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JORNAL INTERCOM
Jornal semanal da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação

Ano 3, nº. 76, São Paulo – SP – Brasil 19 de outubro de 2007

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Mídia hoje: funções e disfunções

Contribuição à Mesa Redonda “Papel da Mídia na Sociedade Industrial Brasileira”, no V Congresso Nacional de História da Mídia, São Paulo, SP, 31.5.2007.

SAMUEL PFROMM NETTO (PNA – Pfromm Netto & Associados, psicólogo, pedagogo e professor aposentado da USP)

Não é nada fácil resumir tudo quanto deve ser dito a respeito do tema proposto, “Papel da mídia na sociedade industrial brasileira”, e mais especificamente sobre as funções e disfunções dos meios de comunicação na nossa sociedade de hoje e do futuro próximo. Primeiro, porque a palavra latina mídia, plural medium, deveria ser média, portanto, e não esse mídia importado dos Estados Unidos, cuja abrangência inclui desde os periódicos impressos até a Internet e seus desdobramentos, passando pelo cinema, pelo rádio, pela televisão, pelos registros permanentes em áudio e vídeo e sua reprodução. Cada modalidade de comunicação de massa tem componentes que a singularizam, apresenta aspectos específicos e problemas específicos, que acabam sendo postos de lado quando nos referimos ao genérico mídia. Da mesma forma, a expressão “sociedade industrial brasileira” tem um sentido demasiado lato, demasiado multifacetado, abrangendo infra-estrutura, indústrias de base, indústrias de transformação e indústrias de ponta, e assim por diante, uma diversidade tamanha que é temerário englobá-las mais ou menos superficial e afoitamente, sob o rótulo de sociedade industrial – e isto sem falar do cipoal econômico, social, político, psicológico, histórico e cultural em que está mergulhada aqui e no mundo.

Com essas limitações em vista, não iremos além de um breve comentário, centrado nas já mencionadas funções e disfunções da mídia, e de algumas observações genéricas a respeito do contexto que influencia a mídia e é por ela influenciado, nos dias que correm. Já vão bem longe os tempos em que um dos nosso poetas maiores se referia ao mundo, vasto mundo e a um tempo que passava bem devagar. A globalização aí está e está aí para ficar, inescapável, envolvendo-nos a todos de modo amplo e profundo. O mundo, hoje, está achatado. O mundo é plano. A velocidade das transformações é incrível, por toda parte e em todos os setores da sociedade. Daí Thomas Friedman no seu “best-seller” afirmar que o grande desafio dos nossos tempos é absorver essa miríade de mudanças, “de forma a não atropelar pessoas nem deixá-las para trás. Não será nada fácil”, continua Friedman, “mas é o que temos de fazer, uma missão inevitável e inescapável”. Outro dado de decisiva importância é o que genericamente podemos denominar metamorfose da mídia, no mundo civilizado inteiro. Mais e mais os veículos de comunicação de massa estão enfrentando, às vezes de modo dramático, o desafio de mudar, de se transformar, sem, contudo, perder sua identidade, e principalmente sem perder seus consumidores fiéis, nem ignorar a necessidade de atrair e incluir novos consumidores. Novos porque compõem os segmentos de crianças e adolescentes do mercado, porque compõem faixas da população que em poucos anos ganham maior poder aquisitivo, mais educação e cultura, novo status socioeconômico, novos interesses e gostos. As tecnologias subjacentes à mídia, em termos de hardware, de máquinas, de equipamentos, ano após ano nos assustam com a rápida obsolescência do que dispomos nesse sentido. Como se não bastassem essas e outras “novas realidades”, para usar aqui os termos cunhados por Peter Drucker, há, nos dias que correm, os juros e a carga tributária altíssimos. Há o oceano burocrático e incompetente. Há doenças sexualmente transmissíveis, o narcotráfico. Há o pífio crescimento do PIB. Há a falência de grande parte do ensino. A insegurança que se alastra. A constatação de que para grande parte, a maior parte, talvez, da nossa população, o país deixa muitíssimo a desejar quanto aos cuidados médico-hospitalares. Há o gangsterismo corporativo (este é o título de um livro incrível de Michael Woodiwiss, publicado neste ano pela Ediouro). E assim por diante. Esse lado sombrio atordoa, entristece, amargura, desalenta. Pior que tudo, em que pese a presença do Papa ainda há pouco no país, está faltando Deus no coração dos homens. É de Dostoievski, em “Os irmãos Karamazov”, esta frase dilacerante: “Se Deus não existe, tudo é permitido”.

Não se trata, aqui de converter o limão em limonada, mas de, pelo menos, acenar para a responsabilidade da mídia brasileira em relação a esse quadro melancólico que é do conhecimento de todos. Retomemos as disfunções e as funções da mídia, mencionadas inicialmente. Quanto às primeiras, muito há para ser dito e para ser feito, entre nós. No ano passado, em depoimento que prestei em Brasília, no Senado Federal, a respeito de tevê educativa e tevê comercial, referi-me, por um lado, ao desvirtuamento e à fragilidade da tevê educativa no país. A situação da TVE era ruim, naquela ocasião, e creio que está pior, principalmente quando mais e mais se insiste em fechar os olhos para o seu lado estritamente educativo e se apregoa uma rotulação de TV pública que traz em seu bojo não poucas balelas e deformações do que efetivamente significa essa expressão. Num país com um déficit monumental, e catastrófico, em matéria de educação formal, sorrateira ou abertamente, estão assassinando a televisão educativa. Mas, dizia eu perante o Senado Federal, sempre é tempo de agir no sentido oposto. De recolocar emissoras que foram educativas no passado no caminho do ensino do bom, do verdadeiro e do belo, sob a forma de teleaulas inteligentes, bem concebidas, bem apresentadas, confiadas a educadores de fato e não a profissionais de mídia que pouco ou nada entendem de educação. Deixemos o puro entretenimento, o noticiário sensacionalista, a telenovela, a violência, a superficialidade, o humorismo chão, a transmissão dos jogos de futebol e assim por diante, para as emissoras comerciais. Não misturemos as águas. Retomemos os rumos que nos foram legados num passado já distante, por pioneiros como Roquette-Pinto, Gilson Amado, Dulce Salles Cunha Braga, Marília Antunes Alves, Alfredina de Paiva e Souza, Fernando Mendonça e tantos outros, que são mencionados no meu livro Telas que ensinam (Campinas, Alínea 2001). Regeneremos a televisão educativa no Brasil.

E prosseguia: as TVEs devem ser essencialmente educativas, meios fundamentais de ensino-aprendizagem para todos os brasileiros, e só de modo· muito limitado emissoras de programas comerciais ou que não tenham claramente essa finalidade educativa. Sua missão é exatamente a mesma das escolas em geral: educar. E fazê-lo a distância, sem as limitações das quatro paredes da sala de aula. A missão da televisão educativa é ensinar, abrindo, assim, para o nosso povo as comportas da inteligência, da sensibilidade, da cultura, da cidadania responsável, pondo um meio eletrônico portentoso a serviço do engrandecimento do espírito e da iluminação das pessoas, que se opõem ao seu aturdimento e envilecimento. É, pois, imperioso e urgente mudar essa tevê educativa que temos hoje no país. Faltam-lhe objetivos claros, liderança, imaginação, criatividade, empenho, audácia, comprometimento com a educação. Faltam-lhe a sensibilidade e o apoio efetivos dos setores governamentais e privados. A tevê educativa é a Gata Borralheira da mídia nacional. Na expressão dorida do romancista português Raul Brandão, ela é a "pobre de pedir” da tevê e do ensino entre nós.

A menção feita anteriormente, a propósito das disfunções da mídia, não pode deixar de incluir, ainda que de modo brevíssimo, uma alusão a tudo quanto há de objetável na televisão comercial, principalmente no que respeita a uma relação exaustivamente pesquisada no exterior, entre tevê e violência. Como psicólogo, pesquisador e educador que sou, acho inacreditável que continuemos impassíveis frente ao poder do veiculo TV para tornar as pessoas mais violentas, mais cruéis, mais agressivas. O essencial a este respeito está dito no livro que Guilhermo Maurício Acosta-Orjuela lançou em 1999, destinado principalmente aos pais e professores. O título é 15 motivos para ficar de olho na televisão e foi editado em Campinas pela Alínea. E no entanto, conclui o autor, a TV pode e deve ser usada para cultivar e fomentar formas positivas, construtivas, conciliadoras e socialmente responsáveis de pensar e agir.

Perdoem-me se os aborreço com uma referência pessoal. Nasci e cresci, por assim dizer, em meio à mídia – o jornal, o cinema, o rádio, a tevê e por fim a informática. Era pouco mais que um guri quando ingressei na redação do Jornal de Piracicaba, onde aprendi com o melhor de todos os professores: o jornalista e médico Fortunato Losso Netto, o saudoso Losso Netto, pai de Antonietta Rosalina da Cunha Losso Pedroso, que ainda há pouco foi novamente eleita para presidir uma das mais respeitáveis entidades do jornalismo paulista. Cresci fazendo rádio na PRD-6 de Piracicaba, fazendo cinema no Clube Piracicabano de Cinema, televisão e rádio na Fundação Padre Anchieta – TV e Rádio Cultura e na Fundação Centro Brasileiro de Televisão Educativa do MEC no Rio de Janeiro, que tive a honra de presidir. Fiz parte do núcleo de educação da Comissão Especial de Informática do Ministério das Comunicações, que introduziu nas nossas escolas o ensino e a aprendizagem por meio do computador. Essas vivências, essas experiências em mídia, quer a serviço da educação, quer em empresas privadas, geraram em mim a convicção inabalável de que (falo agora não de disfunções, mas de funções) os meios de comunicação, desde o mais modesto semanário de quatro páginas de uma cidadezinha do nosso interior até as portentosas televisão e informática e seus desdobramentos e metamorfoses, compõem um conjunto de recursos poderosíssimos para informar com objetividade e precisão; para divertir sem deformar a mente, os sentimentos ou a conduta das pessoas; para atuar como veículo de publicidade responsável e de bom gosto; para exercer o papel fundamental de atalaia, de vigilante, em defesa dos nossos valores maiores, compartilhados pelos homens e mulheres de bem, pelos cidadãos dignos, íntegros e socialmente responsáveis; para ajudar, para orientar, para alertar, para valorizar, para educar, para civilizar o nosso povo. Que nos ajudem a viver melhor. A conviver melhor. A resolver de fato, de modo racional, consciente, os problemas que enfrentamos como pessoas, como comunidades, como povo. Neil Postman (em “Tecnopólio”, Nobel, 1994) adverte-nos sobre os perigos de tecnopólios que minam a individualidade e pervertem a liberdade. Ele lembra que qualquer país, qualquer cultura, necessita, sem dúvida, de ferramentas e tecnologias, entre as quais as da mídia. Mas, diz Postman, “temos que entendê-las e controlá-las, colocando-as no contexto de nossos propósitos humanos maiores”.

São Paulo, 31 de maio de 2007

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