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JORNAL INTERCOM
Jornal semanal da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação

Ano 3, nº. 79, São Paulo – SP – Brasil 09 de novembro de 2007

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Livro discute comunicação e estratégia de RH

Por João Evangelista Teixeira

A obra reveste-se de características que a distinguem da maioria dos livros dedicados à comunicação empresarial. Traz a visão de dois autores que entrelaçam suas experiências nas áreas de Recursos Humanos e da comunicação. Gutemberg Leite é administrador, empresário, reconhecido por sua longa trajetória em empresas nacionais e multinacionais em recrutamento, seleção, treinamento e desenvolvimento de pessoas, tanto nas linhas de efetivos, temporários, celetista, terceirizados, como de executivos. Sem dúvida, herdou de seu pai, que foi jornalista em Fortaleza, a vontade de expandir seus conhecimentos no campo da informação e o caminho encontrado foi a pós-graduação em Comunicação Empresarial, pela Faculdade Cásper Líbero. Fábio França é profissional experimentado em relações públicas, professor, autor e pesquisador, doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, tendo também, como psicólogo, prestado consultoria na área de Recursos Humanos.

O livro não é, segundo os autores, um tratado sobre a comunicação empresarial, mas uma análise de idéias que compõem as inter-relações da organização com seus colaboradores diretos. A obra é inovadora, apoiada em estudo bibliográfico e em pesquisas, que procuram identificar os elementos que provocam transformações no segmento, influenciando-o de maneira positiva ou negativa. Ao lado de pensadores estrangeiros que abordam as mudanças do mundo do trabalho, como Jeremy Rifkin, William Bridges. Domenico de Masi, Daniel Goleman, são valorizados os autores nacionais, na tentativa de se produzir uma obra que reflita o pensamento dos empresários brasileiros dedicados à gestão de pessoas.

A Comunicação como estratégia de recursos humanos chama a atenção para o fato de que os pioneiros da comunicação empresarial foram os profissionais de Recursos Humanos. Antes da chegada dos atuais comunicadores, com suas soluções midiáticas, nem sempre eficazes, o departamento de RH se dedicava a transmitir informações para os empregados, utilizando uma multiplicidade de instrumentos para atingir seus objetivos: manuais de empregados, programas de integração, festas de confraternização, edição de jornais e boletins internos. Embora desconhecessem as técnicas de produção jornalística, o setor de RH “se comunicava de maneira eficaz porque seu ponto forte era manter contato direto com os empregados e desenvolver a interação de todos dentro da organização”. E a razão desse êxito é que o pessoal de RH conhecia de forma muito mais completa o perfil, as expectativas e as necessidades de seu público. A profissionalização da comunicação empresarial, a criação de setores responsáveis por ela, não conseguiram até hoje elaborar um processo de comunicação plenamente satisfatório, nem alterar o fato de que, em perto de 50% das empresas, a comunicação seja ainda uma atribuição do setor de RH. A ele se deve a criação do padrão básico do Jornal de Empresa, que continuou a ser reproduzido pelos novos comunicadores seguindo por muito tempo a pauta dos hobbies, aniversários de companhia, nascimentos, perfil (as personalidades da empresa), você sabia? o que faz o nosso departamento, passa tempo (cruzadas, piadas) etc.

Do ponto de vista prático, a obra trata com precisão da comunicação dirigida como a mídia mais tradicional e eficaz de transmissão das mensagens empresariais em recursos humanos. Os autores chamam a atenção para a necessidade de se considerar na comunicação empresarial temas pouco estudados como a assertividade, o papel da emoção e as situações de crise dentro do ambiente interno.

Dois capítulos do livro merecem especial consideração dos comunicadores de qualquer área, pois representam grande colaboração ao conhecimento do cenário interno das organizações e explicam como e por que as transformações globais e locais interferem no processo da comunicação. São os capítulos 1 e 7, que estudam o impacto da globalização na comunicação organizacional e o novo cenário da inter-relação empresa-colaboradores. O capítulo 7, em particular, focaliza as mudanças ocorridas dentro das organizações, as novas interpretações dessas mudanças, o surgimento de idéias revolucionárias como a empregabilidade, o novo papel de RH na gestão de pessoas e as deficiências da legislação brasileira no tratamento da força laboral.

A partir do capítulo 8, os autores dedicam-se a investigar se as idéias divulgadas pela mídia influenciam de maneira expressiva, e de que forma, no cenário atual de RH. Três pesquisas – uma quantitativa e duas qualitativas – tendo por objeto a “mídia-revista” foram desenvolvidas com este objetivo, tendo sido selecionadas quatro revistas de grande circulação – três semanias: Veja, IstoÉ, Época e uma quinzenal: Exame -- e quatro revistas especializadas em RH, mensais: Você S/A; Melhor, Vida&Trabalho; RH em Síntese/Gestão Plus; e Treinamento de Desenvolvimento de Pessoas.

A pesquisa qualitativa indagou dos profissionais que trabalham no setor de RH se as matérias divulgadas pelas revistas interferem no comportamento das empresas. Os resultados tornaram evidente que algumas idéias exercem forte influência no setor, como, por exemplo, a empregabilidade (79,69%), a tecnologia (78,12%), a inteligência emocional (73,96%); a necessidade de treinamento de pessoal (72,39%); a necessidade de conhecimento de línguas estrangeiras (72,40%); a influência dos autores que tratam de RH (72,40%); a necessidade de se ter as habilidades adequadas (58,33%) e, finalmente, a busca do empreendedorismo (48,44%).

Aos empresários do setor de RH indagou-se, da mesma forma, qual o nível de influência das idéias divulgadas pela “mídia-revista”, o que traziam em termos de inovação, mudanças, pertinência ao setor, qual a sua importância, e que tipo de contribuição apresentavam. As respostas foram mais reticentes do que as da primeira pesquisa. Há claramente duas posições: os que manifestam cautela em admitir que as idéias divulgadas pela “mídia-revista” tenham influência direta sobre RH, fazem ressalvas sobre a profundidade dos textos, dizem que omitem fatos importantes como a relação capital/trabalho e que, muitas vezes, são frutos de modismos, apresentando fatos conhecidos sob nova roupagem. Outro grupo afirma que as revistas tratam o tema com seriedade e trazem teses e artigos sobre o perfil do novo executivo de RH diante da inovação e da globalização. Admite a importância das contribuições que provocam a reflexão sobre o novo perfil a ser dado ao setor de RH, a necessidade de retenção de talentos, reciclagem profissional e de aquisição de novos conhecimentos. Uma posição comum é a de que a mídia-revista não interfere nas decisões do setor.

Os editores e articulistas dedicados à divulgação de temas sobre Recursos Humanos admitem que têm a intenção de informar, acompanhar o desenvolvimento do setor, as tendências internacionais, dar oportunidade à área de se atualizar e, afinal, declaram que pretendem influenciar as transformações do setor, por vezes, visto como conservador e pouco desenvolvido.

O livro questiona o desempenho da comunicação, a falta de planejamento do processo e defende a necessidade de que profissionais de RH e de Comunicação trabalhem como parceiros, criando um programa unificado de comunicação. As diretrizes desse programa estratégico estão delineadas e detalhadas no Capítulo 9, que descreve o que deve ser o planejamento da comunicação da organização e como deve ser estruturada para ser efetiva e de caráter permanente.

A comunicação com estratégia de recursos humanos é, sem dúvida, uma contribuição de valor inestimável para todos os profissionais, da área da comunicação ou não, que foram encarregados pelas empresas de tornar a sua comunicação ampla e geradora de resultados. É um livro expositivo, crítico, bem-fundamentado em sua proposta e, sobretudo, de visão global, escrito sem preconceito e sem a preocupação de departamentalizar a responsabilidade de quem é quem na gestão da comunicação organizacional. Esse posicionamento reflete bem o que diz o professor Wilson da Costa Bueno no prefácio desta obra: “Este livro é fruto da aproximação necessária e bem-sucedida parceria entre o mercado e a universidade, entre a teoria e a prática”.