JORNAL INTERCOM![]()
Jornal semanal da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação![]()
Ano 4, nº 105, São Paulo – SP – Brasil
18 de julho de 2008![]()
ISSN 1982-372X![]()
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Fórum
Uma nova cena jornalística em Pernambuco
Vandeck Santiago
Bom dia aos colegas da mesa e a todos vocês que numa sexta-feira de manhã, em com uma greve de ônibus, tiveram disposição para vir aqui. Quero começar parabenizando a Fundação Joaquim Nabuco pela promoção desse evento, que põe a imprensa no centro do debate e permite o sempre saudável intercâmbio da experiência de profissionais de regiões diferentes. Eu me sinto muito à vontade aqui na Fundação Joaquim Nabuco, primeiro pelo nome que leva a instituição, desse grande reformador social que foi Nabuco, e que no seu período abolicionista foi aquilo que Antonio Candido tão bem definiu como "um agente do possível mais avançado", e segundo porque aqui praticamente iniciei minha carreira profissional, como estagiário, em mil-novecentos-e-antigamente.
Eu venho a essa mesa lançar uma tese, que venho elaborando desde o final de 2006, e que só lanço agora porque esperei que ela amadurecesse e se consolidasse. Não tenho dúvidas de que, da mesma forma que tivemos uma cena musical, com o manguebeat, da mesma forma que temos uma cena cinematográfica, com diretores daqui produzindo filmes para o mercado nacional, dessa mesma forma nós temos hoje algo que, para utilizar expressão de Tobias Barreto, me parece de uma clareza solar: uma cena jornalística em Pernambuco.
Eis a tese: Temos hoje uma cena jornalística em Pernambuco.
O que é que eu quero dizer com isso: que nós temos uma produção específica, com características específicas, que representa um avanço em relação ao que se fez até agora e que é dotada de qualidade nacional. Nunca antes na história do jornalismo pernambucano, e nordestino, se produziu tanta reportagem especial e se ganhou tantos prêmios quanto agora. Nós estamos - detalho isso mais adiante - revalorizando a reportagem, fazendo um jornalismo ambicioso e ousado, e tudo isso com um olhar que é regional mas não provinciano.
A cena jornalística pernambucana concentra-se nas reportagens especiais que o Diario de Pernambuco e o Jornal do Commercio têm publicado sistematicamente, e que se constituem numa tendência exatamente oposta ao que é feito pela chamada grande imprensa. Enquanto nas grandes publicações nós temos a prevalência hegemônica da prática declaratória, aqui nós estamos fazendo grandes reportagens, com apuração que dura semanas ou meses e que são publicadas em cadernos especiais ou séries.
Estas reportagens especiais estão há pelo menos quatro anos - mais à frente explicarei porque uso essa data como parâmetro - conquistando os principais prêmios jornalísticos nacionais. É o padrão dessas reportagens, a dimensão, a profundidade e o investimento de que elas são dotadas nos permite dizer que o jornalismo que estamos fazendo aqui - nessas séries e cadernos - é um dos mais ambiciosos e ousados do Nordeste.
Faço esse raciocínio aproveitando a deixa de Luís Weis, um dos mais experientes jornalistas brasileiros, com passagens pela Istoé, VEJA e Realidade, ganhador do Prêmio Esso de Jornalismo Científico e que hoje escreve para o site Observatório da Imprensa e jornal Estado de São Paulo. Diz ele, no artigo "Globo colhe o que plantou", veiculado no Observatório em 10 de outubro do ano passado.
"Já há algum tempo O Globo [ele está-se referindo ao jornal] deu de investir em séries de matérias (…) O conjunto da obra já credencia o jornal como o mais ambicioso, talvez, da imprensa nacional em dar ao leitor o mais próximo daquilo que nas redações se apelidou 'tudo sobre' - abordagens abrangentes de assuntos de evidente interesse público".
Pois bem, esta prática de séries de matérias que o Luís elogia do Globo - abramos um parênteses aqui para ressalvar que dos grandes jornais, os dois que mais têm investido em reportagens são O Globo e o Correio Braziliense - é exatamente a mesma prática que o Diario e o Commercio têm adotado. Não há dúvidas desse jornalismo ambicioso do Globo, da mesma forma que não paira dúvidas sobre o jornalismo ambicioso que estamos fazendo em Pernambuco.
A diferença é de repercussão: como é natural, a produção de publicações regionais fica restrita ao conhecimento regional, praticamente não reverbera fora desses limites, e por isso não é conhecida. É assim em todo o mundo. O que sai em Chihuahua não reverbera em Buenos Aires assim como o que é publicado no Kentucky não ecoa em Washington, a menos que ocorram fatos extraordinários em Chihuahua ou no Kentucky.
A de sermos autores de uma produção regional, que não extrapola o limite do regional, acaba funcionando como uma névoa que impede que mesmo na própria região veja-se e reconheça-se que o jornalismo produzido ali atingiu um nível mais elevado e ganhou proporções nacionais. É o que acontece em Pernambuco. E essa minha palestra é uma espécie de grito em favor do reconhecimento da qualidade e da importância dessas reportagens que estamos fazendo, em favor do reconhecimento de que Pernambuco tem hoje uma cena jornalística.
Um dos critérios da existência da cena jornalística pernambucana é a conquista dos prêmios nacionais de jornalismo de que já falei antes. Nos últimos quatro anos, se você junta o Diario de Pernambuco e Jornal do Commercio, e conta apenas os prêmios regionais e nacionais, você tem mais de 50 premiações. São conquistas obtidas em disputas com os grandes veículos, com jurados que não são daqui, que não têm ligação com as empresas daqui, que na maioria dos casos não acompanham o cotidiano daqui e que, portanto, não são de nenhuma forma influenciados pelos acontecimentos daqui.
E - acrescente-se - com reportagens que não tratam de escândalos políticos e financeiros nem são baseadas em dossiês e grampos gestados na briga política.
Citemos outra jornalista experiente e de talento conhecido, Suely Caldas, diretora da sucursal do Estadão no Rio, que na obra Jornalismo Econômico fala dos mais cobiçados prêmios jornalísticos do país, o Esso e o Embratel, e afirma que a conquista de um deles é "a consagração da carreira do repórter". A própria Suely Caldas ganhou dois prêmios Esso, fato que consta de sua biografia no livro citado.
Pois bem, desde 2004 o Diario vem anualmente participando da final do Esso, em duas ocasiões disputando duas categorias na mesma edição. Ganhamos em 2004, a categoria regional, com uma reportagem de minha autoria, e em 2006 a categoria de Jornalismo Científico - aquela mesma que consta da biografia do Luís Weis -, com uma série da repórter Silvia Bessa. Ano passado estivemos na final de duas categorias nacionais: novamente a de Jornalismo Científico e a de Criação Gráfica.
Com desculpas pelo cabotinismo, esse locutor que vos fala ganhou por duas vezes consecutivas, em 2005 e 2006, o prêmio Embratel de Jornalismo Cultural. Ou seja, por duas vezes o jurado desse prêmio - que inclui jornalistas do nível de Zuenir Ventura e integrantes da Academia Brasileira de Letras, como Arnaldo Niskier e Cícero Sandroni - considerou uma reportagem do Diario foi a melhor reportagem cultura publicada no país.
Mais um exemplo: em 2006 a reportagem "As veias abertas do Recife", dos jornalistas Sérgio Miguel, Paulo Goethe, Fred Figueirôa e André Duarte, publicada no Diario, conquistou o Grande Prêmio, a categoria absoluta, do Prêmio Caixa, que tem centenas de concorrentes nacionais. No ano seguinte a repórter Ciara Carvalho, do Commercio, ganhou o mesmo prêmio, com reportagem sobre migração e trabalho escravo. Se vocês me permitem uma analogia com o futebol, imaginemos que depois de o Sport ganhar a Copa do Brasil, este ano, em 2009 o Santa Cruz - esse é um caso difícil, mas, para efeito de argumentação, admitamos a hipótese… - fosse o vencedor da mesma Copa. Ou o Náutico. O que iríamos pensar, todos: 'Caramba, tem alguma coisa acontecendo no futebol pernambucano'. Agora me permitam uma analogia com o cinema. Imagemos que os diretores daqui ganhassem os prêmios dos festivais de Gramado, de Brasília, de São Paulo - o que diríamos: 'Tem alguma coisa acontecendo no cinema pernambucano'.
E é exatamente isso que está acontecendo, no cenário jornalístico local.
A participação nos concursos nacionais traz outras vantagens, além das premiações: ao mesmo tempo em que dá valorização aos trabalhos que saem vitoriosos, também eleva o padrão de exigência, obrigando as empresas a investirem mais e a terem profissionais de qualidade à frente das reportagens. Para concorrer em um prêmio nacional, é preciso estar com um padrão de nível nacional. É como um time que sai do campeonato estadual para disputar o nacional: o adversário não é mais uma equipe do interior, é o Flamengo, o Coríntians, o São Paulo, e aí para enfrentar essas equipes você precisa de reforços, de treinamentos, de investimentos. Não digo todas, mas uma parte considerável das reportagens publicadas em Pernambuco estão no nível nacional. E os seus autores são profissionais reconhecidos na redação, que têm a qualidade do trabalho comprovado, e que por isso recebem os melhores salários.
O reconhecimento dessa cena - e eu espero que a partir de agora pelo menos nós possamos ao menos discuti-la - é dificultado internamente porque em todo o país um veículo não fala do outro. É uma prática nacional. A Folha não fala das conquistas do Estadão, da mesma forma que o Commercio não fala das conquistas do Diario, e vice-versa. Mas se em vez de autores de reportagens nós fôssemos, digamos, lutadores de judô, nadadores, ou maratonistas, e os dois jornais estivessem divulgando nossas conquistas, a essa altura nós há muito tempo estaríamos aqui falando da ascensão espantosa do judô pernambucano ou do surgimentos de novos valores na natação estadual…
Os prêmios são um critério, importante porque resultado da disputa de nossas reportagens com a de outros estados, mas mesmo que não tivéssemos nenhum prêmio, ainda assim poderíamos afirmar que temos aqui uma cena jornalísticas nas reportagens especiais. A tendência que se vê hoje no país é a da ausência quase completa da reportagem. Pegue a Folha de S. Paulo, pegue o Estado de São Paulo, pegue a Veja, pegue a Época - e aí vocês verão como é rara, praticamente inexistente a grande reportagem - aquela reportagem de fôlego, que exige apuração longa, que requer muito espaço para publicação.
E nos moldes do que estamos fazendo aqui, aí é que não cabe mesmo comparação. Com repórteres ficando em dedicação exclusiva, com apuração longa e viagens, com espaço amplo para publicação. Dou o exemplo do Diario: de janeiro até agora nós temos publicado praticamente uma grande reportagem por mês, em série ou caderno especial. E reportagem é o tipo de material caro. Você tem despesas de viagens, hospedagem, você tem a implicação da retirada de pelo menos um repórter e um fotógrafo da cobertura do dia-a-dia --- não é à toa que a reportagem é tão ausente das páginas da grande imprensa. Só a idéia de você colocar um profissional dedicado exclusivamente a uma só reportagem, durante semanas, é o tipo de coisa por si só suficiente para acelerar o batimento cardíaco dos chamados gestores das empresas.
O resultado, como diz o professor e jornalista Eduardo Belo, na obra Livro Reportagem, é o seguinte:
"Hoje a reportagem só encontra abrigo em poucos veículos, em determinados sites e nos livros".
A deixa de Eduardo Belo, que é mencionado na divulgação do seu livro também como "um premiado jornalista", nos permite afirma outro ponto diferenciador da nossa cobertura: nós estamos fazendo em Pernambuco livro-reportagem em jornal. Se tivéssemos um mercado editorial forte, muitas das reportagens que saem aqui nos jornais sairiam primeiro em livro. O tempo de apuração, o volume de informações colhidas, o aprofundamento da abordagem, tudo isso - que temos em algumas reportagens daqui - características de livro. Mais um exemplo local: em 30 de agosto de 2006 o Diario publicou o caderno especial "O plano de Kennedy para o Nordeste", material surgido a partir de um documento que localizei na Biblioteca Truman, no Missouri, Estados Unidos. Foi publicado em 16 páginas, sem um anúncio. E para fazê-lo eu dispus de cinco meses de dedicação exclusiva. Vou repetir para que ninguém pense que houve erro: 16 páginas, sem anúncio, e cinco meses de trabalho. Esse é o tipo de característica que você só encontra na revista Realidade, lá nos anos 60.
Costumo dizer que a produção das especiais nos libertou também daquilo que poderia ser chamado de "Complexo da Pitomba", que seria o reflexo de uma suposto pendor provinciano da imprensa local. Percebia-se assim: imagine-se que o mundo vai acabar e que cada publicação trará uma manchete típica do posicionamento do veículo. A VEJA talvez saísse assim: 'Lula erra, e mundo acaba'. Na Folha, '99,99% dos cientistas dizem que mundo acaba hoje'. No Globo, 'Adeus, César Maia'. No Estadão, 'Mundo acaba sem ouvir nossos apelos'. E qual seria, nesse cenário de antigamente, a manchete da imprensa pernambucana? "Começa hoje a Festa da Pitomba".
Temos aí uma forma bem-humorada de mostrar a face caricata do provincianismo. Mas, diante da cena que existe hoje em Pernambuco, creio que a manchete seria diferente. Seria assim: "Mundo acaba hoje, mas Nordeste vai resistir". Ou seja: um enunciado que linka a região sem perder a percepção do local, que registra uma característica histórica de resistência da região e a precisão de dizermos "vai", que pressupõe uma apuração mais aprofundada, e não "pode", que é a muleta do jornalismo perfunctório.
Merece destaque mais um ponto da nossa cobertura, que citei levemente alguns parágrafos antes. Nenhuma dessas reportagens é fruto de dossiês preparados por adversários, nenhuma é sobre escândalos financeiros ou políticos - esse é o terreno em que se concentra praticamente todo o empenho da imprensa nacional. É ótimo que essas reportagens sejam feitas, mas quem acha que jornalismo é só isso está de costas para o país. Além dos escândalos, das brigas políticas - muitas vezes artificiais -, existe a vida correndo para dezenas de milhões de pessoas. Além dos escândalos nós temos uma agenda do cidadão, dos fatos com que lidam diariamente milhões de brasileiros - e é essa agenda que compõe o núcleo de nossa cobertura.
Quando eu digo que esta cena concentra-se nas reportagens especiais é porque esta forma de jornalismo dispõe de condições que não estão ao alcance da cobertura do dia-a-dia. A reportagem especial tem autonomia, tem um plano de vôo que a faz descolar-se do resto da cobertura. Tem mais liberdade, tem mais espaço para ousadia, pode checar e rechecar as informações, um território livre pela frente.
Dentro do cenário do jornalismo nacional, qual a contribuição dessa cena pernambucana?
1. Em primeiro lugar, temos diante de nós um espaço enorme que foi deixado pela grande imprensa. Os grandes veículos hoje estão com a cobertura concentrada exclusivamente no eixo Rio-São Paulo e Brasília. Nas demais capitais, quando muito têm um correspondente. Esse espaço tem sido ocupado pela imprensa local, e há muito chão a ser tomado. Chegamos a tal situação por injunções da tendência mundial de concentração de custos das empresas (não só jornalísticas) e pela crise econômica do país. Nós tivemos, nos anos 60, como impulsionadores da reportagem, a revista Realidade e o Jornal da Tarde, este focado em São Paulo. Em seguida veio o golpe militar, com as conseqüências sabidas. Depois, a redemocratização, as crises econômicas e a estabilização monetária. De 1994 a 2004, o auge da crise sobre os jornais. Em 2001, o estouro da chama bolha da internet. Só crise. Colaborando com o cenário, impôs-se um modelo que tinha como inspiração o USA Today, com uma feição gráfica de textos curtos, fotos grandes e gráficos. O fruto gerado desse ovo da serpente: a grande reportagem foi paulatinamente desaparecendo das páginas da imprensa.
(Um parênteses: o fim das sucursais dos grandes veículos nas capitais teve rebatimento nas origens da cena pernambucana. Muitos repórteres que, no sistema anterior, em que os melhores acabavam indo trabalhar em sucursal, fazem carreira na própria imprensa local. É uma mão-de-obra qualificada e que está à frente de algumas das reportagens especiais. Temos ainda, influenciando a imprensa local, o legado que foi deixado por grandes repórteres que passaram pelas sucursais do Recife, como Carlos Garcia, Divane Carvalho, Evaldo Costa, Geneton Moraes Neto, Homero Fonseca, Ricardo Carvalho, Ricardo Leitão, Ronildo Maia Leita, Terezinha Nunes, Xico Sá e outros).
2. Sabemos nós que os jornais debatem-se hoje sobre que futuro terão na Era da informação instantânea e massificada. O caminho que muitos já adotaram e continuam adotando é a das fotos grandes, textos curtos e a espetacularização da notícia. No meio disso tudo, um caminhão de aspas, apuração ligeira e aquela matéria tradicional em que não precisa nem levantar-se da cadeira: Um fulano telefona, falando mal de sicrano; o repórter anota e liga pra sicrano, que rebate as acusações, e o repórter faz a matéria com os dois lados e o jornal dá-se por satisfeito. É a praga do jornalismo declaratório - um jornalismo estúpido, nocivo e que rebaixa o nível das publicações.
Vejamos o que diz Matias Molina, no recém-lançado Os melhores jornais do mundo:
"há um consenso entre os observadores do mundo da comunicação de que o futuro dos jornais depende em parte da qualidade de informação que conseguirem colocar à disposição do leitor".
Qualidade - essa é a palavra-chave. Já faz muito tempo que os jornais perderam o chamado monopólio da informação. Já havia o rádio e a televisão e agora temos ainda a internet. É um cenário que empurra os jornais para a produção de informação de qualidade. Talvez no futuro nós tenhamos até jornais com menos páginas e mais caros, porém com uma informação de mais qualidade. Ou jornais que em sua versão impressa só circulem três dias por semana.Os tempos são de muita concorrência, não temos mais aquela figura que comprava jornais todos os dias, hoje a informação está disponível em muitos meios e para você convencer alguém a tirar R$ 1,50 para comprar um jornal precisa oferecer algo diferenciado para ele. Nesses tempos que vêm chegando o desafio do jornal é tornar-se indispensável, e eu - com o perdão pela pretensão - não vejo outro caminho para isso a não ser adotar o jornalismo de qualidade.
E o que são as reportagens especiais? Exatamente um dos instrumentos de qualidade que a imprensa pode lançar mão. Um dos mais importantes, porque com exceção do livro, nenhum outro formato permite ter o volume de informação estruturada de uma grande reportagem, a contextualização, o detalhamento, o choque de posições, a experimentação, a ousadia, a quebra de métodos rotineiros. Eu gosto muito de documentários, há quem ache que os documentários são também uma expressão dessa mesma dimensão. Não concordo. Eu vi os documentários sobre Vinícius e Celso Furtado, dois trabalhos audiovisuais de grande qualidade, mas se você fosse pegar o que está nesses documentários e fazer uma reportagem, daria no máximo duas, três páginas. Considere-se, para efeito de comparação, que nossos cadernos especiais têm entre 12 e 16 páginas. Não estou dizendo que quantidade é qualidade, mas fazendo a comparação do volume de informações, para mostrar como a plataforma impressa ainda tem vantagens sobre o audiovisual.
Acrescente-se que os jornais são o veículo mais adequado para a análise e a reflexão. A espetacularização não é o tipo de coisa que combine com os jornais. Você tem - no mundo, mas principalmente no Brasil - uma legião de pessoas entrando na universidade ou fazendo cursos de pós-graduação. Essas pessoas precisam de informação de qualidade, para os seus cursos e sua atuação profissional. São o público que pode ter no jornal a satisfação de suas necessidades.
Para encerrar, destaco as características da cobertura do DIARIO nessa cena jornalística. E aproveito para dizer porque estou identificando o ano de 2004 como parâmetro de ponto de partida desse movimento. Foi a partir daí que o Diario começou a publicar sistematicamente cadernos especiais. O Commercio já fazia reportagens especiais, e ganhava prêmios, mas não na dimensão alcançada pela produção dos dois jornais.
Novamente pedindo desculpas pelo cabotinismo, mas fazendo referência a um fato por considerá-lo de justiça histórica, eu creio que o caderno especial "Francisco Julião, As Ligas e o Golpe Militar de 1964" foi um impulsionador dessa tendência. Ele ganhou o prêmio Esso regional e o prêmio Cristina Tavares, local, e depois foi lançado em livro. Teve um impacto muito forte no Diario e foi uma espécie de abre-portas para a produção que temos hoje. Como eu já pedi desculpas pelo cabotinismo, posso afirmar que acredito que ele e o seu modelo teve influência no jornalismo pernambucano como um todo.
Algumas características dele permeiam a cobertura que se seguiu nas reportagens especiais do Diario:
1. O caráter autoral, ou seja, não era uma obra coletiva, de 10 repórteres, mas de um apenas, o que permite a compreensão de todo o assunto, a interligação dos fatos e uma visão do conjunto;
2. a preocupação em trazer sempre algo novo para a reportagem: pode ser a revelação de um fato, a descoberta de um documento, uma abordagem inovadora, técnicas ainda não tentadas. Tudo isso com o objetivo de não oferecer o chamado "mais do mesmo";
3. uma pesquisa profunda, minuciosa, porque a base de toda reportagem, seja ela documental ou de temas contemporâneos, é a pesquisa;
4. O engajamento social - não tô falando de engajamento político, ou ideológico, mas social, naquela linha de que já falava o nosso Joaquim Nabuco e de que fala Antonio Cândido. De 2004 até hoje, em todas as reportagens especiais tem um engajamento social. Eu estava aqui na erudita conferência de Mauro Santayana, segunda-feira, e uma das coisas que ele disse se enquadra nesse item: por uma série de razões, está cada vez mais rara na cobertura jornalística a solidariedade com os pobres. O engajamento social é isso: solidariedade com os pobres;
5. reunir a pesquisa, a apuração de campo e a entrevista dos principais especialistas no assunto, independente de onde eles estejam, no Japão, na Alemanha, nos Estados Unidos, no Rio de Janeiro ou em Angicos, Sertão do Rio Grande do Norte. Precisamos utilizar a globalização a nosso favor. A prática comum é o repórter correr na universidade mais próxima e ouvir o primeiro especialista à mão. Nós procuramos sempre ampliar isso, ouvindo os principais nomes e gente que tenha obra publicada sobre o assunto. Nessa linha eu fiz até entrevista por carta - e com um pernambucano. Foi com o historiador Evaldo Cabral, e saiu no caderno Nabuco, um radical do Império, publicado em 13 de maio de 2005. Eu liguei para o historiador, mas como a entrevista era mais complexa ele disse que não era possível falar por telefone. Eu me propus a ir até lá, ele mora no Rio de Janeiro, e fazer a entrevista pessoalmente, ele disse que não tinha tempo. Aí eu disse que mandaria as perguntas por e-mail. "Eu não tenho e-mail", ele respondeu. "Então eu mando as perguntas pelo correio" - foi a única alternativa que me restou. Funcionou. Ele me deu o endereço, enviei a carta, pelo Sedex, ele respondeu mandando a carta também pelo Sedex e o resumo dessa ciranda é que eu devo ser o único jornalista do mundo que na Era da Internet fez uma entrevista por carta;
6. amplitude geográfica:. A prática comum é limitar a cobertura à cidade ou no máximo ao estado onde está o fato abordado. É mais econômico e fácil de fazer. Nós radicalizamos nesses ponto: nossa visão é a nordestina. Se tem um fenômeno, procuramos ver se ele tem alcance nordestino. Se tiver, vamos fazer a reportagem em toda a região. Um exemplo: a série Nordeste Conectado, de Silvia Bessa, publicada de 20 a 25 de agosto de 2006, e que ganhou o prêmio Embratel e o Prêmio Esso de Jornalismo Científico. A matéria tratava do fenômeno das lan houses no interior. Partiu da verificação do fato na Zona da Mata. Constatou que o fenômeno era não estadual, mas regional - e a reportagem acabou abrangendo todo o Nordeste;
7. em nossas especiais utilizamos todos os recursos do jornalismo investigativo. Convencionou-se pensar que jornalismo investigativo é aquele que trata de escândalos. Engano. É na verdade o jornalismo que cuja apuração ultrapassa os limites da cobertura convencional, que vai às ruas, que pesquisa e que traz à tona algo que não estava à vista de todos - ou estava, mas sem ser percebido;
8. o Diario investiu mais na forma de cadernos especiais, ou seja, que traz toda a reportagem de uma vez só. É um formato que me agrada muito, por vários motivos, um deles - dos mais importantes - é que você entrega ao leitor, numa edição só, todo o material. É o formato mais lucrativo para o leitor e mais adequado a ser mantido para consultas posteriores. Isso sem que o leitor tenha de pagar mais pela edição;
9. Nossos trabalhos nunca utilizam o off como ponto de chegada, e sim de partida. Claro que existem casos em que o off é inevitável, mas quando em matérias de comportamento, de revelação de tendências, de questões que fazem parte do cotidiano das pessoas, você precisa usar o off, aí o repórter e a matéria já saem perdendo;
Esta cena jornalística não é um produto acabado. Ainda tem muitos frutos a dar a todos nós. Ela tem vigor, porque reúne repórteres jovens e coroas de cabelo branco. Eu tenho uns 30 anos de jornalismo nas costas. Graças a Deus mantenho aquela sensação de repórter, de sentir o frio na espinha quando estou diante de uma grande matéria.
Sinto-me orgulhoso de participar dessa cena. E estou imensamente feliz de ter tido um espaço tão privilegiado quanto o é um evento na Fundação Joaquim Nabuco para poder divulgar minhas idéias. Muito obrigado.
* Vandeck Santiago é repórter especial do Diario de Pernambuco. Tem dois livros publicados, sobre Francisco Julião e as Ligas Camponesas, e é detentor de oito prêmios jornalísticos, entre eles um Esso e dois Embratel.
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