JORNAL INTERCOM![]()
Jornal semanal da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação![]()
Ano 3, nº. 78, São Paulo – SP – Brasil
01 de novembro de 2007![]()
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Fórum
O preguiçoso e hipócrita “jornalismo popular”
Carlos Chaparro (*)
O XIS DA QUESTÃO – Na verdade, o jornalismo desses diários nada tem de popular, porque reproduzem, até como cacoete, o modelo elitista dos venerados jornalões de referência. Jamais dão voz ao povo. E não fazem qualquer esforço para encontrar protagonistas fora das esferas do poder. Nem como vítimas ou beneficiários das ações oficiais.
Não tenho apreço pelos jornais que o mercado e a cultura jornalística classificam como “populares”. Isso não significa que os considere dispensáveis. Ao contrário: penso que um jornalismo verdadeiramente popular faz muita falta nesta nossa sociedade em que os poderosos tão bem sabem formular e socializar os próprios discursos. Mas os jornais populares que temos por aí não cumprem, nem minimamente, a vocação que deveriam assumir, de dar voz ao povo.
Raramente compro ou leio alguns desses jornais. Em tempos idos, para fins acadêmicos, comprava de vez em quando o antigo Notícias Populares. Isso, nos tempos em que o jornal chegou aos cem mil exemplares, graças às histórias fantásticas que inventava, a mais retumbante delas a do Bebê Diabo, isso já quando na direção do jornal estava o experiente Ibraim Ramadan. Criada e mantida entre gargalhadas na redação que a inventara, a história do Bebê Diabo virou narrativa das ruas, levada a sério ou na brincadeira por multidões que se divertiam com as manchetes do NP, e nelas até acreditavam ou fingiam acreditar, para esquecer agruras da vida real.
Antes de Ibraim, reinou no jornal o lendário Jean Mellé, que sabia como poucos enganar e divertir os leitores, sob disfarces de jornalismo. Certa vez, também eu fui enganado. A manchete anunciava, como tragédia do dia que ninguém noticiara, a morte de uma irmã da cantora Wanderléia, então no auge da fama. Comprei o jornal, seduzido pelo vigor do “furo”. E quando cheguei à página para a qual a manchete me remetia, descobri a fraude : a irmã de Wanderléia realmente morrera, atropelada, naquela data, mas alguns anos antes. Mellé não se atrapalhava, nem em dias sem assunto sangrento para a manchete...
Vem daí, em parte, a minha reserva aos nossos jornais populares. Mas a razão principal é outra – e desde já aviso que não se trata de preconceito contra o tão execrado sensacionalismo. Quem me lê sabe o que penso sobre o assunto. E não custa resumir.
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Em relação ao sensacionalismo, o que se deve colocar em causa não são as formas e as técnicas de produzir sensações, mas as intencionalidades da sua utilização, que deveriam estar vinculadas aos motivos éticos da atividade jornalística.
O sensacionalismo que escamoteia conteúdos, ou os substitui, é uma pilantragem repugnante. Mas o sensacionalismo que chama a atenção para bons conteúdos ajuda a socializar conhecimentos e a ampliar interações transformadoras. A ele recorrem todos os jornais sérios do mundo quando põem em relevo, diariamente, temas e acontecimentos fervilhantes da atualidade.
Alguns geniais antecessores nossos aperfeiçoaram o jornalismo como linguagem de intervenção social, porque fizeram a revolução das formas sensacionalistas. Cito dois nomes: Joseph Pulitzer e William Hearts, editores rivais que no final do século XIX protagonizaram na América a mais sensacional competição entre dois jornais, Pulitzer à frente do New York World, Hearts comandando o Morning Journal. Chegaram a tiragens de um milhão de exemplares. E foi nessa competição que surgiram e se desenvolveram coisas como a titulação horizontal (as nossas manchetes de hoje), a hierarquia de espaços e títulos, as amplas ilustrações, a habilidade para criar ênfases e dar evidência às relevâncias de cada dia, tornando-as sensacionais.
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O que não suporto no nosso chamado jornalismo popular é o reducionismo do conceito à especulação “mancheteira”. Na verdade, o jornalismo desses diários nada tem de popular, porque reproduzem, até como cacoete, o modelo elitista dos venerados jornalões de referência. Jamais dão voz ao povo. E não fazem qualquer esforço para encontrar protagonistas fora das esferas do poder. Nem como vítimas ou beneficiários das ações oficiais.
Foi o que mais uma vez constatei, dias atrás, na leitura do Diário de S. Paulo, que tem um discurso de marketing assentado na enganação de “ser um jornal popular”. Com raríssimas exceções, o conteúdo da edição resultava de um jornalismo que começa e termia nas fontes oficiais. Tratam o “popular” como uma questão de forma. E socializam o discurso do poder e das fontes oficiais em embalagens popularescas.
Exemplo: a grande notícia do dia era a nova linha de crédito para a casa própria. Mas o que a matéria fazia era a reprodução fiel das informações e dos argumentos fornecida pelo Conselho Curador do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).
A matéria teve tratamento radicalmente econômico. Baseada em cifrões, passou longe do qualquer significado social que a questão habitacional obrigatoriamente deveria ter, num jornal que se diz popular. Assim, os principais interessados no projeto, os cidadãos de classe média que lutam pela realização do sonho da casa própria, sequer tiveram a oportunidade de fazer perguntas.
E esse é o padrão preguiçoso e hipócrita do nosso jornalismo popular.
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