JORNAL INTERCOM![]()
Jornal semanal da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação![]()
Ano 4, nº 105, São Paulo – SP – Brasil
18 de julho de 2008![]()
ISSN 1982-372X![]()
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Registro
Um país em cada cena: ecos do seminário temático Globo/Intercom
Roseane Arcanjo Pinheiro*
As agruras do personagem Agostinho, de A Grande Família, ambientado no subúrbio do Rio de Janeiro; os embates históricos no Rio Grande do Sul em A Casa das Sete Mulheres; episódios da história do Estado do Acre em Amazônia e tantas outras produções da Rede Globo de Televisão tem um mesmo endereço: a Central Globo de Produção, ou melhor, Projac, espaço que abriga 5 mil funcionários da emissora com o objetivo de elaborar produtos midiáticos a partir de elementos da cultura brasileira, da literatura nacional, das tradições locais, que varrem o país de norte a sul. O caldeirão cultural na qual a quarta emissora aberta do mundo se inspira é de uma variedade imensa e o exercício de repensar ou representar um país tão distinto carrega desafios, críticas e elogios.
Como cobrir todo o Brasil, do Oiapoque ao Chuí? A Rede Globo deu seus primeiros passos em 1965 em um cenário de investimentos governamentais em telecomunicações, de abertura ao capital estrangeiro e de censura, capitaneada pelo Ato Institucional n˚5 e a mão de ferro da ditadura militar. As telenovelas foram as primeiras atrações e também os primeiros produtos de exportação para um mercado de 150 países na atualidade. Na televisão e literatura começaram um casamento que não mais se desfez. A novela Gabriela, com Sônia Braga e Armando Bogus, baseada em obra de Jorge Amado, ilustra a caminhada e o matrimônio com o mundo literário. Ou ainda as representações sobre a mudança na vida das mulheres em Malu Mulher, com Regina Duarte. Era tempo também de leituras de produtos de outros países, como a famosa Vila Sésamo, versão de programa infantil educativo norte-americano.
A formação da Rede Globo foi se consolidando com seu time de emissora afiliadas ou filiadas nas décadas de 70 e 80. A programação ainda convivia com muitas produções importadas, como filmes e seriados. A intenção de cativar o público através da construção de uma identidade cultural e suas nuances concretizou-se na década de 90, quando a emissora centralizou todas suas etapas de produção televisiva no tocante aos programas de entretenimento. Nasceu no Rio de Janeiro o Projac, nome relacionado à localização, na região de Jacarepaguá e que ficou apesar da tentativa de batizar como Central Globo de Produção, a CGP. Se economicamente o empreendimento se tornou viável, a produtividade também foi alavancada, tendo a Rede Globo multiplicado o número de programas brasileiros em sua grade de atrações. Da construção das paredes de uma casa fictícia da novela das seis, passando pelo vestido de casamento da personagem principal ao efeito da chuva ou do acidente de trânsito em uma cena de perseguição, todos esses detalhes são pensados, executados e incorporados às produções no Projac, com seus 10 estúdios e seus setores de engenharia, figurinos, efeitos especiais, entre outras engrenagens da chamada “fábrica de sonhos” da Rede Globo, onde cada capítulo de novela pode custar 300 mil dólares, façanha que ajuda a movimentar 6 bilhões de reais anuais em faturamento.
Fronteiras
Fazer 180 capítulos de uma novela ou outros 50 de uma minissérie é um caminho balizado apenas pela busca da audiência? É isso e bem mais. As teorias da comunicação que pregavam o domínio da mensagem sobre um público passivo, a consumir tudo sem pestanejar não se aplica a uma realidade complexa, desigual e diversa como o Brasil. É necessário ir além, buscando alternativas, inovações, novas perspectivas. Como manter 50% dos lares ligados na emissora em vários Estados com economias diferentes, com cenários culturais multifacetados, com realidades sociais opostas? Construir um elo com o telespectador, compartilhar e valorizar seus costumes, histórias, marcos e heróis ou heroínas pode ser um caminho viável, ou seja, fazê-lo contemplar suas feições na tela da TV.
É a busca do verossímil, da realidade próxima, do parecido. Como bem frisa Marcos Schechtman, diretor artístico da Rede Globo, no II Seminário Temático da Rede Globo e Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação-Intercom, ocorrido nos dias 2 e 3 de julho no Rio de Janeiro, que reuniu pesquisadores de comunicação de todo o país a fim de estreitarem o diálogo entre o mundo acadêmico e o mundo do trabalho.
Levar conteúdos para as casas de milhares de brasileiros, disse Schechtman, é unir aspectos culturais, compreensão do universo autoral, ficção e realidade. Levar o sotaque do norte e suas expressões particulares para uma minissérie visando também os públicos do sul e sudeste é tarefa desafiante. Para tecer suas narrativas, a emissora vale-se de pesquisas, consultas a historiadores, ensaístas e escritores. No seis meses de produção, por exemplo de Amazônia, os atores e diretores mergulham nas referências culturais locais para dar fôlego a síntese histórica, com gravações, ensaios, leituras e aulas sobre as particularidades de seus personagens.
As tramas não podem chocar o público, formando na TV aberta por rostos variados – homens, mulheres, crianças, jovens e idosos em várias faixas etárias e níveis de renda. Ao encenar os conflitos familiares, em tom em humorado em A Grande Família, o cuidado com temas delicados marca as reuniões com atores, os diretores e os autores, norteadas pela preocupação em manter aspirações e anseios do cidadão comum no seriado semanal. E transpor o seriado para as telas do cinema gerou inquietações: onde começa a TV e termina o cinema? Em indústrias diferentes, a história de Lineu, Agostinho, Bebel, Marilda e companhia ganha contornos e durações diferentes, mesmo seguindo o fio da meada.
Se a programação é calcada pelo horizonte de uma identidade cultural brasileira, perguntamos quais os referenciais da TV Globo na construção desse ideal? Nesse processo, a emissora ainda esbarra em questões econômicas, ao procurar, por exemplo, novos talentos nas principais capitais do país, ao percorrer o lastro da indústria cultural nas regiões. Ao captar atores e atrizes, o Norte vai até Belém e o Nordeste não passa de Recife e Salvador, em raras ocasiões o mapa é outro e acaba não favorecendo a diversidade, contemplando os locais considerados mais desenvolvidos e excluindo os demais.
A proposta da diversidade escapa ainda na construção de um “sotaque limpo” em seriados e minisséries para que as tramas possam ser melhor incorporadas pelos telespectadores e pelas especificidades do formato TV. O foco no entendimento da história suaviza as diferenças, minimiza as possibilidades de mostrar biotipos, cores e vozes fora do eixo do progresso econômico e da importância política. Como concessão pública, a TV não poderia reforçar abismos, comungar com as desigualdades.
É notório o esforço da construção e reconstrução de uma representação cultural acerca de um país gigantesco através da reunião de profissionais de ponta, recursos financeiros, embasamento cultural e social na TV. Foi através desses elementos que o brasileiro foi construindo a representação de si mesmo, ora negando ou acomodando-se ao quadro. É um processo complexo, sutil e subordinando às reações do telespectador e as escolhas das emissoras de TV.
Novas telas
O futuro da TV aberta, ramo no qual a TV Globo cresceu e consolidou sua imagem, está sendo repensando. Elaborar uma vasta programação para um universo amplo e múltiplo, dividido em horários, pode virar coisa do passado. A concorrência com as TVs por assinaturas e a internet acena para novos mercados: conteúdos para celulares, mídias que se encontram nas páginas da internet e a hipersegmentação.
Outra novidade tecnológica a balançar e delegar novas demandas é a TV digital. Afora as implicações econômicas da escolha do modelo mais apropriado para o país, o que gerou polêmica em setores da sociedade civil e nos poderes públicos, essa nova página da TV brasileira pede mais. Mais esforço profissional, novos investimentos, ângulos diferenciados, debates sobre suas possibilidades. Uma transmissão praticamente perfeita, com um alcance muito maior, vai ficar no lugar dos “fantasmas” e “sombras” da TV analógica implicando no redimensionar todos os padrões e soluções até então adotados. Outra frente é a geração de conteúdos, ampliação de canais e a escolha de seus coordenadores. Quem terá mais abertura? As TVs comerciais, as TVs comunitárias ou as TVs públicas?
A TV Globo prepara-se para esses desafios. Vai mudar a captação e edição de imagens e estará obrigada a estudar cada elemento em cena em sua grade jornalística e de entretenimento. Do sangue artificial, cuja cor aparece rosa na imagem digital, aos detalhes da roupa de um personagem da novela das 8, todos as suas produções passaram por um “crivo” de mais qualidade para atender às necessidades do público e dos anunciantes. Outro foco é a telefonia móvel. Elaborar conteúdo para o celular - através do qual o usuário acessará a internet, acompanhará o telejornal, ouvirá a seleção de músicas e suas respectivas informações quando desejar – é o mercado da vez, resultado da visão estratégica da emissora em atuar em várias mídias.
A reinvenção a todo o momento parece ser a sina da TV brasileira em tempo de concorrência, de pressão pela qualidade da programação e de ascensão sem precedentes da internet, aberta ao público desde 1995, a tecnologia que mais rapidamente se propagou na história das mídias. Esse cenário não é a pregação do fim da TV aberta, acessada sem pagamento pelos usuários. É momento de repensar o papel da televisão brasileira, próxima dos seus 60 anos, a serem completados em 2010.
As indústrias midiáticas perecem, não há dúvida. Atualmente, as gravadoras, antes com contratos vultosos com artistas nacionais e internacionais, criam alternativas para um mercado saturado, com lojas fechando, estrelas vendendo suas próprias músicas pelo ciberespaço sem empresários intermediando. No quesito musical, a TV suplantou o rádio e foi engolida pela web e seu mundo sem regras. Na TV os musicais perderam espaço, hoje as releituras dominam a exemplo do Som Brasil, exibidos em produções com bandas novas e compositores consagrados em encontros marcados por novas sonoridades.
Certamente não é o fim da TV aberta, com sua capacidade de mobilizar centenas de pessoas. Vide as edições do Big Brother Brasil e suas 160 mil inscrições na versão de 2007, via internet, característica de uma época na qual uma mídia case-se com outra. Dramaturgia e entretenimento são pilares resistentes da TV, especialmente da Rede Globo e sua incessante busca por histórias com as quais todos ou parte do público se identifique e se reencontre a cada noite, a cada programa. A TV, como frisou bem o diretor do Núcleo “Musicais e Variedades”, Luiz Gleiser, é o lugar dos grandes encontros, da partilha dos assuntos, do tronco comum para a fala do dia seguinte em casa, com colegas de trabalhos, vizinhos e parentes. O povo brasileiro poderá convive anos e anos com a TV aberta, seus referenciais culturais, suas leituras de mundo e seu poder sagaz de se recriar a cada geração.
* Professora da Universidade Federal do Maranhão – Campus de Imperatriz
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