JORNAL INTERCOM![]()
Jornal semanal da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação![]()
Ano 5, nº 125, São Paulo – SP – Brasil
02 de fevereiro de 2009![]()
ISSN 1982-372X![]()
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Destaque
Para entender a crise da ABI: centenário expõe rachadura no edifício institucional
Fonte: Jornalismo & Cia - Edição 673A, 18 de dezembro de 2008
Embora J&Cia já tivesse se despedido de seus leitores, não pôde deixar de circular com uma edição extra para levar a todos os detalhes da renúncia de Audálio Dantas à Presidência da Representação São Paulo da ABI e à Vice-Presidência Nacional da instituição, decisão que foi acompanhada coletivamente pelo Conselho Consultivo que esteve com ele no período.
Audálio é um dos jornalistas mais reconhecidos do País, por seu passado e presente de lutas a favor das causas democráticas e das liberdades, tendo sido um nome decisivo no triste e fatídico episódio Vladimir Herzog, que acabou de certo modo levando o Brasil a lutar pela redemocratização.
Naquela época, 1975, ele era o presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo. Foi depois o primeiro presidente de federação de trabalhadores do País – a nossa Fenaj – eleito pelo voto direto.
Atuou ainda como deputado federal, presidiu a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e escreveu (o que mais gosta) reportagens memoráveis, muitas delas merecedoras de prêmios nacionais e internacionais.
Sua renúncia é de certo modo um ato de desprendimento e uma sinalização de que alguma coisa na nossa instituição maior não vai bem. “Acho que fizemos a nossa parte e demos a nossa contribuição”, ele diz. “O resto é com a sociedade e os jornalistas brasileiros”.
Renúncia de Audálio é duro golpe para a reconstrução da ABI em São Paulo
Conselho Consultivo que o acompanhou no período também sai em solidariedade
Após cerca de dois anos e meio à frente da Representação São Paulo, tendo como missão a reconstrução da entidade no Estado, Audálio Dantas renunciou ao cargo e também à Vice-Presidência Nacional da Associação Brasileira de Imprensa, a ABI, em caráter irrevogável. Sem conseguir levar adiante o projeto de consolidar e expandir a instituição em São Paulo, sobretudo, segundo alega, pelo estrangulamento provocado pelas ações praticadas pelo presidente da ABI Nacional, Maurício Azêdo, ele optou por deixar a instituição, no que foi acompanhado, de forma solidária, pelo Conselho Consultivo, integrado, entre outros, por Alberto Dines, Carlos Marchi, José Marques de Melo, Gioconda Bordon, Laurindo Lalo Leal Filho, Manuel Carlos Chaparro e Sérgio Gomes da Silva.
Os problemas começaram em meados do ano passado, com a decisão de realizar o I Salão Nacional do Jornalista Escritor, iniciativa que foi concebida para fazer parte do centenário da ABI e que deveria ser realizada, por proposta do próprio Audálio, alternadamente, nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. “O Rio de Janeiro – leia-se, Maurício Azedo – pouco se interessou pelo projeto e em momento algum cogitou levá-lo para lá, razão pela qual, mesmo tendo sido um sucesso a primeira edição realizada no ano passado em São Paulo, não tem chance alguma de prosperar sob a gestão dele”, destaca Audálio.
Evento apoiado, entre outras organizações, por Volkswagen, Telefônica, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e BNDES, o Salão arrastou multidões, totalizando mais de 13 mil participantes em seus quatro dias de palestras e sessões de autógrafos no Memorial da América Latina.
E permitiu entrar no caixa da ABI algo ao redor de R$ 430 mil, com um lucro superior a R$ 160 mil. “O sucesso do Salão e do Audálio incomodaram imensamente o presidente nacional da ABI e desde então as relações com São Paulo foram congeladas, a ponto de ele sequer atender o telefone ou responder aos e-mails do Audálio”, diz um dos conselheiros ouvidos por este J&Cia. “Ele viu em Audálio uma sombra ao seu prestígio e tratou logo de sufocar a Representação São Paulo pelo seu lado mais frágil, o da autonomia financeira. Curiosamente, em momento algum Audálio ou os que estavam ao seu lado fizeram qualquer gesto que demonstrasse outras ambições políticas em relação à ABI”, acrescenta.
Decidido a renunciar, Audálio foi muito pressionado por colegas do Conselho Consultivo de São Paulo e do Conselho Deliberativo do Rio de Janeiro a resistir. Fosse em função do momento histórico da ABI, por conta da celebração de seu centenário, fosse para não deixar uma luta que, muitos assim acreditavam, poderia continuar a ter nele um importante expoente.
Na última 3ª.feira (16/12), ele postou no Correio sua carta de renúncia, endereçada ao presidente do Conselho Deliberativo da ABI, Pery de Araújo Cotta, sendo acompanhado pelo Conselho Consultivo, que formalizou sua renúncia nesta 5ª.feira (18/ 12).
Com a saída de Audálio e do Conselho Consultivo a reconstrução da entidade em São Paulo sofre um duro retrocesso. Para quem não conhece a história, a Representação São Paulo sofreu, anos atrás, uma intervenção, em conseqüência de desmandos praticados por um ex-presidente regional. Essa intervenção foi decidida por Barbosa Lima Sobrinho, então presidente da ABI Nacional, tendo sido interventor o professor José Marques de Melo. Posteriormente, a Representação foi extinta, sendo reaberta em 2006, quando Audálio aceitou a incumbência de a reorganizar.
Ao renunciar, por ter contra si e contra a Representação o mandatário maior da Associação, Audálio fez o que sua consciência determinou, sem qualquer açodamento. O problema é que sua atitude e o aparente fim da ABI em São Paulo deixam um vazio muito grande no mais importante mercado do País.
Maurício Azêdo, ouvido pelo Comunique-se, disse ao repórter Sérgio Matsuura, nesta 4ª.feira (17/12), que esperava pela renúncia de Audálio, “já que, recentemente, durante apresentação do relatório sobre o I Salão Nacional do Jornalista Escritor, realizado em novembro de 2007 em São Paulo, ele já havia manifestado a intenção de se desligar da direção da entidade”. Nessa mesma entrevista, Azêdo acrescentou que também recebeu com naturalidade a renúncia coletiva do Conselho Consultivo, pois seus membros haviam sido indicados pelo próprio Audálio. Sobre o trabalho de Audálio e da equipe que o acompanhou, alfinetou, de forma de certo modo deselegante, que “teve liberdade, mas não teve iniciativa e capacidade de realização. Isso por causa dos encargos que os membros possuem em suas vidas profissionais e acadêmicas. Basta dizer que entre os integrantes do Conselho existem pessoas que, em três anos de gestão, nem se tornaram sócias da ABI”.
Sobre essas declarações, um dos integrantes do Conselho, ouvido por este J&Cia, limitou-se a dizer: “Quem participou do I Salão Nacional do Jornalista Escritor pôde testemunhar a nossa capacidade de realização e de geração de recursos. E aqui é preciso deixar claro que não houve nenhuma ajuda do Rio. Uma única sequer. Aliás, o único interesse demonstrado pelo Rio foi quanto aos pagamentos dos patrocínios, visto que havia, como pudemos constatar depois, planos para usar o dinheiro em iniciativas que nada tinham a ver com o Salão. Quanto à filiação, realmente ele tem razão: é quase impossível se filiar à ABI, mas não por culpa dos interessados, e sim da estúpida burocracia que ainda impera na instituição, que efetivamente não demonstra o menor interesse em elevar o quadro de associados. Associar-se à ABI é uma aventura”.
Esse mesmo conselheiro lança um desafio: “Vá ao Rio de Janeiro e pergunte para os jornalistas das novas gerações e mesmo das gerações mais antigas o que eles pensam da ABI e porque eles próprios não se filiam a ela. Não é nem preciso sair do Rio para constatar isso. Aliás, quanto mais longe se está da ABI, física e geograficamente, mais se a admira, exatamente porque não se conhece o que por lá se passa. Tínhamos a esperança de mudar isso, mas com Maurício Azêdo é impossível. Ele é um imperador e gosta de ser tratado como tal”.
Em declaração que deu às repórteres Thaís Naldoni e Ana Luiza Moulatlet, do Portal da Imprensa (revista Imprensa), nesta 5ª.feira (18/12), Azêdo disse que a renúncia de Audálio Dantas não foi vista com estranheza, pois, havia algum tempo, ele já estava mais distante dos encargos da ABI por razões profissionais. Afirmou: “Não nos causa estranheza. Até meados ou final de 2006, Audálio mantinha um escritório particular e, assim, tinha plenas condições de manter os encargos da ABI e sua atuação profissional.
No entanto, depois que fechou seu escritório e assumiu a redação da revista Negócios da Comunicação, ficou mais complicado manter as duas funções”, analisou o presidente da entidade, não sem uma ponta de veneno. Fato que Audálio nega peremptoriamente: “Tive que sacrificar vários assuntos profissionais e mesmo minha vida pessoal e familiar para dar conta dos encargos da ABI. E quando assumi a revista, que tem periodicidade bimestral, os editores tinham plena consciência das minhas responsabilidades à frente da instituição. E isso aconteceu há apenas algumas semanas. Ele quer me atingir pelo lado pessoal, o que é no mínimo deselegante”, diz Audálio.
Ainda é incerta qualquer definição sobre o que acontecerá com a Representação São Paulo da ABI e com o nome de quem sucederá Audálio na Vice-Presidência da ABI Nacional, decisões que possivelmente ficarão para o início de 2009.
Em expediente enviado por email no final da tarde desta 5ª.feira (18/12) ao presidente do Conselho Deliberativo da ABI, Pery Cotta, o presidente do Conselho Consultivo da Representação São Paulo, Carlos Marchi, comunicou “que a integralidade do Conselho Consultivo da ABI-SP firmou hoje documento de renúncia coletiva, em solidariedade ao pedido de afastamento encaminhado pelo ex-vice-presidente nacional e ex-diretor da Representação São Paulo, jornalista Audálio Dantas. O ato da totalidade do Conselho foi adotado, depois de longa e penosa reflexão, por absoluta inconformidade com o modelo de gestão que vem sendo praticado na ABI-RJ por seu atual presidente, jornalista Maurício Azêdo. As razões da decisão do Conselho estão detalhadas na carta-renúncia que oportunamente lhe será enviada por correio comum”.
“Não tenho planos, mas não deixarei de lutar. Minha história é conhecida. Não usei nenhuma das entidades pelas quais passei para fazer carreira ou aparecer nas fotografias.”
Jornalistas&Cia – Sua saída num período em que ainda se celebra o centenário da ABI tem, além dos motivos pessoais alegados em sua carta, algum outro sentido simbólico?
Audálio Dantas – Os motivos estão expostos no documento em que comunico a minha renúncia. Adiei ao máximo a minha decisão, em virtude da coincidência com a comemoração do centenário da ABI. Mas, em determinado momento me perguntei se havia coerência entre a celebração do centenário, um momento realmente importante, e o estado de coisas reinante na entidade. O que acontece hoje na ABI não é motivo de festa, mas de uma profunda reflexão sobre os caminhos que ela deve trilhar para, renovada, retomar a sua trajetória histórica. Espero que o meu gesto, assim como o do Conselho Consultivo da Representação de São Paulo, que renunciou coletivamente, contribua para essa retomada.
J&Cia – O que mais pesou na sua decisão?
Audálio – O solene desprezo do atual presidente pelos princípios que devem ser observados na condução de uma entidade da importância histórica da ABI. Como é possível que não se façam as reuniões de diretoria e as decisões sejam tomadas sem qualquer discussão? E como explicar que tal anomalia ocorra sem uma reação à altura? Por que não repercutiram os afastamentos de cinco diretores? Não é de se perguntar se as suas razões não são as mesmas que agora motivam a minha e a renúncia do Conselho Consultivo da representação de São Paulo?
J&Cia – Por que, na sua opinião, a ABI, que tem sede e estrutura no Rio, não conseguiu ainda deslanchar em São Paulo e nem se consolidar em outras regiões brasileiras?
Audálio – Na verdade, a única representação da ABI que conseguiu se consolidar foi a de São Paulo. Em outros Estados, três ou quatro, há os esforços individuais de alguns jornalistas. Mas por mais boa vontade que eles tenham não há bases sólidas para sua atuação. Não há o respaldo necessário, nem o apoio da ABI encastelada no Rio de Janeiro. E não há, sobretudo, condições que permitam, por exemplo, um trabalho eficaz de filiações. Além disso, como atrair associados no Ceará, por exemplo, se eles não podem exercer o direito de voto em seu Estado? Por que, até hoje, só os associados do Rio de Janeiro escolhem a diretoria de uma entidade que se pretende nacional? Não é aceitável que se faça uma eleição com o comparecimento de 100 votantes numa entidade dessa importância. E ainda se apresente esse fato como uma curiosa coincidência com as comemorações dos 100 anos da ABI, como vimos no jornal da entidade.
J&Cia – Sempre vinculado à defesa dos direitos humanos, da liberdade de imprensa, da democracia, quais os seus planos agora que se desligou oficialmente da ABI?
Audálio – Quando aceitei participar da direção da ABI considerei o papel histórico da entidade e as possibilidades que se ofereciam, naquele momento, de realização de um trabalho que não apenas prosseguisse, mas que fosse fortalecido no sentido do aperfeiçoamento democrático e da defesa dos direitos humanos, principalmente dos setores mais desprotegidos da nossa população. Se não há perseguição política, hoje, praticam-se os mesmos métodos da ditadura militar contra os pobres. Tortura-se impunemente nas delegacias de polícia, nas abordagens policiais nas favelas e na periferia das grandes cidades. Basta ver o que acontece nas favelas do Rio de Janeiro em nome do combate ao tráfico e à violência. Não tenho planos, mas não deixarei de lutar. Em qualquer espaço. Minha história é conhecida. Não usei nenhuma das entidades pelas quais passei para fazer carreira ou aparecer nas fotografias.
J&Cia – Talvez a mais reconhecida iniciativa vinculada ao centenário da ABI, o I Salão Nacional do Jornalista Escritor vai ter fim com a demissão coletiva ou vocês pretendem reeditá-lo sob os auspícios de outra instituição ou em outro formato?
Audálio – Não tenho dúvida em afirmar que o Salão Nacional do Jornalista Escritor foi a realização mais consistente e que realmente marcou as comemorações do centenário da ABI. Nossa proposta, mais de uma vez levada à presidência da ABI, era de que a segunda edição do evento se realizasse no Rio de Janeiro, ainda no ano do centenário. Nunca houve uma resposta, nem nada foi feito nesse sentido. Para a direção da ABI foi como se nada tivesse acontecido, apesar da enorme repercussão do evento. Como a direção da ABI nada fez para tocar a idéia para a frente, nada impede que ela seja desenvolvida futuramente por outra entidade.
A seguir, as íntegras das cartas de renúncia de Audálio Dantas e do Conselho Consultivo da Representação São Paulo da ABI.
Audálio Dantas
“Profundas divergências em relação aos métodos empregados na administração da Associação Brasileira de Imprensa, hoje quase totalmente submetida à vontade de seu presidente, levam-me a apresentar minha renúncia aos cargos de vice-presidente da entidade e de presidente de sua Representação em São Paulo.
“Essa decisão, tomada depois de várias discussões no âmbito do Conselho Consultivo da Representação, deve-se à constatação de que o projeto que tínhamos o propósito de realizar para fortalecer a presença da ABI em São Paulo tornou-se inviável, não só pela inoperância da máquina burocrática instalada no Rio de Janeiro, mas principalmente pela absurda concentração das decisões nas mãos do presidente da Casa e de seus prepostos, alguns dos quais sequer são funcionários da entidade.
“Os problemas decorrentes dessa situação vêm comprometendo gravemente o funcionamento da entidade, causando-lhe prejuízos de toda ordem. O mais grave, porém, é que, submetida ao autoritarismo do atual presidente, a ABI está jogando no lixo toda uma história de lutas que a transformaram numa trincheira da democracia, da liberdade de informação e expressão e da defesa das grandes causas nacionais.
“O passado construído por figuras da dimensão de Barbosa Lima Sobrinho, Herbert Moses e Prudente de Moraes, neto, hoje serve apenas como tema de discursos empolados que ocultam a verdadeira situação da ABI.
“Enquanto se repete o discurso libertário, em ocasiões festivas como as que ocorreram durante as comemorações do centenário da ABI, pratica-se internamente toda sorte de arbitrariedades. Nas mãos do atual presidente, o estatuto da ABI é letra morta. As decisões de maior relevância são tomadas sem o conhecimento da diretoria, mesmo porque não são realizadas as reuniões quinzenais determinadas pelo estatuto. São tomadas, também, decisões absurdas. Recentemente, a logomarca da ABI foi inserida em informe publicitário de entidades que congregam hotéis, restaurantes, bares e similares, entre as quais a Apam – Associação Paulista de Motéis –, condenando um projeto de lei que restringe os ’direitos dos fumantes‘ em locais públicos. No caso, juntamente com tais entidades, a ABI se manifesta ’pela liberdade de escolha’.
“O Conselho Deliberativo, órgão superior da administração da ABI, ao qual cabe discutir e aprovar as propostas do colegiado diretivo, foi praticamente transformado em instrumento homologatório das decisões tomadas pessoalmente pelo presidente da ABI.
“As reações a essa situação absurda são respondidas, em várias ocasiões, por discursos agressivos e desrespeitosos pelo presidente. Conselheiros ou diretores que ousam contrariá-lo são tratados como inimigos e, muitas vezes, destratados, como ocorreu recentemente, quando a um deles foi dito, aos gritos, que ’não significa nada, não representa nada’.
“Foram atitudes como esta que levaram a que nada menos de cinco diretores tenham renunciado a seus cargos, como foi o caso da diretora administrativa Ana Maria Costabile. Um funcionário admitido pela Presidência com poderes de interventor ofendeu-a Volkswagen com palavras de baixo calão, diante de todo o pessoal da Secretaria, chegando a ameaçá-la de agressão física. O caso terminou numa delegacia de polícia.
“As manifestações escritas, mesmo quando assumidas coletivamente, têm sido simplesmente ignoradas. Foi o caso do documento assinado por oito dos onze membros (três não estiveram presentes à reunião que discutiu e aprovou o texto) do Conselho Consultivo da Representação de São Paulo, contendo críticas à presidência da Casa, em virtude de decisões tomadas a respeito do I Salão Nacional do Jornalista Escritor, em novembro do ano passado. Além de críticas, o documento propunha medidas como uma forte campanha de filiação à ABI no estado de São Paulo, com a aplicação de parte dos recursos financeiros obtidos pela Representação para a realização do evento. Não era a primeira vez que se tentava encontrar os meios necessários para a consolidação da Representação, tornando-a capaz não apenas de atrair mais associados, mas de obter os recursos suficientes para sua manutenção, sem depender de aportes da sede. Mas a proposta caiu no vazio, como muitas outras.
“Levado a reunião do Conselho Deliberativo pelo presidente da ABI, o documento foi interpretado como manifesto ’subversivo‘, tentativa ’separatista‘ da Representação de São Paulo. Numa atitude de total desrespeito aos integrantes do Conselho Consultivo da Representação, ele nunca foi respondido. Esse conselho, é importante frisar, é composto por figuras da mais alta representatividade de diversas áreas do Jornalismo em São Paulo, além de representantes dos estudantes, professores e dirigente de associação de jornais.
“Da mesma maneira, não obteve resposta o documento que eu, na condição de vice-presidente da Casa, enviei ao Conselho Deliberativo em 17 de abril deste ano, a respeito do processo eleitoral para renovação do terço de integrantes desse órgão. O documento contém a grave afirmação, nunca contestada, de que a eleição foi fraudada, uma vez que não foram respeitados prazos, constituição da comissão eleitoral, inscrição de chapas e outras exigências do Regulamento Eleitoral.
“A discussão sobre o atropelamento do processo eleitoral pelo presidente da ABI, na reunião ordinária do Conselho Deliberativo, no dia 15 de abril, teve desfecho trágico: o conselheiro Arthur Cantalice, que usava da palavra para criticar os métodos postos em prática pela direção da Casa para a realização da eleição, caiu fulminado por um ataque cardíaco. Pouco se falou sobre esse lamentável fato. E nada se disse sobre o documento por mim apresentado dois dias depois, na continuação da reunião do Conselho. Na verdade, tentou-se escamotear a sua existência. O documento só foi lido quando um grupo de conselheiros se levantou e exigiu que isso fosse feito.
“Em sua conclusão, o texto resume a própria situação da ABI: ’Tudo isso (a série de desmandos) constitui desrespeito não apenas a um regulamento, mas à entidade que, em cem anos de história, contribuiu de maneira marcante para a defesa da democracia, da liberdade de expressão e defesa dos direitos dos cidadãos’. E acrescenta que é uma contradição que, ’enquanto vários setores da sociedade que reconhecem na ABI uma trincheira da democracia, um bastião da liberdade, lhe prestam grandes homenagens, estejamos nós, seus diretores, a discutir uma questão como esta do atropelamento de um processo eleitoral’.
“Seria exaustivo citar outros exemplos de autoritarismo e desrespeito à própria história da ABI. Mas o fato é que eles, hoje, fazem parte do cotidiano da entidade. Convivi com essa situação, obviamente dela discordando, até o limite da tolerância, atendendo a ponderações de companheiros da diretoria e do Conselho Deliberativo. Minha renúncia, diziam, prejudicaria a imagem da ABI, que estava para comemorar o seu centenário.
“Chegou, porém, o momento em que continuar é impossível. Convidado a participar da diretoria da Casa, num momento em que, esperava-se, ela poderia ser fortalecida para retomar a sua quase secular trajetória de luta democrática, aceitei o encargo com a mesma disposição com que participei dessa mesma luta, em outras frentes.
“Minha história é conhecida. Jamais me calei na luta contra a injustiça e o arbítrio. Não tenho o direito de silenciar diante do autoritarismo que hoje domina a ABI. Espero que a minha renúncia, em caráter irrevogável, possa contribuir para que diretores, conselheiros e associados da mais importante instituição de imprensa do País reflitam e tomem decisões que a reconduzam ao seu destino histórico, que é o da defesa da liberdade.”
Conselho Consultivo
“Em solidariedade ao companheiro Audálio Dantas, os membros do Conselho Consultivo da Associação Brasileira de Imprensa, representação São Paulo, apresentam, por este meio, pedido de irrevogável renúncia coletiva.
“Sustentam este pedido as mesmas razões expostas por Audálio Dantas em sua carta de renúncia, entre elas a impossibilidade de continuar a aceitar os métodos autoritários do atual presidente da entidade, Sr. Maurício Azêdo, na administração da ABI. São inaceitáveis as suas continuadas atitudes de ofensivo desrespeito ao homem digno e ao cidadão exemplar que é Audálio Dantas, admirável protagonista de lutas históricas em favor da liberdade, da democracia e dos direitos humanos.
“Atestamos que todos os fatos apontados na carta-renúncia de Audálio Dantas são rigorosamente verdadeiros. A gravidade do que se relata justifica, portanto, e plenamente, a atitude tomada por ele, que deve ser entendida como gesto de grandeza em defesa da própria ABI, cuja história centenária a identifica e qualifica como instituição símbolo dos ideários democráticos da Nação brasileira.
“E essa História vem sendo vilipendiada pelos comportamentos inadequados do atual presidente da instituição.
“Por isso, e em favor da preservação da ABI, Audálio Dantas renuncia. E nós o acompanhamos, solidariamente.”
São Paulo, 17 de dezembro de 2008.
Assinam: Alberto Dines, Carlos Marchi, Eduardo Ribeiro, Egydio Coelho da Silva, Gioconda Bordon, José Marques de Melo, Laurindo Lalo Leal Filho, Leandro Buarque, Manuel Carlos Chaparro, Ricardo Viveiros e Sérgio Gomes da Silva
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