JORNAL INTERCOM![]()
Jornal semanal da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação![]()
Ano 3, nº 81, São Paulo – SP – Brasil
30 de novembro de 2007![]()
ISSN 1982-372X![]()
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Homenagem
Manoel Carlos Chaparro: 50 anos de jornalismo
Manoel Carlos Chaparro iniciou sua carreira sua carreira jornalística em Lisboa, em 1957. Emigrou para o Brasil em 1961, trabalhando como repórter, editor e/ou articulista em vários jornais e revistas de grande circulação. Com reportagens individuais, por quatro vezes teve trabalhos premiados no Prêmio Esso de Jornalismo.
Entre 1969 e 1989, em São Paulo, dedicou-se à comunicação empresarial e institucional, que ajudou a desenvolver no Brasil, como mercado de trabalho e especialização jornalística.
Na vertente acadêmica, formou-se em Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo, em 1982. Na mesma Escola, concluiu o mestrado em 1987, o doutorado, em 1993, e a livre-docência, em 1997. Tornou-se professor do Curso de Jornalismo em 1984. Aposentou-se, em 2001, como Professor Associado (Livre Docente). Tem quatro livros publicados: Pragmática do Jornalismo, São Paulo, Summus, 1994, atualmente em sua terceira edição; Sotaques d’aquém e d’além-mar - Percursos e gêneros do jornalismo português e brasileiro, Santarém, Portugal, Jortejo, 1998; Linguagem dos Conflitos, Coimbra, Minerva Coimbra, 2001; e Padre Romano, profeta da libertação operária (São Paulo, Hucitec, 2006), uma biografia em estilo de livro-reportagem. Em 2004, foi co-autor (com Norma Alcântara e Wilson Martins) de Imprensa na berlinda, editado pela Celebris, São Paulo.
Entre 1989 e 1991 foi presidente da Intercom - Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, principal sociedade científica brasileira na área da Comunicação Social.
Homenageando o ex-presidente e atual membro do nosso Conselho Curador, o Jornal da Intercom reproduz suas idéias sobre Jornalismo, divulgadas no “Blog do Prefessor Chaparro”, aproveitando “ o fiel e bom texto feito em forma de entrevista pela jornalista Sheila Torres para a Agência Sergipe de Notícias, e publicada ontem pelo Jornal do Dia .”
Sobre os desafios que o jornalista enfrenta dentro de uma assessoria de imprensa de um órgão governamental:
“Em primeiro lugar, temos de pensar que o jornalista é um socializador informações e conhecimento. Portanto, um socializador de conteúdos. Por isso, tem de uma relação competente com as áreas onde esses conteúdos são gerados. Nas redações não brotam conteúdos; eles brotam do mundo. E os governos são grandes produtores de conteúdos, talvez os mais importantes. De outro lado, o jornalista precisa captar as coisas, entendê-las. Escrevemos artigos, reportagens, textos para que os conteúdos de interesse público sejam socializados. Mas socializados não na perspectiva de quem os gerou, mas em função de quem irá recebê-los. Isso exige habilidades e também certos padrões de comportamento. Não podemos utilizar as habilidades da profissão para enganar os outros. E as habilidades da profissão nos tornam capazes de enganar. Há, portanto, uma dupla face nesse processo. É preciso captar e entender os conteúdos, os discurso talvez especializados dos outros, e isso exige competência, preparo intelectual. E precisamos transformar esses conteúdos em bem público, socializando-os. No trabalho de assessor, o jornalista trabalha na ponta inicial do processo de socialização, no local onde os conteúdos são gerados. A responsabilidade jornalística é a mesmo, só que, ao invés de publicar a sua matéria no jornal, o assessor atua nos mecanismos que levaram os conteúdos trabalhados aos circuitos jornalísticos de mediação e difusão. Em qualquer das posições exige-se competência técnica, mas também um compromisso ético. Um compromisso com as razões da sociedade. Se aquilo que você faz é feito para servir ao aperfeiçoamento da sociedade, então, deve-se ater aos valores dos ideários nos quais a sociedade existe e se manifesta. No mínimo, é preciso respeitar a linguagem jornalística. Quando a gente diz que o jornalista não pode enganar os outros, de alguma forma estou falando da preservação da linguagem.”
Sobre as diferenças de tratamento da notícia, na assessoria e nas redações:
“As dificuldades que o assessor tem no seu ambiente de trabalho, o jornalista da redação também as tem. São de outro tipo, mas existem, como a necessidade de vender jornal, as pressões do dono, do editor, do anunciante. Mas tem de ser comum a convicção de que não existe notícia falsa. Ou ela é verdadeira ou não é notícia. O profissional precisa ser rigoroso em qualquer lugar em que trabalhe. Quando atua na fonte, o jornalista assessor de comunicação é de certa forma a interface competente da sua empresa ou instituição para se relacionar com a sociedade. Então, ele não pode só olhar para dentro da organização onde trabalha. Deve olhar para fora e se relacionar profissionalmente com as redações, que são interfaces da sociedade. É tolice pensar que o assessor melhora a empresa se fraudar a informação. Hoje, não há como enganar ninguém, as coisas se descobrem. O q eu amplia a exigência de coerência entre aquilo que se diz e aquilo que se faz, entre aquilo que se anuncia e aquilo que de vende. E para que assim seja, o jornalista deve ser um educador dentro das empresas e das instituições.”
Sobre o dogma e o uso da pirâmide invertida:
“A pirâmide é um método que todos usamos para nos comunicarmos uns com os outros. É um método velho e eficaz de interlocução. Quando falamos com os filhos, por exemplo, usamos a pirâmide invertida ou a normal, a depender da situação. Ela representa a noção de que existem coisas mais importantes e colisas menos importantes. Não há como contar uma história se o narrador não sabe decidir o que é mais importante. E essa escolha gera os critérios para organizar os relatos. É a lógica da relevância. A pirâmide normal põe o importante no final do relato, e a invertida, no começo. O que é realmente fundamental é que haja algo de maior relevância, não importando onde esteja. Saber pensar é saber fazer essa distinção entre o mais importante e o secundário e estabelecer relação entre as duas coisas. Não há história que não seja contada assim.”
Sobre as modificações produzidas pelo advento da Internet, com o surgimento de fenômenos como os blogs:
“O jornalismo se modifica na mesma medida e no mesmo ritmo em que o mundo se modifica. O jornalismo faz parte do mundo e não o mundo do jornalismo. O mundo gera informações e solicita informações, cada vez mais. Gera idéias e solicita idéias. E a notícia se tornou a maneira mais eficaz de agir no mundo e sobre o mundo. Se mudam as razões e as estratégias das ações humanas na política, na economia, na cultura, nos espaços sociais, muda também o jornalismo. Mudam, ainda, os aproveitamentos d as tecnologias, para que as notícias cheguem mais longe e mais rapidamente aos seus destinos. Hoje, há a possibilidade de noticiar as coisas quando elas ,m as teorias sobre essa poderosa mediação jornalística. Se hoje qualquer um pode espalhar ao mundo as suas notícias e acessar as notícias dos outros diretamente na fonte, então o jornalista tem que repensar o seu papel. Acontece que quanto mais rico é o nível de informação das populações, maior e crescente se torna também a demanda de explicações e debates. E aí há um espaço novo para o jornalismo. A reportagem nasceu assim, no final do século XIX.”
Sobre a construção da independência no jornalismo:
“É muito difícil, mas tem que se lutar por isso. O jornalismo sem independência jamais será um jornalismo veraz. O dever da veracidade tem, implícito, o pressuposto da independência. A independência é a mais difícil virtude obrigatória do jornalismo, não só no jornalismo, mas também na vida. O que cada um de nós quer é ser independente. E só somos verdadeiramente independentes quando podemos usar nossa própria razão de ser para decidir a nossa vida. No oposto, somos dependentes quando nos submetemos ou temos de aceitar a razão de ser de outros. Esse é o jogo do poder. A vida e as relações humanas giram em torno disso. Então, a luta pela independência deve ser constante. No jornalismo, por ser tão difícil quanto essencial, a luta pela independência precisa de ajudas, do auxílio da lei, da cultura, da sociedade. Precisa haver mecanismos e costumes que assegurem a independência das redações. No jornalismo europeu, por exemplo, existem as comissões de redação, os estatutos editoriais, a cláusula de consciência, que estabelecem normas, fronteiras nas relações de poder entre os donos de jornais e os jornalistas. Em outros modelos, como nos Estados Unidos, com a sua histórica Primeira Emenda, existe o respeito democrático à liberdade de imprensa, ao direito à informação e à proteção do direito ao sigilo da fonte. No Brasil falta-nos quase tudo isso. Não temos mecanismos de proteção ao jornalismo. O que temos, até nos meios sindicais, é uma pobre noção de ética. Em resumo, a sociedade tem que construir mecanismos que assegurem a independência jornalística, porque isso lhe interessa. Está na hora de pensar nisso.”
Sobre a evolução na pesquisa acadêmica na área do jornalismo distanciamento entre teoria e prática:
“A pesquisa no jornalismo já evoluiu bastante, e continua a evoluir, graças ao crescimento e à seriedade dos cursos e programas de pós-graduação. Os estudos de pós graduação trouxeram ao jornalismo o enriquecimento de metodologias e teorias de outras áreas do conhecimento. Mas esse distanciamento entre a academia e a prática profissional é um problema ainda não superado. Já foi pior, mas continua grave. É uma burrice dos dois lados. E uma burrice preconceituosa. Os profissionais acham que a academia produz um saber inútil. Isso não é verdade. O jornalista precisa do saber acadêmico, que pode ser muito importante para a qualificação intelectual da prática profissional. E o inverso também acontece, porque o grande milagre do jornalismo não está nos livros, mas na capacidade de fazer um jornal ou um programa de TV com sucesso, todos os dias. Há um saber importante produzido nas áreas da prática, e a academia o rejeita. Em prejuízo de si própria. Sempre acreditei, e acredito, que a distância entre os dois lados deveria ser encurtada para quase zero.”
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