anos, o
surgimento do homem moderno data de 100.000 anos, um período ínfimo perto da
idade do planeta. O mais incrível é que nesse curto período o ser humano já
dominou a Terra - é “o dono do mundo”. Com tantas acelerações radicais, o que
nos espera nesse próximo milênio? O homem ainda é o dominador, ou será que as
máquinas já estão em processo de igualdade? Já podemos perceber que influência
das tecnologias é determinante na maneira de viver do ser humano moderno.
Os
novos aparatos eletrônicos agilizam e aceleram o cotidiano, trazendo como
resultado uma vida humana mais dinâmica. Contraditoriamente, o homem parece
ter, hoje, menos tempo livre do que tinha há alguns anos quando não dispunha de
todas essas facilidades neotecnológicas.
Sátira
à vida industrial onde Chaplin interpreta o empregado de uma fábrica
supermoderna, que entra em crise, perde o emprego e é 0brigado a enfrentar a
depressão americana.”
Critica
a sociedade industrial seu ritmo alucinante, a falta de qualidade de vida e
seus propositos irracionais.
Mostra
o esforço humano de trabalhar como um relógio dentro de um sistema de repetição
mecânica, levando a pessoa a ficar com sérios problemas psicológicos e
neurológicos como foi o caso de Carlito que teve uma crise nervosa e queria
apertar tudo que via na sua frente pensando se tratar de parafuso.
Evidencia
o papel ideológico das instituições como é o caso da polícia reprimindo greves,
manifestações de desempregados, ou até prendendo uma menina faminta por roubar
um pão . Em nenhum momento o patrão que coloca na rua milhares de trabalhadores
é molestado pela polícia.
A
máquina, neste caso, passou a dominar o homem pelo seu uso inadequado, ou seja,
pela exploração do trabalhador pelo proprietário da máquina
Síntese
do Filme Tempos Modernos
O
filme conta a história de um operário e uma jovem. O primeiro (Charles Chaplin)
é um operário empregado de uma grande fábrica. Esse operário desempenha o
trabalho repetitivo de apertar parafusos. De tanto apertar parafusos, o rapaz
tem problemas de stress e, estafado, perde a razão de tal forma que pensa que
deve apertar tudo o que se parece com parafusos, como os botões de uma blusa,
por exemplo. Ele é despedido e, logo em seguida, internado em um hospital. Após
ficar algum tempo internado, sai de lá recuperado, mas com a eterna ameaça de
estafa que a vida moderna impõe: a correria diária, a poluição sonora, as
confusões entre as pessoas, os congestionamentos, as multidões nas ruas, o
desemprego, a fome, a miséria..
Logo
que sai do hospital, se depara com a fábrica fechada. Ao passar pela rua, nota
um pano vermelho caindo de um caminhão. Ao empunhar o pano na tentativa de
devolvê-lo ao motorista do caminhão, atrai um grupo enorme de manifestantes que
passava por ali. Por engano, a polícia o prende como líder comunista,
simplesmente pelo fato de ele estar agitando um pano vermelho, parecido com uma
bandeira, em frente a uma manifestação. Após passar um tempo preso, o operário
é solto pela polícia por agradecimento, uma vez que ajudou na prisão de um
traficante de cocaína que tentava fugir da prisão.
Nesse
momento, surge a outra personagem do filme, “a moça – uma menina do cais que se
recusa a passar fome”. A jovem (Paulette Goddard), vivendo na miséria, tem de
roubar alimentos para comer, pois, além disso, mora com as suas duas irmãs
menores, seu pai está desempregado e as três são órfãs de mãe. O pai morre
durante uma manifestação de desempregados e as duas pequenas são internadas em
um orfanato. A moça foge para não ser internada e volta a roubar comida. Numa
de suas investidas, ela conhece o operário: depois de roubar o pão de uma
senhora, a polícia vai prendê-la e o operário assume a autoria do assalto. A
polícia o prende, mas o solta em seguida após descobrir o engano. Quando vê a
moça sendo presa, o operário arma um esquema para ser preso também: rouba
comida em um restaurante. São colocados no mesmo camburão e, durante um
acidente com o carro, os dois fogem e vão morar juntos.
O
operário, nosso querido Carlitos, procura emprego e consegue um como segurança
em uma loja de departamentos. Logo é despedido por não ter conseguido evitar um
assalto e por dormir no serviço. No entanto, consegue emprego numa outra
fábrica, consertando máquinas. Durante uma greve na fábrica, Carlitos é preso
mais uma vez, agora por “desacato à autoridade policial”. Alguns dias depois,
ele é liberado e a jovem o espera na saída da prisão para levá-lo a nova casa –
um barraco de madeira perto de um lago. A jovem consegue, então, emprego em um
café com dançarina e arruma outro para Carlitos, só que como garçom/ cantor. Os
dois são um sucesso, principalmente Carlitos que, durante uma improvisação de
uma música, arranca milhares de aplausos dos presentes ao café.
Para
estragar a festa, no entanto, surge novamente a polícia, desta vez com uma
caderneta com os dados da moça e uma ordem para prender a jovem num orfanato.
Carlitos e moça fogem e terão de começar tudo novamente..
Matrix
: O Não Ser é Ser Virtual
• conhecimento científico enquanto arte, como
qualquer outro conhecimento humano, consiste primariamente em ilustrar
possíveis explicações de realidade possíveis.
• cinema, enquanto uma criação artística,
produto da inteligência humana, permite, como diria Platão, contemplar o
encantamento do ser em si mesmo. O fato de o cinema utilizar a tecnologia
proporcionada pelo conhecimento científico de forma tão deslumbrante, nos
remete ao mundo fantasioso do devir imaginado. Devir que, prognostica
previsões não somente importantes para conduzir testes experimentais das
supostas teorias científicas de um futuro incerto, mas também e de certo modo,
para uma reflexão filosófica do caminhar humano.
Á
medida que novas teorias sobrepujam as velhas, o conhecimento se torna mais
extenso (à medida que novos assuntos são criados) e mais intenso (à medida que
teorias fundamentais explicam mais e se tornam mais gerais). A intensidade está
ganhando. As teorias humanas em suas intensidades complexas estão se tornando
cada dia mais aderentes umas às outras e somente podem ser entendidas de forma
mais ampla e profunda se observada no seu conjunto, como uma única teoria de
uma estrutura unificada da realidade. Essa teoria de que tudo tem uma
abrangência muito mais ampla, porquanto engloba a “teoria de tudo” que muitos
físicos estão buscando atualmente. Quando uma teoria (realidade virtual) é
aplicada a arte cinematográfica geradora de imagens e forças visuais e
imaginativas devastadoras, instabiliza na maioria das vezes uma estrutura de
realidade consistente e inundada de ingredientes reducionistas, como espaço,
tempo e partículas subatómicas e a própria realidade virtual através da
computação gráfica. Isso ocorre porque, não são considerados os fenômenos
básicos do ser, como vida e pensamento, que são acima de tudo movidos a
sentimentos, atributos da inteligência do Ser Que Pensa.
Qual
será, pois, a última fronteira para se alcançar uma possível realidade do mundo
(incluindo ai a realidade virtual e conseqüentemente os conhecimentos da
computação, da ciência, da imaginação e tudo mais) na visão científica e
filosófica, abordada inclusive por muitos roteiristas e diretores da chamada
sétima arte? O Phd em computação quântica e criptografia de Cambridge e Oxford,
diz que:
“As leis da física permitem a existência de computadores
que podem reproduzir lodos os ambientes fisicamente possíveis sem usar recursos
impraticavelmente grandes. Por esse ponto de vista, a computação universa/
tanto não é meramente possível - como exigido pelo princípio de Turing —
como é também tratável. Fenômenos quânticos podem envolver vasto número de
universos paralelos e, portanto podem não ser capazes de ser simulados com
eficiência em um universo. No entanto, essa forma forte de universalidade ainda
se mantém porque os computadores quânticos podem reproduzir com eficiência
todos os ambiente quânticos fisicamente possíveis, mesmo quando grandes números
de universos estão interagindo. Computadores quânticos podem também solucionar
com eficiência certos problemas matemáticos, como as fatorações, classicamente
intratáveis, e podem implementar tipos de criptografia classicamente
impossíveis. A computação quântica é uma maneira qualitativamente nova de
utilizar a natureza “. (Deutsch, David; 2000 in A Essência da
Realidade).
Contrapondo-se
ao pensamento socrático, Protágoras diz que “o homem é a medida de todas as
coisas”. Nessa medida, a arrumação e a dessarrumação do real humano reflete as
transformações da técnica criada pelo próprio homem que assegura sua
sobrevivência transformando a natureza nos bens que usa e consome. A técnica
advém do pensamento humano em contato com o mundo. A técnica materializa o
pensar humano. A máquina é uma espécie de produto-síntese de uma cultura
pensada e produzida historicamente. A máquina é uma objetificação da cultura. A
unidade pensamento-máquina é cultura técnica, isto é, um conjunto de valores
através dos quais o homem se autocria como Ser Humano.
Transportando
todos os ingredientes da ciência, aliada à tecnologia, muitos ficcionistas que
trabalham sobre uma possível “a vida no futuro”, costumam retratar com
freqüência uma também possível realidade vivida nesse presumível devir.
Aliás, prever o futuro do ponto da vista da ciência nos leva ao Princípio de
Incerteza de Werner Heisenberg, onde a certeza de um valor estável demanda
a incerteza de outros valores estáveis.
Muitos
filmes retratando uma plausível realidade fritura foram feitos. Muitos deles
são senados de aventuras e viagens interplanetárias no espaço feitos a partir
dos anos 50 e 60, como O dia em que a Terra parou ou Perdidos no
Espaço. Hoje são meros cenários ingênuos de um passado aproximadamente
distante. Muitos outros foram e ainda serão feitos como tentativas humanas de
visões futurísticas, como os mais recentes, dentre os quais, Guerra nas
estrelas, O caçador de andróides, O quinto elemento e tantos outros
menores.
Essa
inquietude humana em transpor a realidade do vivido presente para um imaginável
vivido futuro ponderando a relação homem-máquina-virtualidade é o que é
relatado dinamicamente no filme MATRIX - um sistema operacional -, onde
uma realidade construída (máquina) supostamente absorveu e reduziu todo o
conhecimento numa realidade abstrata contida em si mesma. Um mundo onde o Ser
Que Pensa, com emoções e sentimentos ilimitados tornou-se uma mera fonte
energética à prover e legitimar um outro mundo auto-criado pelo próprio sistema
inteligente, onde o Ser Pensante foi absorvido na “irrealidade” do seu próprio
sistema, tomando-se elemento de sustentação deste mas sem nenhuma liberdade. O
filme por si só não envolve somente questões de ordem tecnológicas, mas
sociológicas, psicológicas, teleológicas e, sobretudo questões filosóficas,
tais como: a criatura contém o criador? O maior está contido no menor? A
criatura pode ser mais poderosa do que o criador? O criado pode-se autocriar?
Que
a característica do Ser é rebeldia, prova-o seu comportamento diário ao
confronto.
Segundo
os especialistas a humanidade está passando por fenômenos novos e admiráveis
quanto ao conhecimento. A velocidade com que estes se desenvolvem está dobrando
e novos conhecimentos são disponíveis num menor de tempo. E continuam a crescer
celeremente. Principalmente na área de informação e automação. E exatamente
essa multiplicação de dados, informações e descobertas que permite a
possibilidade de novas funções e aprimoramento constante de recursos
eletrônicos e dos meios de informações. Tudo isso é produto do desempenho do
Ser Que Pensa, indaga, cria, projeta e produz novas formas de viver a sua
própria realidade.
O
filme MATRIX é uma criação do engenho humano. Ele relata uma versão do mundo
virtualizado, onde filosoficamente, o Não-Ser é virtual. No qual a problemática
central é a questão da realidade. Ou em termos filosóficos: o que é real? O que
é verdade? O filme não escorrega por esse caminho mas pela relação trivial homem-máquina-virtualidade.
Como resultado, o mundo virtual é antropomorfizado, isto é, o mundo virtual
está repleto de emoções, perseguições, revolucionários, agentes, crenças em
oráculos em que até o personagem principal é uma espécie de deus esperado, um
messias salvador. O real concreto se mistura com o real mitológico. A
consciência mítica se mistura à consciência racional originando os conflitos da
consciência existencial.
Quando
Morpheus fala a Thomas Anderson / Neo (doublé de programador e hacker,
personagem central) de que MATRIX está em todos os lugares, nos conduz a
situações mitológicas de um deus panteico programador onipresente, que
controla, mantém, vigia e pune os seres de seu mundo virtual. MATRIX é seria
uma espécie de realidade que poderia dizer: “sou teu sistema e não poderás ter
outro sistema se não vou te punir. Nada existe além de mim, que sou sistema. Se
porventura desobedecer ao meu sistema serás perseguido e punido. Meu sistema é
único e maquínico (para não dizer maquiavélico)”.
Em
MATRIX, o mundo da virtualidade é insensível, a emoção inexiste enquanto
sistema, isto é, não é um atributo do mundo maquínico. Essa impossibilidade
emocional do mundo virtual é o seu próprio limite existencial. Além dali tudo é
irreal. Essa inversão de valores, em que “o ser humano é uma doença” e onde os
agentes, são puras operações da virtualidade, é o mundo real, mundo
livre de humanos sentimentalóides. E é exatamente o mitológico mundo da
sensibilidade humana que é capaz de romper o mundo máquina-virtualidade de
MATRIX. A personagem Trinity ama o prometido messias do sistema, na personagem
de Neo. Esse pequeno detalhe cinde o mundo virtual-real maquínico do
real humano. As emoções e os afetos da realidade humana fazem a diferença. A
tecnologia é uma finitude humana mediadora do meio enquanto processo evolutivo
e não um fim por si e em si mesma.
O
Ser Pensante, detentor de sentimentos é o grande fenômeno, só ele pensa, cria,
reproduz e vive sua própria realidade. Pode até delirar e se comover com seus
delírios, mas não pode ir mais além, pois ainda não possui meios oraculares de
prever as conseqüências de seus próprios atos, destinos e delírios.
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