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JORNAL INTERCOM
Jornal quinzenal da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação

Ano 5, nº 149, São Paulo – SP – Brasil 7 de dezembro de 2009
ISSN 1982-372X

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Entrevista

José Manuel De Pablos comenta o papel da Sociedade Latina de Comunicação Social

Por Frederico de Mello B. Tavares (Doutorando em Ciências da Comunicação)

Fundada em maio de 2009, a Sociedad Latina de Comunicación Social (SLCS), além de fomentar o intercâmbio entre os estudos comunicacionais no âmbito da América Latina e da comunidade ibérica, focaliza o desenvolvimento de publicações cientificas na nossa área, buscando assumir, segundo sua “missão”, um desafio político e teórico para a construção de um pensamento crítico sobre a Comunicação e a mídia contemporânea.

A entidade realiza entre os próximos dias 9 e 12 de dezembro na Universidad de La Laguna (ULL), em Tenerife (Espanha), o I Congresso da Sociedad Latina de Comunicación Social. Sob o tema “Postperiodismo: la información en la sociedad saturada”, o evento contará com a participação de pesquisadores de instituições espanholas e latino-americanas em mesas de trabalho temáticas e de comunicações livres.

Em entrevista concedida por e-mail, o presidente da SLCS e coordenador-geral do primeiro Congresso da associação, José Manuel De Pablos**, contextualiza essa “vocação” da entidade e comenta sobre o evento.

1) Por que escolher como tema do primeiro Congresso da SLCS o “Pós-Jornalismo”? Até que ponto é possível dizer que vivemos em uma fase posterior ao jornalismo e não em uma fase de crise desta profissão?

O jornalismo tal e como conhecemos no passado está morto. O que existe hoje pouco tem a ver com o jornalismo como uma prestação de serviço ao cidadão e se converteu em um negócio. Atualmente, vende-se informação como se fosse uma alpargatas. Hoje há muitos “traperos” (em tradução literal: “trapeiros, que negociam trapos”) editando jornais, preocupados somente com os balanços de fim de ano. Às vezes, esses balanços fogem do controle, como aconteceu com um determinado grupo mediático espanhol, de verdadeiros “senhores da guerra mediática”, que quis reconquistar a América e se encontra agora com uma dívida de vários milhões de euros.

Um processo que diz muito de suas manipulações e manobras político-mediáticas para demonstrar às grandes empresas, multinacionais espanholas ou não, que estão a seu serviço, firmando seu posicionamento radical contra todo o processo de emancipação latino-americano. Falo destes primeiros anos do século XXI, não de 200 anos atrás. Falo de meios de comunicação espanhóis que se ancoraram no que a história oficial denominou de “o desastre de 98”, que deu origem à república cubana. Se o que para uns é um desastre e para outros é um momento de glória, alguém está afastado da realidade, não é isso? Ou não, não está afastado da realidade, mas construindo uma outra realidade. Por exemplo, como também fizeram durante anos com o bloqueio informativo sofrido pelo povo espanhol a partir dos meios convencionais direcionados em proteger “Borbonia”.

São estes “meios realistas”, as mesmas familias que lutaram contra os latino-americanos nos momentos de independência e de surgimento das repúblicas na América Latina. O conceito “república” lhes espanta, por isso são tão “borboneses”, tão “de Borbonia”, sem se darem conta de que a Espanha é outra coisa.

2) Quais são as expectativas do Congresso para a criação de uma perspectiva teórica e de desenvolvimento de trabalhos para a Sociedade Latina de Comunicação Social?

As expectativas já foram superadas com a presença de 115 comunicações científicas de professoras e professores de 26 universidades espanholas e de companheiros do Chile, Brasil, Equador, Venezuela, Colômbia, México e Cuba. Agora temos que aguardar o evento para que surjam projetos de grupos de trabalho, para avançar e ajudar a criar uma “massa crítica” que ainda não dispõe a Comunicação. Essa pode ser uma meta na qual devem trabalhar todas as pessoas comprometidas com os estudos e investigações comunicacionais.

3) Que papel diferencial quer cumprir a Sociedad Latina de Comunicación Social frente a outras entidades internacionais já existentes em nossa área, como a ALAIC e a IAMCR e as Associações Nacionais de Comunicação em diversos países, como a INTERCOM no Brasil e a AEIC na Espanha?

A “vocação” da SLCS não é competir com outras entidades já existentes. Ao contrário, queremos colaborar com quem precisar. A primeira idéia é dar apoio a uma revista acadêmica que, neste momento, ocupa o primeiro lugar na tabela espanhola que mede o índice de impacto das revistas científicas de Comunicação, a Revista Latina de Comunicación Social (RLCS).

Às vezes, nasce uma associação e pouco depois ela cria uma revista para os seus associados. Aqui estamos em um caso inverso: há uma revista e seus leitores ou autores-colaboradores se agrupam para apoiar a publicação, oferecendo-lhe apoio institucional e, ao mesmo tempo, valorizando a manutenção de sua independência acadêmica. A revista poderia seguir crescendo sem esse apoio, ainda que com maiores dificuldades. Mas agora, com seu histórico de doze anos de vida, todas as dificuldades já apareceram e sabemos como superá-las.

Além disso, deve-se destacar que a Comunicação não alcançou na Espanha a “massa crítica” necessária para assegurar seu maior fortalecimento. Outras disciplinas, como a Educação, já possuem esse lastro há algum tempo e seus êxitos gerais são superiores aos nossos. Basta observarmos o número de revistas indexadas de cada matéria para ver que as 20 revistas de Comunicação pouco têm a ver com as 38 de Antropologia, 124 de Educação, 46 de Ciência Política e de Administração, 116 de Economia, 43 de Geografia, 90 de Psicologia, 68 de Sociologia ou as 37 de Urbanismo. A área de Comunicação é a menos numerosa entre as revistas espanholas de Ciências Sociais, o que diz da ausência da “massa crítica” que falei anteriormente.

Podemos recorrer, por exemplo, ao índice de impacto de revistas espanholas de Ciências Jurídicas para encontrar outras especialidades com menor número de revistas científicas. No entanto, se o analisamos, encontramos, pela especialização, um universo de publicações ainda mais elaborado: Direito Internacional Público e Privado (com o mesmo número de Comunicação (20), Filosofia do Direito (13), Direito Eclesiástico do Estado (6), Direito Financiero e Tributário (18), Direito Romano e Historia do Direito (11).

Estamos distantes de uma situação aceitável. Ainda nos falta um maior número de revistas e de pesquisadores. É necessário que exista uma maior demanda por publicação e que se criem novos títulos para que alcancemos um conjunto de reflexões necessário para sermos o que ainda não somos.

4)De que maneira a SLCS pode contribuir com o fortalecimento internacional da RLCS não só de um ponto de vista editorial, mas também político, buscando, ao mesmo tempo, fortalecer a área de Comunicação Social?

Já há uma certa experiência no fortalecimento de redes e de encontros, como ocorre com a RAIC, a Red Académica Iberoamericana de la Comunicación, e com a Bienal Iberoamericana de la Comunicación, que possui sete edições, e cuja oitava poderá ser em uma universidade brasileira.

A RAIC está composta por professores doutores da América Latina que realizaram seus doutorados em universidades espanholas e profesores espanhóis e de outros países conscientizados com a coooperação científica no contexto de língua portuguesa e espanhola.

Também, nesse universo, encontra-se a Red Bogotá de Revistas Científicas de Comunicación, voltada para o fortalecimento e melhoria dos periódicos científicos de nosso âmbito, sempre com interesses que não fujam aos acadêmicos, valorizando a amizade e o companheirismo.

Estas experiências estarão refletidas dentro e fora de SLCS, e dentro e fora da RLCS, porque há um compromisso pessoal de muita gente, acima de entidades ou publicações, sem, no entanto, desconsiderá-las. Sob este aspecto, estão convidados todos os investigadores que tenham ou desejem adquirir tal compromisso conosco.

No caso da Revista Latina de Comunicación Social, o desenvolvimento internacional e de seu intercâmbio político e editorial se dará sempre de acordo com seus associados. A revista é quase, com toda segurança, a “publicação oriental” (considerando a zona ibérica como oriente para América Latina) que abriga o maior número de artigos de companheiros das repúblicas americanas. Nasceu com essa vocação, a confirma em seu próprio nome, deixou transparecer em sua trajetória, e assim seguirá sendo.

A versão em espanhol dessa entrevista pode ser lida no blog do GPJor (Grupo de Estudos em Jornalismo da Unisinos).

** Doutor em Ciências da Informação pela Universidad Complutense de Madrid e professor catedrático de Periodismo da Universidad de La Laguna (Tenerife, Canarias; Espanha). Diretor e fundador da Revista Latina de Comum.