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JORNAL INTERCOM
Jornal semanal da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação

Ano 4, nº 108, São Paulo – SP – Brasil 15 de agosto de 2008
ISSN 1982-372X

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Fórum

O carismático Luiz Beltrão

Tereza Halliday *

No início da década de 1960, a Universidade Católica de Pernambuco tinha um único prédio de salas de aula, de formato sinuoso, ao lado do velho casarão que era a residência dos padres jesuítas, na rua do Príncipe. Os elevadores Schindler enguiçavam freqüentemente. Todos os cursos eram noturnos. No oitavo andar, funcionava o curso de Psicologia, dirigido pelo Padre Campos; no sétimo andar, o curso de Direito, tendo à frente o Padre Granjeiro; no sexto andar, o curso de Economia, não me lembro com qual padre. E no quinto andar, o curso de Jornalismo, fundado e dirigido pelo ex-seminarista Luiz Beltrão que dizia haver largado a batina por causa de duas paixões: o jornalismo e Zita.

Beltrão sempre dava aulas de paletó, sem gravata, camisa aberta ao peito. Fumava constantemente e seus dedos eram manchados de nicotina. Bem corado, de rosto largo, óculos, mais para gordo. Não se pode dizer que fosse um homem bonito mas era sempre bem humorado e sabia ver o lado humorístico das coisas.

Com um sorriso enigmático dizia: “O ICINFORM funciona porque não existe”. Comparava-o com o Center for Mass Communication Studies de Marshall McLuhan, na Universidade de Toronto, o qual, também, só tinha papel timbrado e a sala de trabalho de seu criador. O ICINFORM (sigla meio canhestra do Instituto de Ciências da Informação), sem estrutura organizacional, era só processo, e funcionava com o carisma de Luiz Beltrão e nós, alunos, trabalhando como voluntários, de datilógrafos, revisores, redatores, office-boys.

Lembro-me de ter trazido de casa duas poltronas usadas de bambu com almofadas dupla-face, que meus pais iam substituir por cadeiras de terraço mais leves. Levei-as para o quinto andar da Católica em atenção ao pedido de doação de mobiliário e objetos de escritório para o ICINFORM, que nos seus primórdios só tinha uma estante de ferro e um birô emprestado pelos padres. Contrariando a brincadeira do próprio Beltrão, ficou uma prova cabal da existência do ICINFORM: a revista “Comunicações & Problemas”, cujo formato em duas colunas ele tirou do então periódico –modelo de pesquisa da comunicação – o “Journalism Quarterly”. Eu era “convocada” a escrever os resumos em inglês dos artigos de C&P. Aliás, Beltrão superestimava o nível do meu inglês naquela época...

Outro comentário que Beltrão costumava fazer, com uma expressão marota: “Não tenho paciência com mulher burra”. Acostumara-se mal com a companheira inseparável, a inteligentíssima e azouguenta Zita, que se auto-definia assim: “Ou me adoram ou me abominam”. Beltrão a adorava. Era todo vaidade e paciência para com a esposa que tinha idéias próprias, expressava-as alto e bom som, mas o defendia em seus projetos e realizações e o protegia com desvelo, dos “trique-triques” domésticos e do barulho dos cinco filhos, para que ele pudesse trabalhar, escrever.

MESTRE DA PRÁTICA – Fui sua aluna por três anos, na disciplina Técnica de Jornal, que ele ministrava a partir de sua larga experiência e de uma pasta com anotações de aula datilografadas, as quais foram a base de seu livro A IMPRENSA INFORMATIVA, manual de mais de 400 páginas que até hoje mereceria ser reeditado por seu valor didático. Beltrão era muito desgostoso com o editor desse livro, reclamava dos erros de revisão e da péssima distribuição da tiragem pelo território nacional. Emprestei meu exemplar autografado à A.I.P. para uma nova edição e o livro sumiu. Jamais foi devolvido. Perda irreparável.

O livro “Iniciação à Filosofia do Jornalismo” era lido logo no primeiro ano e quem soubesse levar a sério as dicas bibliográficas ampliava os horizontes. Recomendou-me a leitura de Gog de Papini, como treinamento para redigir crônicas e entrevistas; “Dez Dias que Abalaram o Mundo”, de John Reed, como exemplo magistral de reportagem, e “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, para estimular a imaginação. E a impagável coluna “Bacia de Pilatos”, de Guerra de Holanda, no Diário da Noite, como obra-prima de crônica diária.

Certa vez, passou um exercício, para redigirmos a notícia da morte de Jesus. Todo mundo fracassou, porque “imaginamos” demais. A notícia era para constar apenas que o pregador conhecido como Jesus, natural da cidade de Nazaré, fora crucificado às tantas horas, em tal local, por determinação das autoridades romanas, após julgamento etc. Apenas o que era factualmente possível saber na ocasião do evento.

Luiz Beltrão exigia de seus alunos a prática do bom texto jornalístico e desmentia o preconceito de que não se aprende jornal em sala de aula. Quando fui fazer estágio no Diário de Pernambuco (requisito para a formatura e privilégio só permitido aos alunos do último ano), já sabia como redigir notícias curtas e longas, pela fórmula “3Q + CO + Pq”, na qual Beltrão insistia, como “aide mémoire”; também já fizera uma boa entrevista com a jovem pianista premiada na Polônia, Elyanna Caldas Silveira (Beltrão não admitia desconhecimento do assunto e do entrevistado antes da tarefa); e havia até conseguido o primeiro lugar num concurso de reportagens, com uma matéria feita a partir da orientação recebida em sala de aula.

Um de seus comentários inesquecíveis: “Errar é humano, mas erro de portugês em jornalista não tem perdão”.

Também ficaram em minha memória as formas de iniciar uma reportagem e os Critérios de Identificação da Notícia, que meus colegas de turma e eu decoramos numa certa ordem, para sempre, graças à frase disparatada inventada por Newton Diniz de Andrade para fins de memorização antes de uma prova: “Pompeu Procurou Comer Romã Cozida. Inchou a Pança, Doeu a Pança, Elixir”. A primeira letra de cada palavra desta frase corresponde à primeira letra dos critérios de identificação da notícia: Proximidade, Proeminência Conseqüências, Idade e sexo, Progresso, Drama e comédia, Política Editorial e Exclusividade - rudimentos teóricos que Beltrão nos trazia para que, ao enfrentarmos, “o batente” não ficássemos ouvindo o galo cantar sem saber onde .

PESQUISA DE OPINIÃO – Como aluna de Beltrão, trabalhei na enquete “Que espera você de Dom Helder?”, quando este foi designado arcebispo de Olinda e Recife, já figura controversa, adorado por uns e odiado por outros. Aí, havia notícia e Beltrão nos pôs em campo a caçá-la. Entrevistamos pessoas nas ruas, nos escritórios e os resultados da enquete foram publicados na revista “Comunicação & Problemas” (não me lembro o ano). E o melhor, para os jovens entrevistadores deslumbrados: Beltrão pediu uma audiência a Dom Hélder Câmara, para que fôssemos pessoalmente entregar-lhe os resultados da enquête, tudo devidamente fotografado e reportado pela imprensa local.

Pioneiro da Pesquisa da Comunicação no Brasil, Beltrão teve dois grandes herdeiros acadêmicos, ex-alunos impulsionados por ele: José Marques de Melo, pesquisador de Jornalismo Comparado, autor de vários livros e um esteio da área de Comunicação no Brasil. E Roberto Benjamin, aqui presente, especialista e autor de livros na área da Folkcomunicação que foi a menina dos olhos de Beltrão.

ENTREVISTA COLETIVA – Eu estava entre os alunos escolhidos por Beltrão para ir ao Palácio do Governo, em Recife, devidamente credenciados com crachás difíceis de conseguir, a fim de participar da entrevista coletiva concedida pelo recém designado presidente da República, General Humberto Castelo Branco, pouco depois do golpe militar de 31 de março 1964.

O entrevistado, baixinho, atarracado, severo, na cabeceira de uma longuíssima mesa em solene salão, e nós, candidatos a focas, sentados em volta, ombro a ombro com os jornalistas “de verdade”. Completamente intimidados, anotando, tensos, testemunhas oculares da História, por obra e graça de Luiz Beltrão.

APRENDENDO A COLHER DADOS – Como parte do treinamento, meus contemporâneos e eu, do curso de Jornalismo da Católica, no Recife, fizemos memorável “viagem de serviço” pelo sertão de Pernambuco e Ceará, de avião da FAB, ônibus e trem, “para ver a situação do nordestino”.

Participaram também como convidados/bolsistas, estudantes de Jornalismo de outros Estados, entre eles: Geraldo Queiroz, mais tarde deputado estadual pelo MDB-RN e, mais tarde ainda, reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte; Newton Avelino de Andrade, futuro assessor de Imprensa da SUDENE, hoje professor de comunicação na UFRN; Eleonora Fernandes Rennó (de Belo Horizonte), mais tarde Adida Cultural da Embaixada do Brasil em Quito; e Marly Spitalli de Mendonça, depois professora da Universidade Federal de Minas Gerais.

Essa expedição jornalística que nos levou a Fortaleza, Iguatu e Crato, no Ceará incluiu visita à barragem de Orós, entrevista com o então governador Virgílio Távora e culminou com a nossa participação na romaria do Padre Cícero em Juazeiro do Norte. Guardo até hoje a imagem de milhares de velas acesas, plantadas no chão em frente ao santuário do “Padim Ciço”.

ESTÍMULO AOS ALUNOS – Beltrão conseguiu a criação do Prêmio Moinho Recife, que custeava a anuidade escolar do ano seguinte, na Universidade Católica de Pernambuco, dos alunos que obtivessem a média mais alta ao final do primeiro e segundo ano de Jornalismo. Tenho um recorte de jornal, sentada com minha colega Diva Pessoa de Souza, entre Luiz Beltrão e Elemer Janowitz, diretor-presidente do Moinho Recife, recebendo esse prêmio.

Abriu um concurso de reportagem para os concluintes do curso de Jornalismo. Deu orientação, reviu os textos e entregou-os a uma comissão julgadora (não me recordo quem a compunha). As matérias premiadas com o primeiro, segundo e terceiro lugares foram publicadas no Jornal do Commércio. E foi assim, que tive a minha primeira reportagem em letra de fôrma: “Jornaleiros: sem eles as notícias envelheceriam empilhadas”.

Beltrão empurrou com todas as bênçãos, para fazer curso de especialização no CIESPAL, como bolsistas da UNESCO ou OEA, aqueles de nós em quem ele via potencial de pesquisadores da comunicação. recém-formada em Jornalismo, fui da leva de 1966, a mais jovem integrante da delegação brasileira composta de Joseph Adam Zukauskas, (Porto Alegre), Fernando Semedo (S.Paulo), Marly Spitalli de Mendonça (Minas), Gilvandro Raposo (Brasília) e Eudes Galvão, (RGN). Foi um marco na minha formação científica e intercultural. Só havia um caminho depois desse empurrão do velho mestre: o mestrado e o doutorado, conseguidos em 1972 e 1985, respectivamente. Da Católica de Pernambuco, lembro que foram ao CIESPAL, Zita de Andrade Lima, Roberto Benjamin, Marta de Freitas Barbosa e José Marques de Melo, mas houve vários outros...

Quando se mudou para Brasília, Luiz Beltrão continuou a encorajar-me na minha carreira de jornalista e professora de comunicação. E sempre me enviava um exemplar de seu mais recente livro, com dedicatória afetuosa. Uma das raríssimas pessoas que me chamavam pelo nome completo - “Tereza Lúcia”. Na apresentação do meu livro A Retórica das Multinacionais (Summus, 1987), eu o incluo entre as pessoas que em minha vida profissional e pessoal encorajaram-me a sempre procurar "saber por quê". Foi meu mentor e “padrinho”, não que me haja conseguido emprego, mas apostou em mim e me empurrava para expandir meus limites, sabendo o quanto é fácil mantê-los estreitos no jornalismo de província. Era um entusiasta da pesquisa da comunicação quando ninguém sabia o que era nem pra que lado ia, aqui no Brasil. Conseguiu contagiar vários de seus discípulos com esse seu gosto. Conseguiu ser lembrado por mim com respeito, carinho e gratidão.

 

 

* Tereza Halliday é bacharel em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco, turma de 1965, mestre em Jornalismo Agrícola pela Universidade de Wisconsin (EUA) e doutora em Comunicação Pública (Análise de discurso) pela Universidade de Maryland (EUA). Foi redatora do Diário de Pernambuco, secretária de imprensa do Consulado Geral da França e docente/pesquisadora de Comunicação na Universidade Federal Rural de Pernambuco. Atualmente é artesã de textos. Este fórum é a reprodução do discurso proferido em 8 de agosto 2008, no Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Pernambuco, no seminário em memória do 90º aniversário de nascimento de Luiz Beltrão.