JORNAL INTERCOM![]()
Jornal semanal da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação![]()
Ano 4, nº 87, São Paulo – SP – Brasil
07 de março de 2008![]()
ISSN 1982-372X![]()
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Fórum
Alaic completa 30 anos de contribuições ao Pensamento Latino-Americano em Comunicação
Foi em Caracas, na Venezuela, entre os dias 16 e 17 de novembro de 1978, que um grupo de pesquisadores (Antonio Pasquali, Luis Ramiro Beltrán, Jesus Martín-Barbero, Alejandro Alfonzo, Marco Ordoñez, entre outros), comprometidos com o avanço do campo acadêmico na América Latina, vislumbraram a importância e a necessidade de criação de uma entidade capaz de congregar idéias oriundas de toda a região latino-americana. Assim nasceu a Asociación Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación (Alaic), como um organismo internacional de caráter científico e gremial sem fins lucrativos, como bem afirmou a professora Margarida Kunsch durante a comemoração dos 25 anos da entidade.
Emerge, desta forma, um contingente multifacetado de pesquisadores, que passam a divisar a comunicação como o intercâmbio de experiências para além dos campi acadêmicos. Representam o pensamento da comunicação popular e democrática, caminhando para a aplicação dos princípios definidos na Nova Ordem Internacional de Informação e da Comunicação (NOII). Foi exatamente nesse cenário que aparece a ALAIC, definindo como princípios básicos a promoção e a defesa do desenvolvimento da pesquisa, além do fomento a investigação orientada para as mudanças sociais nos processos comunicativos. Foi a maneira encontrada para aglutinar os pesquisadores em torno das temáticas que já eram comuns, mas que ainda eram investigadas de forma desarticulada e individual.
Entre os anos de 1978 a 1982 a Entidade definiu como aportes centrais a necessidade de congregar pesquisadores em torno das políticas nacionais de comunicação, com a missão de ser a interlocutora com representantes dos países latino-americanos junto às universidades, as agências governamentais, os centros de pesquisa, as organizações não governamentais, com vistas à formação de associações nacionais de pesquisadores da comunicação.
Nos anos seguintes (1982 a 1988), realizou a produção de bibliografias sobre a pesquisa em comunicação nos países: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, México, Panamá e Peru.
Teve como primeiro presidente o pesquisador Luis Aníbal Gómez, da Venezuela e enfrentou várias dificuldades para sobreviver institucionalmente pelos idos dos anos 80, resultado da crise político-econômica que assolou a maioria das organizações não governamentais na América Latina.
Podemos dizer que a crise enfrentada pela ALAIC não estava isolada. O mundo vivia um cenário de mudanças. Com o prenúncio do fim da guerra fria, a desestabilização de muitos movimentos sociais e os problemas enfrentados pela própria Unesco, os resultados foram danosos, em muitos sentidos, para os países em desenvolvimento. Um dos principais abalos foi chamado de desmobilizador pelo professor José Marques de Melo (1992). Para ele a luta pela sobrevivência ocasionou a migração de muitos pesquisadores do setor público e das universidades para as atividades civis. O afastamento dessas lideranças ocasionou uma evasão das atividades de pesquisa e de sedimentação realizadas nas associações intelectuais, que eram as principais responsáveis pela luta e pelo fortalecimento dos processos de recuperação dos direitos da cidadania.
Foi durante o 16º Encontro da Asociación Internacional de Estudios e Investigadores de la Información (AIERI), ocorrido junho de 1988, em Barcelona, na Espanha, que a reconstituição da ALAIC deu os primeiros sinais positivos. Participaram dessa atividade: José Marques de Melo, Jesús Martín-Barbero, Rafael Roncagliolo, Fátima Fernandez, Joaquim Sánchez, Luiz Peirano, Tereza Quiróz, Javier Protzel, Anamaria Fadul, Fernando Perrone e Ingrid Sarti.
Dando continuidade às ações de reestruturação, ainda no ano de 1988, mais precisamente no mês dezembro, entre os dias 2 a 4, em Embu-Guaçú, São Paulo, realizou-se o I Colóquio Brasil-México de Investigação da Comunicação. Foi nesse espaço que ocorreu a formação do Comitê de Reconstituição, integrado por pesquisadores de diversas entidades comunicativas, das quais citamos: Enrique Sáchez Ruiz, presidente da Asociación Mexicana de Investigadores de la Comunicación (AMIC); Margarida Maria Krohling Kunsch, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom); Luis Nuñez Gomes, presidente do Consejo Nacional para la Enseñanza y la Investigación de las Ciencias de la Comunicación de México (Coneicc); Antonio Carlos de Jesus, diretor da Associação Brasileira de Faculdades de Comunicação Social (Abecom); José Tavares Barros, presidente da Organização Católica Internacional de Cine para a América Latina (OCIC-AL) e Francisco de Assis Fernandes, vice-presidente da União Cristã Brasileira de Comunicação Social (UCBC). É importante citar os papéis fundamentais e decisivos dessas entidades nessa empreitada. O professor José Marques de Melo foi eleito por unanimidade para presidir o Comitê de Reconstrução, ratificando a indicação feita anteriormente, em Barcelona.
Então, em 1992, sob a batuta do professor José Marques de Melo, de um grupo aguerrido de pesquisadores e com o apoio da professora Margarida Kunsch, então presidente da Intercom, com o apoio da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo a ALAIC se reestrutura realizando, no Brasil, o seu primeiro congresso.
Atualmente, como tem afirmado a professora Margarida Kunsch, a Entidade congrega um grupo multifacetado de pesquisadores, associações e instituições dedicados à pesquisa científica em matéria de comunicação, incorporando como membros de acordo com os estatutos.
Para o professor Marques de Melo a ALAIC tem seu papel fundamental no estímulo da difusão do pensamento latino-americano sobre comunicação nas universidades, suscitando o interesse de analistas internacionais que, com suas observações e críticas, respaldam o esforço intelectual de pesquisadores que buscam avançar academicamente.
Um dos principais desafios da Associação tem sido motivar a comunidade acadêmica para o trabalho conjunto e, sem dúvida, constituiu-se em uma das instituições responsáveis pela disseminação das idéias da Escola Latino-Americana de Comunicação, estimulando o desenvolvimento das pesquisas aplicadas; realizando um trabalho produtivo; resgatando a memória do conhecimento comunicacional e representando um avanço na consolidação das pesquisas em comunicação, em toda a América Latina.
Podemos dizer que a Alaic representado um passo adiante para a consolidação de um pensamento comunicacional latino-americano, realizando um trabalho produtivo, seja participando dos fóruns internacionais que, na década de 1970, “dieron sustentación al movimiento por la construcción de políticas democráticas de comunicación”. Seja se preocupando com o resgate do conhecimento comunicacional acumulado e promovendo a criação de bases documentais na Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, México, Panamá e Peru, como afirma o professor Marques de Melo.
As ações empreendidas pela Entidade têm estimulado a difusão do pensamento latino-americano sobre comunicação nas universidades da América Latina, neutralizando desta forma, a tendência de super valorização de correntes oriundas de países europeus e norte-americanos.
Além de uma produção significativa na área, que tem possibilitado o fortalecimento da pesquisa em nosso continente, mencionamos: o site da ALAIC, onde encontramos quase 500 papers dos oito congressos da entidade; os seminários internacionais de pesquisa (1999 – Cochabamba, Bolívia; 2001 – La Plata, Argentina; 2003 – Santa Cruz de la Sierra, Bolívia; 2005 – São Paulo, Brasil), as publicações, como: livros dos Congressos bi-anuais e dos GTs ALAIC; entre outras ações. Todos esses espaços têm permitido a difusão das idéias comunicacionais em nosso continente. E por isso o resgate da memória adquire papel importante na consolidação eficaz de uma comunidade acadêmica.
Para o professor Marques de Melo (2005), o grande dilema dessa comunidade, formada por pesquisadores, analistas de discurso e estudiosos das mediações culturais, na atualidade, é buscar as singularidades de sua identidade.
Os caminhos são renovados constantemente. Estamos atravessando um grande momento de revitalização dos estudos comunicacionais. As tecnologias da comunicação e da informação, mensagens, seus significados e discussões, bem como toda a busca para delinear uma nova abertura renovaram vitalmente o “terreno intelectual em que muitos de nós trabalhamos”, constituindo-se desta forma em uma nova opção de estudos, como bem afirmou NEWCOMB, em 2001, no texto publicado na Revista Comunicação & Sociedade.
Assim, quando reconhecemos a legitimação e a consolidação da Escola Latino-Americana de Comunicação nas ações realizadas pela ALAIC, não estamos renegando o conhecimento oriundo principalmente das escolas norte-americanas e européias. Mas distinguindo os resultados de trabalhos de pesquisadores como: Luis Ramiro Beltrán, Jesús Martin-Barbero, Cremilda Medina, Luiz Beltrão, Eliseo Verón, José Marques de Melo, Juan Díaz Bordenave, Juan Somavia, Fernando Reyes Mata, Hector Schmucler, Rafael Roncagiolo, Margarida Kunsch, Raul Fuentes Navarro, Paulo Freire, Erick Torrico, Christa Berger, Jesús Maria Aguirre, Guilerme Orozco entre tantos outros, que consolidam e respaldam nossa afirmação.
Notas
Doutora e mestre em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo. Diretora Suplente da Cátedra Unesco de Comunicação para o Desenvolvimento Regional. Coordenadora do Acervo do Pensamento Comunicacional Latino-Americano José Marques de Melo, da Cátedra Unesco. Professora do Lato Sensu em Comunicação e dos cursos de Graduação na mesma instituição. Editora do JBCC - Jornal Brasileiro de Ciências da Comunicação e do Anuário Unesco/Metodista de Comunicação Regional. Professora do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu da Unipac/MG. Coordenadora do Prêmio Luiz Beltrão de Ciências da Comunicação da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (INTERCOM) e do Grupo de Pesquisa “Pensamento Comunicacional Latino-Americano” do CNPq. E-mail: mcgobbi@terra.com.br.
Nota da autora. O professor Dr. Fernando Perrone faleceu em São Paulo, Brasil, no dia 10 de outubro de 2007, aos 72 anos de idade. Fez carreira política na sua juventude, tendo sido Deputado Estadual em São Paulo. Seu mandato legislativo foi cassado em 1964, o que o obrigou a exilar-se no Chile e depois na França. Foi diretor de Relações Internacionais da Intercom, no final dos anos 80. Docente da ECA-USP, Perrone formou-se em Sociologia pela USP, fez doutorado na Universidade de Paris, sob orientação de Jean Cazeneuve e livre-docência na própria USP (Fonte: Boletim da Intercom, Ano 3, nº. 76, São Paulo, SP, Brasil, 19 de outubro de 2007).
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