JORNAL INTERCOM![]()
Jornal semanal da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação![]()
Ano 4, nº 85, São Paulo – SP – Brasil
22 de fevereiro de 2008![]()
ISSN 1982-372X![]()
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Fórum
Um exame do jornalismo on line em Portugal
António Fidalgo
Fonte: Recensão – janeiro, 2008 / Labcom – Universidade de Covilhã / Portugal
1- A Internet alterou para sempre o jornalismo, sobretudo desde a invenção da linguagem html por Tim Berners-Lee em 1990 e a sequente introdução e difusão dos browsers gráficos (Netscape e Internet Explorer) em meados dessa década. Decorridos mais de dez anos é altura de revisitar o que efectivamente mudou no jornalismo e as decorrentes consequências em múltiplos sectores da sociedade, mas também de rever as expectativas que não se cumpriram, de registar desenvolvimentos inesperados e de anotar surpresas havidas.
O número duplo da revista Comunicação e Sociedade de 2006, organizado por Manuel Pinto e Luís António Santos, intitulado “Jornalismo e Internet” e dedicado à análise de dez anos de jornalismo online em Portugal constitui um excelente “estado da arte”. O número da revista está dividido em duas secções, a primeira intitulada “O jornalismo online – Perspectivas” (págs 15-90) e a segunda “Dez anos de jornalismo online em Portugal” (91-137), a que se acrescentam uma parte de “Testemunhos” (141-166) e finalmente uma de “Leituras” (191-204). A secção de Perspectivas é composta por 5 artigos de autores estrangeiros, um americano, Mark Deuze, dois espanhóis, Santiago Tejedor e Susana Herrera, e dois brasileiros, Elisabeth Saad Corrêa e Sylvia Moretzsohn. A secção sobre Dez anos de jornalismo online, que publica as comunicações de um colóquio com o mesmo nome organizado na Universidade do Minho em Julho de 2005, compreende textos de Rosental Alves (Universidade do Texas em Austin), Hélder Bastos (Universidade do Porto), João Canavilhas (UBI), Xosé Lopez (Universidade de Santiago de Compostela) e Ramon Salaverría (Universidade de Navarra). Os testemunhos, em número de 5, incidem sobre as experiências concretas de jornais portugueses na rede. Em suma, quem ler o volume “Jornalismo e Internet” do princípio ao fim ficará com uma noção da realidade, dos desafios e dos problemas do jornalismo na era da comunicação online.
2- A introdução de 7 páginas (5-11) dos organizadores do volume é modelar. Fazem um mapeamento sistemático do campo de análise, identificam áreas e respectivas problemáticas e por fim elaboram uma síntese dos textos incluídos na revista à luz do contexto que começaram por delinear. É um texto claro e objectivo e mesmo não havendo qualquer pretensiosismo nessa introdução, é um dos melhores textos do número.
A primeira área de análise apontada é a da mudança tecnológica, a digitalização crescente de toda a informação e a emergência da Internet. A actividade jornalística não se distingue neste aspecto de qualquer outra actividade que nas últimas décadas sofreu alterações profundas. A tecnologia CAD (Computer Assisted Design) revolucionou todo o desenho mecânico e a comunicação por redes todo o sistema bancário. Neste âmbito havia que adoptar a nova tecnologia ou pura e simplesmente desaparecer do mercado. Há uma componente determinística na variante tecnológica, que corre obviamente o risco de ser sobreavaliada, como se nada mais importasse. Muito pior do que tal sobreavaliação, todavia, seria ignorar as inovações tecnológicas, considerando-as como gadgets ou modas passageiras que substantivamente nada modificariam.
As modificações sociais económicas, sociais, politicas, culturais, induzidas pelo digital e pela Internet apresentam parâmetros comuns como a descentralização de poder e a fluidez de processos e de atitudes. Tal tipo de modificações estendem-se também inevitavelmente ao jornalismo. As organizações estabelecem-se em redes, muito fluidas, e não em corporações fixas. A produção noticiosa nomeadamente assenta cada vez mais numa rede policêntrica e policontextual, de free-lancers, unidos tecnologicamente, mas pouco tendo em comum em termos sociais ou culturais.
A segunda área apontada é da emergência de novas linguagens e de novos géneros e formatos. A ideia de que no fundo, no fundo tudo continua na mesma, uma redacção profissional produz notícias e os outros recebem-nas seja qual o meio, imprensa, rádio ou televisão e, portanto, também na Internet, é ignorar no fundo a especificidade desta e, portanto, completamente errónea. O caso mais emblemático dos novos formatos é o weblog. Um indivíduo sozinho consegue montar, produzir, editar, publicar, um órgão noticioso que pouco tem a ver com os tradicionais. Isto não é de modo algum a continuação do mesmo, mas um outro tipo de informação e jornalismo.
A terceira área de análise é a que se chama habitualmente a de jornalismo de cidadania ou jornalismo cívico e que se centra no papel crescente dos cidadãos comuns na tomada de palavra, na própria produção e emissão de notícias, como o mostra e o demonstra o surgimento e a popularidade dos blogs. Será que assistimos a uma diluição da fronteira entre emissor e receptor? Os autores assumem essa diluição e recorrem aos conceitos de “jornalismo público” e o “jornalismo como conversação” para melhor elucidar o desaparecimento da barreira entre os responsáveis da publicação e a audiência.
3- Os textos reunidos no volume tratam as três áreas delineadas. O texto de Mark Deuze, “O jornalismo e os novos meios de comunicação social” abre logo com a questão técnica, “de contextualizar as consequências da digitalização online”. O jornalismo é hoje indissociável da Internet que se tornou numa plataforma geral de disseminação de notícias. Não se indaga se as notícias passam pela Internet, pois isso é ponto assente, importa saber sim é que consequências tem esse facto para o exercício e para a percepção do jornalismo. De facto, como Deuze o reconhece de forma óbvia, “o jornalismo tem sido sempre dependente da tecnologia”. A imprensa escrita é fruto da tecnologia tipográfica desenvolvida ao longo do século XIX, a rádio e a televisão são filhas de tecnologias do século XX e as tecnologias digitais e de redes no dealbar do século XXI dão azo às plataformas digitais multimédia (sem fios).
Hoje, o jornalismo digital ou online não indica apenas um novo tipo de jornalismo --o quarto tipo ao lado do escrito, do radiofónico e do televisivo--, mas indica também um âmbito de pesquisa que se estabelece e afirma na formação académica e na investigação científica. É a esse novo tipo de jornalismo que se têm vindo a aplicar “modelos, teorias, paradigmas, e métodos existentes” desenvolvidos a partir dos três tipos tradicionais. O que se começou por fazer foi d facto analisar o novo jornalismo “em termos do triângulo clássico dos estudos de comunicação social, examinando como a produção, conteúdo e consumo das mensagens mediáticas se desenvolve online”.
Sem contestar a validade destas abordagens “antigas” ao novo meio, Deuze, muito bem, faz notar que isso mostra que ainda se analisa o papel da Internet na sociedade à luz do papel que os média tradicionais desempenhavam e desempenham na sociedade e que talvez isso seja a explicação porque tem sido difícil estudar os fenómenos comunicativos mais sui generis da Internet, os weblogues, as redes p2p ou os motores de busca de notícias.
Deuze reconhece a nova realidade e tenta dentro desta apurar a diversidade já existente. Assim, reconhece quatro tipos de jornalismo online distintos: 1) os sites de notícias mainstream, 2) os directórios, 3) sites de opinião e comentários e 4) fóruns de discussão. A partir desta verificação/classificação avança para uma tipologia de jornalismo online ao longo de duas linhas que se intersectam, uma horizontal, indicativa do domínio conteúdo-conectividade, e uma vertical, indicativa do domínio da comunicação participativa. Ou seja, na horizontal, teremos num extremo a tónica no conteúdo editorial e no outro a tónica na conectividade pública. Um site de notícias mainstream é obviamente o tipo de jornalismo online onde a aposta no conteúdo editorial é maior. Por sua vez, os fóruns de discussão afastam-se dessa opção a fim de darem a maior importância à conectividade pública. Quanto à linha vertical, esta desenvolve-se quanto ao grau de moderação na participação, encontrando-se num extremo a comunicação participativa moderada e no outro a comunicação participativa não-moderada. De novo, temos os sites de notícias mainstream como o tipo onde o grau de moderação é maior e os fóruns de discussão onde é menor, podendo mesmo não haver qualquer moderação. Empregando os termos de “aberto” e “fechado” para traduzir a não moderação e a moderação, “um site pode ser considerado aberto quando permite aos seus utilizadores expor comentários, afirmações, imagens, sem moderação ou filtragem. Na outra ponta do espectro, a comunicação participativa, fechada pode ser definida como um site onde os utilizadores podem participar, mas os seus actos são sujeitos a uma rígida moderação e controlo editoriais.”
O modelo proposto é interessante, tanto do ponto de vista classificativo como operatório. Percebe-se que um site de maior moderação e de uma maior aposta no conteúdo editorial exija muito mais meios humanos para a realizar que um fórum de debate completamente aberto, onde bastariam os meios técnicos para assegurar o seu funcionamento em velocidade de cruzeiro. Não se percebe, todavia, a afirmação de Deuze de que “a chave para perceber este modelo reside no equilíbrio ou integração conseguidos entre os actos de produção (conteúdo) e os de consumo (conectividade)” (pag. 22). Nesse equilíbrio reside o sucesso ou o insucesso de um site, mas não seguramente a compreensão do modelo. Aliás, mais do que equilíbrio trata-se de correspondência, ou seja, o ideal será que uma maior conectividade e participação traga consigo um maior conteúdo editorial.
No entanto, a ilação tirada de que, com a crescente interactividade e com a correspondente passagem de meios fechados a meios abertos, nos encontramos perante uma convergência cultural pode ser demasiado optimista e apressada. A astúcia das empresas em promover a participação dos indivíduos, de os incluir nas suas estratégias de produção não significa eo ipso “uma relação mais próxima, emancipadora e participativa entre profissionais e seus públicos”. A participação de internautas em votações, comentários, promovida por sítios de jornais ou rádios, pode ser encarada como umas estratégia de sedução e viciação de uma ilusória participação. Claro que existem lógicas diferentes de encarar o fenómeno de produção individual na internet, a de egocasters e de peers to peers. Mas, provavelmente teremos de apontar mais para uma diversidade do que para uma convergência; aliás, sendo de considerar que essa diversidade será bem mais “humanista” do que a estratégia de incluir os consumidores no processo de produção a fim de “cultivar a sua fidelidade e gerar conteúdos a baixo custo”.
Deuze tem toda a razão quando na última parte do seu texto, sobre as consequências do jornalismo online, aponta que são os diferentes tipos de jornalismo online que “poderão alterar a percepção de cada um sobre aquilo que é o verdadeiro jornalismo”, porque o jornalismo não é apenas uma questão tecnológica, mas também, e nalguns aspectos sobretudo, cultural. Também é de registar positivamente a crítica que faz a investigadores como Pavlik que “permanecem firmemente enraizados nos princípios da velha guarda, que equaciona o jornalismo como tendo uma primazia relativamente autónoma em relação ao conteúdo (editorial) e não à conectividade e numa cultura jornalística que é relativamente fechada às influências exteriores como as dos públicos, profissionais de marketing, empresas não jornalísticas e outros actores da esfera pública”. Não diferentemente do que acontece em meios tradicionais, mas de uma forma muito mais aguda o jornalismo online veio pôr em evidência a vertente intersubjectiva do jornalismo, de uma forma de diálogo entre as partes envolvidas nas notícias que se veiculam. A interactividade, o critério tecnológico decisivo na distinção entre meios abertos e meios fechados, ganha sentido cultural e socialmente quando equacionado em termos de intersubjectividade entre parceiros que se envolvem num processo noticioso.
A importância, a relevância e a exigência da vertente social e cultural na introdução das tecnologias no dia a dia, neste caso do ensino universitário do jornalismo online, é patente no texto de Santiago Tejedor “Hacia un currículo de ciberperiodismo. Estado, problemas e retos en la enseñanza del periodismo online: El caso de España”. Na parte dedicada aos problemas, obstáculos e carências, quando são elencadas as dificuldades só duas delas não são de ordem cultural ou social, a primeira que é uma questão de facto, a “juventude” do ciberjornalismo e a última que é técnica ou económica, “falta de infra-estrutura técnica”. As outras seis são de natureza social, política, cultural e administrativa: barreiras burocráticas, modificações dos planos de estudos, rejeição por parte dos docentes, necessidade de formar docentes, dificuldade de uma temática sobre o ciberjornalismo, falta de coordenação entre docentes e disciplinas. Mas ainda mais revelador da dimensão cultural das necessárias adaptações do ensino do jornalismo às novas realidades tecnológicas é a proposta dos “dez grandes câmbios formativos do ciberperiodismo” em que todos são da ordem normativa: os estudantes devem..., os estudantes têm de, nomeadamente, “tomar consciência do alcance da rede do ponto de vista informativo” (1º) e “mentalizar-se da importância de uma actualização constante dos seus conhecimentos”. Se a tese doutoral de Tejero, de que o seu texto é um sumário, tem valor é justamente em alavancar mediante uma pesquisa empírica a necessidade de uma estratégia intencional de adopção das tecnologias e da adaptação da formação às novas realidades. Não há um automatismo na introdução da tecnologia, por mais inevitáveis que sejam os ditames da inovação. É preciso enquadrar social e culturalmente (incluindo as dimensões administrativa e académica) essa introdução.
O tema de Saad Corrêa, a identidade do jornalismo na era do online, é certamente o mais pertinente, mas a autora em vez de o agarrar de vez, aflora-o apenas a partir de diversas perspectivas, económicas, tecnológicas, organizacionais. A sua análise começa, e muito bem, pela situação de crise do jornalismo contemporâneo, em particular a do seu país, o Brasil. A crise é económica, é social, é organizacional, é tecnológica, mas é sobretudo uma crise de identidade. A autora socorre-se de uma citação de Manuel Chaparro para ilustrar essa busca de identidade a partir da crise: “o jornalismo tradicional perdeu funções, em um mundo que se caracteriza pela capacidade institucional, particular, de produzir e difundir aquilo a que simbolicamente chamamos de notícia. Entretanto, no próprio cenário das pressões a que está submetido, o jornalismo começa a tomar consciência disso, o que pode ajudar a delimitar um novo lugar próprio, nos contextos e processos democráticos em que actua.”
Sylvia Moretzsohn apresenta um texto muito lúcido sobre “O mito libertário do jornalismo cidadão”. A ideia de que, graças à tecnologia – “munido de um celular com câmera, operando um blog na internet” --, qualquer pessoa se pode transformar num jornalista não passa de um visão libertária e não aguenta um exame mais atento de quem tenha ideias claras sobre a natureza da mediação jornalística.
Desde logo a contraposição entre um “nós” de cidadãos empenhados em comunicar livremente e um “eles” de jornalistas interessados em preservar privilégios de classe e em manipular a informação ao serviços das empresas que lhes pagam o salário é por demais simplista e ela própria deturpadora de uma realidade bem mais complexa. Por outro lado, o mito de um jornalismo cidadão, estimulado pela tecnologia, é a recorrência mais recente do mito mais antigo da tecnologia redentora. Nas décadas de 20 e 30 do século XX o rádio aparecia justamente com as mesmas possibilidades de participação de todos. “Brecht vislumbrava o potencial transformador do novo meio, no qual o público não seria apenas receptor, mas também emissor: a radiodifusão teria exactamente essa perspectiva relacional e interactiva em que se baseia hoje a internet”.
Sylvia Moretzsohn põe bem o dedo na ferida do chamado jornalismo cidadão ao examinar a inversão do filtrar e publicar. No bom jornalismo tradicional publica-se após uma filtragem à luz de procedimentos profissionais e deontológicos, no jornalismo participativo publicaria primeiro e filtraria depois, segundo a regra de que todos diriam o que têm a dizer e a selecção seria feita a posteriori. Que isto é um disparate é explicitado por Moretzsohn: “Não creio ser necessário dizer que, do ponto de vista das mais elementares regras deontológicas do jornalismo, esse procedimento seria no mínimo um disparate, pois significaria abrir o campo a todo tipo de boatos e de informações ‘plantadas’, com as nefastas consequências que todos conhecemos”. Esse tipo de participação de todos, o “open source journalism”, trabalhando com o método wiki, funciona eventualmente em nichos muito específicos, em que as fontes também são consumidores, mas obviamente que não funcionará no domínio geral da informação social e política, justamente onde o “jornalista é aquele profissional autorizado a estar onde o público não pode estar, e por isso tem direito ao acesso a fontes através das quais pode apurar as informações necessárias à sociedade”.
A análise de um caso que se pretende pioneiro na nova forma fazer jornalismo, e que declaradamente se demarca da “retrógada cultura jornalística do século XX”, o jornal coreano OhMyNews de Oh Yeon-ho, mostra bem que no fundo o que se trata é de business, as usual. Trata-se sim de “tirar proveito da agilidade proporcionada pelas novas tecnologias e estimula o público a alimentar o projecto em troca de uma remuneração simbólica e do status de ‘repórter’, ainda que não profissional”. Moretzsohn mostra bem que o jornalismo do cidadão comum que aqui se advoga – “vamos queimar a cultura de uma mídia que alienou os cidadãos comuns e tudo o que lhes é familiar”--, é o mesmo tipo de jornalismo da penny-press e de Hearst dos finais do século XIX, princípios do século XX. Também nesse tempo, o que se pretendia era um jornalismo em que era notícia não o que faziam os reis nos palácios, mas qualquer coisa, desde que desse que falar.
Para desfazer o mito, nada melhor que sublinhar o óbvio e que de tão óbvio é surpreendente. O mito libertário do jornalismo participativo ocorre num ambiente de fragmentação crescente de movimentos sociais, de deslegitimização das formas tradicionais de empenhamento social e político, onde tudo aparece igualmente válido. “É também neste quadro que floresce a suposta ‘fluidez’ pós-moderna, de contestação ao saber institucionalizado, à ciência e à própria razão, de tal forma que todos os discursos passam a ter a mesma validade, igualando-se justamente pelo facto de serem ‘diferentes’, mas jamais superiores ou inferiores em relação aos demais. O jornalismo não escaparia desse enfoque: é evidente que, se tudo se equivale, não haveria por que conferir a essa actividade uma autoridade especial: é apenas um discurso, mais um entre tantos. Todos somos jornalistas, tudo é jornalismo, como todos somos artistas e tudo é arte, tudo é ciência, tudo é absolutamente importante e espantosamente banal”.
O óbvio surpreendente é que o papel de mediação cumprido pelos jornalistas, papel exercido dentro de uma profissão, com um ethos específico, não desaparece com a participação dos cidadãos na feitura nas notícias. O jornalismo online não dispensa esse empenho profissional, a tempo inteiro e exercido como missão. Mesmo que o online seja uma revolução na forma de fazer jornalismo.
O texto de Rosental Calmon Alves, “Jornalismo digital. Dez anos de web ... e a revolução continua” defende que com a internet não estamos perante uma evolução, mas sim uma revolução no jornalismo. “A Internet não é apenas um novo meio, como foram o rádio e a TV, cada um acrescentando um canal sensorial à comunicação existente. (...) A web representa uma mudança de paradigma comunicacional muito mais ampla que a adição de um sentido. Ela oferece um alcance global, rompendo barreiras de tempo e espaço, como não tínhamos visto antes. (...) Estamos no começo da nova revolução do conhecimento e estamos vendo o impacto inicial sobre o jornalismo, assim como vemos suas consequências politicas, sociais e económicas mais amplas.”
A diferença de evolução e revolução está na mudança de paradigma. Não está em jogo apenas uma midiamorfose, mas também um midiacídio; o novo nasce das cinzas do velho. O controle da informação passa do emissor para o receptor, ficando aberto o caminho para uma comunicação eu-cêntrica. “A comunicação se torna eu-cêntrica porque tenho acesso somente ao que eu quero, na hora em que eu quero, no formato em que eu quero e onde eu quero”. Daí que o jornalismo-produto se converta num jornalismo-serviço, num fluxo contínuo de informação. Por outro lado, esta revolução incide também na desintermediação, com consequências graves para o modelo de negócio baseado na publicidade paga, em particular nos anúncios classificados. As verbas de publicidade estão assim a ser desviadas para sítios de busca que não têm quaisquer operações jornalísticas. Pelo que surge a questão: sem a publicidade como financiar uma redacção com mais de mil jornalistas, como é o caso do New York Times?
A capacidade de targeting da informação online, isto é, da possibilidade de, graças à possibilidade de traçar o perfil de um visitante, possível receptor, enviar informação à medida deste visitante e dos seus interesses, altera de um forma radical a forma de aglomerar as notícias e de as difundir. Acresce a isto, o fenómeno dos blogs que instaura um nova esfera informativa.De tal modo que os blogs se tornaram nos cães de guarda (watchdog) dos meios de comunicação tradicionais, os designados cães de guarda da democracia. De toda essa imensa panóplia de informação, da cacafonia em que se está a tornar a Internet, há lugar para um jornalismo sério, “o jornalismo independente e profissional indispensável à democracia. Este, no entanto, só será viável se souber adaptar-se aos novos tempos da digitalização e do online e aos respectivos paradigmas.
O texto de Hélder Bastos “Ciberjornalismo: dos primórdios ao impasse” retrata sobretudo e evolução do jornalismo em Portugal no confronto com as novas tecnologias digitais, num suceder de expectativas, frustrações e desafios. A aposta deve ser a formação dos novos jornalistas a nível universitário, aprendendo a dominar as novas tecnologias, mas sem descurar de algum modo a formação clássica de um formação jornalística: “a profissão terá muito a perder se a universidade se limitar a formar ciberjornalistas tecnicamente perfeitos, mas profissional, ética e deontologicamente ineptos.” Seria caso aqui para dizer que a universidade teria formatado informáticos para as redacções, mas não jornalistas.
O texto de João Canavilhas, “Do jornalismo online ao webjornalismo: formação para a mudança”, centrando-se também como o de Bastos na formação superior dos estudantes de jornalismo, vai mais longe ao identificar ponto a ponto as competências tecnológicas necessárias a um cabal desempenho profissional. No âmbito do multimédia, era de haver aquisição de competências em integrar infografias, vídeos e sons, fazer edição em html e trabalhar com animação vectorial. O que se exige é, ao fim e ao cabo, o domínio das ferramentas de um autor multimédia. Alem disso, torna-se também indispensável que o novo jornalista se imbua do novo espírito informativo, hipertextual e interactivo. Canavilhas sugere que a tradicional técnica da “pirâmide invertida” ceda o lugar a “uma arquitectura noticiosa mais aberta, com blocos de informação organizados em diferentes modelos, sejam eles lineares ou complexos”. O que acaba por advogar é uma nova linguagem do jornalismo, uma linguagem específica do webjornalismo.
Também no âmbito da formação universitária se centra o texto de Xosé López “Algunhas propostas para vencer os desafios na formación dos ciberxornalistas”. A tese é de que uma sociedade em profunda mudança e que com o jornalismo aconteceu o mesmo que com outras profissões com uma formação superior: “as transformacións sociolóxicas e tecnolóxicas do último cuarto de século crearon un marco favorable para converter numerosos ofícios en profesións especializadas, a maioria das cales encontraron un sitio na Universidade.” A formação superior na área do jornalismo responde às exigências da sociedade e a sociedade em rede ou do conhecimento exige uma formação especializada de ciberjornalismo.
O texto de Ramón Salaverría, “Construyendo un nuevo periodismo. Diez años de logros y retos en la prensa digital”, elenca 4 importantes desafios ou apostas do novo jornalismo, a saber, 1) desenvolver novas linguagens, 2) consolidar o jornalismo multiplataforma, 3) assegurar os modelos de negócio na rede, 4) formar para o novo jornalismo. Embora o jornalismo online continue a replicar as linguagens dos meios tradicionais, sobretudo da imprensa, não restam dúvidas que a tendência é para estabelecer novos tipos de linguagem, em particular incorporando as características da comunicação online. “Esas posibilidades linguísticas del ciberespacio se resumen en três rasgos: hipertextualidad, multimedialidad e interactividad. El reto linguístico de los cibermedios consiste em desarrollar unos lenguajes que aprovechen esas tres cualidades.”
Quanto à vertende de plataforma da internet, Salaverría mostra como o quarto meio vai comendo o campo dos três meios, a imprensa, a rádio e a televisão. Bem elucidativas são as três figuras, a primeira retratando 1990, em que aparecem três círculos separados, representando cada um deles um meio tradicional. A segunda figura retrata a situação em 2000, e aí os três círculos intersectam-se, sendo essa intersecção a internet. A terceira figura, que retrata um ano a vir, 20?0, o espaço de intersecção come quase por completo o espaço de cada um dos círculos. Aqui, todavia, levanta-se a questão bem interessante de saber se a rádio e a televisão sobre IP devem ser considerados rádio, televisão ou internet. É provável que a TV sobre IP seja tanto internet como televisão no sentido tradicional.
Quanto ao modelo de negócio a adoptar pelo jornalismo online Salaverría salienta a incógnita que prevalece. “Una de las mayores incógnitas que pesa sobre los cibermedios sigue siendo la de su rentabilidad. Diez años después de su aparición, la mayoria de los cibermedios continua en números rojos, algo que, como es evidente, lastra su desarrollo y retrae la inversión”. Passados dois anos, porém, algo se pode adiantar. Parece que o modelo de negocio copiará o modelo Google, o de se basear nas receitas da publicidade associada aos conteúdos e serviços. A gratuitidade prevalecente e crescente nos jornais online terá de encontrar o seu sustento numa publicidade direccionada pelos conteúdos e pelos visitantes, ou seja, numa publicidade personalizada e à medida de quem busca e usa a informação.
No desafio formativo, as competências tecnológicas nunca poderão descurar a formação clássica. O essencial será saber combinar as exigências tradicionais de investigar, recolher, e produzir informação com as competências tecnológicas específicas à internet e às respectivas características do hipertexto, do multimédia e da interactividade.
4- O exame dos dez primeiros anos do jornalismo online mostra que, independentemente da ênfase posta na ruptura ou na continuidade do novo tipo de jornalismo face ao tradicional, estamos perante uma viragem significativa na recolha, na produção, na edição, na difusão e na recepção da informação jornalística. Há uma identidade do velho e do novo jornalismo e esse está na mediação própria e específica dos jornalistas e, em particular, no ethos que informa essa profissão. Investigar as notícias, informar com rigor e isenção é o cerne do jornalismo, seja ele impresso, televisivo ou online. Obviamente surgem novas e radicais alterações à informação jornalística e a essas alterações há que reagir com a criação de novas linguagens e com uma formação profissional e académica adequada.
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