JORNAL INTERCOM![]()
Jornal semanal da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação![]()
Ano 3, nº. 67, São Paulo – SP – Brasil
17 de agosto de 2007![]()
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Crônica
Impressões da China
Por Zélia Leal Adghirni - UnB
Eis aqui um breve relato comentado de nossa viagem à República Popular da China, de 6 a 21 de julho passado. Fiz parte da delegação da Intercom, que viajou a convite da Câmara Brasil-China de Desenvolvimento Econômico (CBCDE). Embora fosse uma missão quase oficial, cada um pagou suas despesas de transporte e hotelaria.Um preço realmente “camarada” pois fizemos muito com pouco dinheiro. Nosso roteiro incluía Beijing, Xangai, Macau, Shenzhen e Hong Kong, tendo como objetivo visitar universidades e empresas de mídia para estabelecer contatos e parcerias culturais.
Éramos cerca de 30 professores universitários das mais diversas instituições brasileiras chefiados pelo professor José Marques de Melo, presidente da Intercom e pelo presidente da CBCDE, Paul Liu.
Saímos do Brasil no dia 6 de julho, sexta feira, e só chegamos a Beijing (há quem chame ainda de Pequim) dia 8, domingo, assimilando imediatamente ao nosso relógio biológico 12 horas de diferença (a mais na China). O primeiro desafio foi este: o longo tempo de vôo. Quase 10 horas até Johannesburg, na África do Sul – onde descansamos algumas horas - mais 14 horas até Hong Kong e mais 3 horas e meia até Beijing. Ou seja, praticamente 26 horas de viagem, insônia e pés inchados. Mas valeu. Pisar num país de 1,3 bilhão de habitantes, um quinto da população mundial é um privilégio que não se vive impunemente.
Vou comentar aqui alguns dos aspectos que mais me marcaram neste percurso de aprendizagem. Evidentemente que se trata de um ponto de vista pessoal e subjetivo. Cada um contará sua própria versão da viagem. A minha é esta. E confesso que adorei!
CIDADES
Impressionantes. Nunca vi tanta riqueza e ostentação, nem nas cidades européias. Vou começar pela vitrine da China.
Xangai – com todo seu esplendor, a cidade de 17 milhões de habitantes, foi eleita pelo Partido Comunista Chinês (PCC) para ser o cartão postal da nova China. Situada no litoral do oceano Pacífico, Xangai conserva de um lado a tradição dos edifícios europeus construídos na época do colonialismo (entre século XIX e início do século XX) e de outro lado, a modernidade do Pudong, um bairro em estilo futurista com seu bosque de edifícios gigantes. Lá estão as placas luminosas das maiores empresas mundiais entre as quais a General Motors e a Hewlett Packard.
Xangai tem mil linhas de ônibus, 13 linhas de metro, 10 milhões de bicicletas, viadutos com três andares, 50 mil empresas das quais 25 mil estrangeiras... isto tudo assusta um pouco, não ?
Xangai foi aberta aos investimentos estrangeiros em 1985 e faz parte integrante da China mas ainda é uma Zona Econômica Especial. Atualmente a cidade se prepara para acolher a Exposição Mundial de 2010 e o governo pensa investir 48 milhões de dólares em infra-estrutura para este acontecimento.
Xangai é insuperável em termos de luxo e ostentação. Em nenhum lugar do planeta a metáfora “arranha-céu” tem mais sentido. Lá esta a Jin Mao Tower com seus 88 andares, mas já estão construindo um prédio mais alto. Se dá vertigem olhar de baixo (parece que estão inclinados) imagine olhar de cima.
A cidade cresce tanto que já começa a afundar meio centímetro por ano. Foi dado o sinal de alerta mas ninguém quer parar. Até o final desta década mais mil edifícios deverão ser construídos . Atualmente a cidade conta quatro mil arranha- céus, mais do que em Nova York.
Subimos a torre da TV Oriente, a Peral Tower, imenso prédio de 468 metros, formado por uma estrutura central reta em cujas extremidades estão duas grande esferas. Numa esfera funciona um maravilhoso restaurante giratório. Acima dela, numa terceira bola, existe um mirante de onde se pode apreciar a paisagem cinematográfica de Pudong. Em destaque o edifício Aurora que transforma sua fachada principal em telão onde são projetados filmes publicitários.

Beijing – a capital chinesa encanta por sua história viva, concreta: Cidade Proibida, Praça da Paz Celestial, Mausoléu Mao Tsé-Tung (fechado para reformas tendo em vista as Olimpíadas do próximo ano que serão realizadas na China). Mas o Grande Timoneiro já virou mesmo objeto de lojinha de souvenir: copinhos, bonezinhos, camisetas, etc. com a efígie do revolucionário comunista que mudou a China em 1949 são vendidos em todo o canto a preços módicos. Acredito que não está longe o dia em que as estátuas e bustos de Mao serão derrubadas como as de Lenin na Rússia.
A Praça da Paz Celestial (Tiananmen) estava mesmo em paz naquela manhã ensolarada de domingo, repleta de turistas. Nada de ocidentais. Quase todos eram chineses com suas famílias, em férias de verão. O espaço em nada lembrava o massacre de 1989, quando tanques do governo esmagaram uma rebelião de jovens que pediam abertura política.
Num pequeno grupo de cinco pessoas que se “extraviaram” do grupo visitamos um hutong, espécie de bairro popular que resiste a à onda avassaladora das construções modernas. Ali os moradores vivem abertamente nas calçadas onde lavam os filhos, tomam chá, cortam o cabelo, etc. sem o menor cuidado com a privacidade.
Na Praça Tiananmen fomos abordadas por duas estudantes de Belas Artes que nos convidaram a visitar uma exposição de trabalhos de alunos e professores ao lado da Cidade Proibida. Ficamos encantadas com as obras e acabamos adquirindo algumas telas pequenas, fáceis de transportar. Quem sabe um dia estes artistas não serão famosos e nós, milionárias...

Vimos e fotografamos o Parlamento Chinês, que se reúne apenas uma vez por ano. Num esforço concentrado de 15 dias, votam todas as leis.
Deslumbrante mesmo é a Cidade Proibida. Como um cenário de cinema. Todos os detalhes do filme de Bertolucci, “O Último Imperador”, estavam lá, com suas cores berrantes, seus tigres e dragões vermelhos esculpidos nas portas e paredes, seus jarros de cerâmica em alto relevo, seus detalhes requintados e as delicadas gravuras de animais domésticos, patos, flores, folhas, vegetais... Tudo numa harmonia sublime. Quando lemos a história da Cidade Proibida, que data do século XVI, percebemos a riqueza desta civilização de cinco mil anos. Naquela época nenhuma cidade européia tinha um palácio com tal magnitude.
Mas nada se compara a Grande Muralha, a única construção humana visível da lua, com seus seis mil quilômetros de extensão e mais de 2.500 anos. Situada a 90 km de Pequim, levamos, de ônibus, quase três horas para chegar lá já que o trânsito na capital chinesa é um engarrafamento de ponta a ponta. Com 16 milhões de habitantes e uma estrutura viária arcaica, a cidade não estava preparada para o automóvel. Até pouco tempo, só circulavam bicicletas na cidade. Hoje, existe uma quantidade incalculável de carros de luxo (Rolls Royce, Mercdes Benz, BMW, etc.). Todas as marcas de carro estão presentes nas montadoras locais mas a China se prepara para lançar sua própria marca de carro que vai custar apenas três mil reais.
Shenzhen - é um fenômeno. Com 26 anos de idade, a cidade tem 12 milhões de habitantes é já é o terceiro PIB da China. Aqui se produz 35 milhões de dólares por quilômetro quadrado. O segredo? Tecnologias. Em Shenzhen nasceu a TV digital. A cidade se orgulha de fabricar as melhores TVs e aparelhos fotográficos digitais do mundo. Muita pesquisa e mão de obra barata talvez expliquem o fenômeno. A cidade está entre as que mais recebem verbas governamentais. E os salários giram em torno de cem dólares por mês, com jornadas de trabalho de mais de oito horas e um dia de folga por semana.
Hong Kong é uma festa. Todas as noites, às 20 horas, um espetáculo de luz e cores jorra do alto dos edifícios gigantes sobre as águas que separam os dois lados da imensa cidade de 16 milhões de habitantes. Aliás, a cidade inteira é uma sucessão de shoppings que se encaixam um no outro através de edifícios, galerias e passarelas. Nos shoppings estão os restaurantes e até os hotéis. Um comércio de luxo em vários níveis era o entorno de nosso hotel em Hong Kong. Bruce Lee é homenageado na estátua de bronze que só falta falar, instalada no calçadão.
Macau nos recebeu com honras oficiais. Durante um dia inteiro ficamos à disposição das autoridades locais e das universidades que, exageradamente, em legítimo estilo português, queriam nos agradar: discursos e recepções oficiais se sucederam da manhã à noite, culminado com um excelente jantar em um restaurante giratório situado no 60º andar de uma torre gigante. Tanta euforia tem explicação. Os poucos descendentes dos portugueses que colonizaram a ilha durante 442 anos (em certos lugares, Macau é a cara da Bahia) contam com os brasileiros para reforçar a comunidade lusófona mundial. Apenas 2% dos habitantes falam português mas o governo chinês está investindo pesado para manter e desenvolver a língua, ferramenta de comunicação e negócios com grandes mercados, como o Brasil por exemplo.
Em contraste com tantos cassinos (o segundo maior centro de jogos depois de Las Vegas) destaca-se a excelências das universidades e centros de estudos entre os quais o Instituto Politécnico
Formada por uma península e duas ilhas Macau tem uma superfície de apenas 30 quilômetros quadrados para abrigar 550 mil habitantes. É considerada a segunda maior densidade populacional do mundo, logo após a Faixa de Gaza, na Palestina. Quer se expandir a todo custo e para isto não hesita em aterrar o Rio das Pérolas que a envolve . Mas a impressão que fica é que Macau é apenas um grande cassino onde chineses milionários apostam dia e noite em jogos de azar.
COMIDA
Esqueça tudo que lhe falaram sobre comer gatos e cachorros na China. Nada disso. Come-se muito bem em todo o país, pratos refinados e suculentos são servidos em mesas redondas sobre uma espécie de bandeja central giratória. Você recebe um pratinho básico e uma tigelinha para a sopa. O resto é pegar com pauzinhos à medida em que a bandeja circula, em geral numa mesa para oito pessoas. Come-se saladas, peixes, frango, carne, macarrão de arroz, e muito arroz, sempre arroz, sempre colante. Acho que é para aderir nos pauzinhos. O que sobra em qualidade e quantidade de comida salgada falta em sobremesa. A regra geral é melancia para todo mundo. O mais engraçado é que quando jantamos numa churrascaria de rodízio em Xangai (um sucesso entre os chineses) a sobremesa era variada como no Brasil (pudim, doce de calda e frutas variadas) mas automaticamente me servi de melancia e a turma caiu na risada.
Pena que perdi o pato de Pequim, estava doente naquele dia, fiquei no hotel. Quem foi, narrou depois as volúpias do ritual gastronômico ao saborear o pato laqueado num restaurante muito chique, servido por quatro garçons trajados a rigor para cada mesa.
O que mais me encantou foi o restaurante dos Cristais no Plaza 66, em Xangai. Quando Paul Liu, da CBCDE, propôs que jantássemos neste lugar ficamos com medo do preço. Ele garantiu que não era caro. E tinha razão. Uma ninharia de cerca de 50 reais por pessoa para uma delicioso jantar de pratos exóticos regado a três garrafas de vinho australiano. O bom gosto do local desafia tudo que já vi em matéria de restaurante, mesmo em Paris ou Genebra. Tudo é em cristal: as paredes, as mesas, os copos, pratos, talheres... No teto, os lustres são flores de cristais que se iluminam em tons pastéis, rosa, lilás, verde água, azul celeste, em suaves degradés que jamais ofuscam nem chegam a obscuridade. Segundo Paul, o restaurante é um hobby do proprietário, dono da maior rede de lojas de cristais da China. No ramo da restauração, ele só busca o prazer, nada de lucro.
Lembrei da conversa de minhas alunas chinesas em Grenoble, na França, onde fui professora visitante no primeiro semestre deste ano. Preocupada com o que me diziam, que eu comeria insetos grelhados e churrasquinho de gato e cachorro, elas me avisaram: “Cuidado, na China se come tudo que tem quatro patas, menos a mesa e as cadeiras; tudo que voa, menos o avião”, diziam elas se divertindo às minhas custas.
UNIVERSIDADES
As mais importantes universidades chinesas estavam no nosso roteiro: Beijing, Fudan, Shenzhen.
A primeira surpresa foi encontrar na universidade de Beijing, alguns estudantes falando um português perfeito... com sotaque gaúcho. É que o Rio Grande do Sul saiu na frente. A UFRGS a PUCRS e a Universidade de Caxias do Sul já estão há muito tempo fazendo intercâmbio de estudantes com a China. Até time de futebol os chinesinhos já tinham em Porto Alegre, Grêmio ou Inter, como todo gaúcho que se preza.
Outros acordos virão certamente após estes contatos pois um dos objetivos principais da viagem era intensificar as relações culturais e educacionais com a China. Como éramos uma delegação composta de representantes de várias universidades brasileiras, todos saímos com a missão de procurar nossos serviços internacionais para promover intercâmbios.
Chamou-me atenção ainda a qualidade das instalações das universidades: laboratórios de rádio e TV de última geração, banheiros limpíssimos (alguns ainda com fossa no chão, o que para nós mulheres era um horror. Impossível fazer xixi de cócoras), salas de reunião com cadeiras confortáveis, carpetes, ar condicionado e muita água e chá servidos durante os encontros.
Para nossa surpresa, fomos informados que desde os anos 1990 a universidade, que é mantida pelo governo, é paga pelos alunos, cerca de mil dólares por ano. Estima-se que cada aluno custe 10.500 dólares por ano aos cofres públicos. Há bolsas para os mais pobres mediante seleção e as cotas existem para as regiões. Mas 60% das pesquisas são financiadas pelo Estado que cria prêmios de incentivo à pesquisa. Atualmente, cem universidades realizam programas de intercâmbio internacional com 50 instituições estrangeiras. Existem hoje 12 mil estudantes chineses com bolsa do governo em universidades estrangeiras, principalmente na Europa e Estados Unidos. Mas existem 160 mil estudantes estrangeiros na China sendo dez mil com bolsa do governo chinês, dos quais cem são brasileiros.
HOTEIS E MASSAGENS
Confortáveis, limpos, modernos, espaçosos e com um excelente café da manhã. Assim posso descrever todos os hotéis onde nos hospedamos, inclusive em Macau onde imperam os cassinos, todos funcionando acoplados aos hotéis.
Todos os famosos hotéis cinco estrelas estão presentes nas grandes cidades, tais como Marriot (onde ficamos em Beijing), InterContinental, Sheraton, St. Regis, Ramada, etc. Até 2008, a China deverá ser o maior mercado para o Hyatt fora dos Estados Unidos. O turismo não pára de crescer. Em 2004 foram 41,8 milhões de turistas (no Brasil a média de turistas/ano é de 5 milhões).
Ficamos encantadas com as massagens. Há casas que funcionam 24 horas. Ao sair de um restaurante cujo cardápio contemplava cerca das dez cozinhas mais famosas do mundo, Paul nos levou a uma casa de massagens para os pés em Beijing. Prazer e conforto absoluto. Depois de mais de uma hora de massagem, todas as dores do corpo acabaram, nem cansaço sentíamos mais.
No entanto, o máximo foi a seção no cabelereiro em Shenhzen. Lava-se o cabelo deitada, num ritual de massagem que dura 45 minutos: couro cabeludo, têmporas, orelhas, pescoço, tudo é massageado antes de passar o xampu e o creme. E enquanto os produtos agem, recebe-se uma massagem nos braços, mãos, dedos...a gente relaxa e dorme. Para completar, o moço vem com longos cotonetes e limpa os ouvidos do cliente. Só depois passa-se à cadeira da escova. Perfeito. O preço? Vinte iuans... ou seja, 5 reais. Dei 10 e a recepcionista ficou zangada. É proibido dar gorjeta...
SHOPPINGS CENTERS
Imagine os shoppings mais chiques do mundo e coloque dentro as marcas mais famosas: Prada, Dior, Channel, Gucci, Bulgari, BMW, Ferrari, etc. Estas grifes estão todas lá, na China. São verdadeiras. Para os falsificados existe outra rede, despudoradamente explorada. Em Beijing, é como uma loja de departamentos. Em plena avenida, vende-se produtos falsificados de todas as marcas, a preço de banana. As imitações são perfeitas. Há quem diga que as próprias marcas permitem ou até cedem mercadoria para expandir o mercado. Compramos camisetas Diesel, gravatas Armani, óculos Gucci, bolsas Louis Vuitton... quase de graça.
As lojas verdadeiras estão cheias de chineses verdadeiros comprando peças do melhor estilo e do mais alto preço do mercado. Eles adoram andar na moda. Chega a dar um susto olhar para aqueles jovens magrelas de cabelos laranja, roxo ou vermelho, arrepiados em estilo pop americano. Parecem capas de revista do mundo fashion. As meninas querem ficar branquelas a todo preço. Na rua, usam chapéus, luvas e sombrinhas para se proteger do sol e no rosto, pomadas brancas mascaram a pele morena. Muitas recorrem a cirurgia plástica para arredondar os olhos. Ter cara de européia é o máximo....
OS CHINESES
Difícil falar de um povo constituído por mais de um bilhão de indivíduos. A impressão que se tem nas ruas é que há chineses demais... as ruas estão sempre repletas. Homens, mulheres, jovens e crianças estão presentes em todos os lugares: lojas, teatros, museus, praças, ônibus, trens, aviões... Apesar da grande abertura, os ocidentais são pouco visíveis. Talvez estejam fechados naqueles imensos prédios trabalhando. O certo é que pessoas claras, de olhos claros e cabelos loiros chamam a atenção. Vários vezes fui abordada por mulheres e crianças pedindo para tirar foto comigo. As meninas me tocavam e riam. Me sentia uma ET. Mas os homens não se dirigem a uma estrangeira na rua. Alias, nem nos olham. Tradição cultural? Não entendi. Em todo o caso é certo que há uma China urbana moderna, vestida à ocidental, jovem e consumista e uma China rural, camponesa que não vimos. Não fomos ao interior do país mas dizem que os 58% da população que vive no campo ainda não se beneficia do crescimento. As terras são pouco agriculturáveis e o êxodo rural é uma realidade como no Brasil no inicio da industrialização. Isto explica a massa de trabalhadores que vem procurar emprego nas cidades. São eles que aceitam trabalhar seis dias por semana com um salário mensal entre 50 e 100 dólares.
Segundo especialistas, os trabalhadores das cidades ganham três vezes mais que os trabalhadores do campo. A agricultura contribui com apenas 13,1% da economia nacional enquanto que a atividade industrial representa 46% da economia e o setor de serviços 40,7%. A renda per capita urbana é de mil dólares/ano mas no campo esta renda é de apenas 400 dolares/ano. O Banco Mundial estima que 90 milhões de chineses vivem com menos de um dólar por dia.
Enquanto isso, 400 chineses já aparecem na lista dos mais ricos do mundo com fortunas estimadas em 75 bilhões de dólares. Destes 400, 55 tem menos de 40 anos.
Apesar do rápido desenvolvimento e da adoção de hábitos ocidentais, os chineses são bastante supersticiosos. Lá o número da sorte é o 8. Todos querem ter o número 8 no endereço ou no celular. Segundo um professor de Xangai, a melhor maneira de localizar os chineses em São Paulo é pelo número 8 no celular. Um chinês de Xangai arrematou , por um milhão de dólares, o número de celular 135 85 85 85 85. O 5 também é considerado número da sorte. Todo mundo foge do numero 4, símbolo do azar e da morte. Os edifícios não costumam ter o quarto andar, nem o 14º nem o 24°, enfim, tudo que tiver 4. Os andares pulam do 3º para o 5º.
Assim, a data da abertura oficial das Olimpíadas foi marcada para 8 de agosto (mês 8) de 2008.
SEGURANÇA
As cidades na China são tranqüilas. Quando uma amiga brasileira que mora na França me disse que podia dormir em paz porque sua filha morava em Xangai, não em Lyon nem em Porto Alegre, achei estranho. De fato, a bela Lisa de 25 anos pode sair da boite de mini saia às 4 horas da manhã e voltar a pé para casa sem ser molestada por ninguém. Não há praticamente registros de violência urbana. Há furtos e os responsáveis pelo turismo até mandam a gente ter cuidado. Contaram-me que começou a haver problemas de motoqueiros que passavam em alta velocidade nas ruas arrancando bolsas de mulheres. Sabem como as autoridades resolveram o problema? Proibiram as motos em Xangai. Parece aquela historia de tirar o sofá da sala. Será que resolve o problema? Em todo o caso, só tivemos exemplos de honestidade. Vejam isso: esqueci meus óculos de grau em um restaurante . No dia seguinte, no café da manhã, os óculos estavam no hotel. Uma colega esqueceu a bolsa. Quando voltou ao restaurante, a bolsa estava sobre uma cadeira cercada por dois seguranças. Só devolveram quando ela descreveu, em detalhes, tudo que a bolsa continha. E outra se desesperou porque perdeu a máquina digital num restaurante, achou que tinham roubado. Comprou outra. No outro dia ligaram da churrascaria para avisar que haviam esquecido uma máquina na mesa.
RIQUEZA
As vezes chega a ser insolente: carros de luxo, edifícios imponentes de concreto, mármore, aço e vidros fumês, hotéis-mansões, eletrônicos de última geração em abundância, vitrines que exibem as maiores grifes do comércio supérfluo mundial, ausência de mendigos nas ruas... Será mesmo que estamos na China? Que país é este que até pouco tempo tinha ojeriza pelos “porcos capitalistas” do Ocidente e hoje representa o triunfo do capitalismo? Como explicar o paradoxo de uma economia de mercado de um país em pleno crescimento (11% ano) dentro de um regime comunista? Ontem a riqueza era diabolizada. Hoje “enriquecer é glorioso” diz o PCC. E a moeda, conhecida como iuans, hoje circula com as iniciais RMB, que significa “dinheiro do povo”. Será mesmo?
Desde que a China se abriu ao mundo, em 1978, por um toque de mágica do líder Deng Xiao- Ping, a China não pára de crescer. Multiplicou por quatro o tamanho de sua economia e é hoje o segundo maior consumidor de petróleo do mundo (sem produzir petróleo) além de consumir a metade do cimento usado no planeta. São cerca de 25 mil gruas trabalhando 24 horas por dia em Beijing.
O país das 500 milhões de bicicletas é hoje o terceiro maior mercado automobilístico do mundo. Vendeu 5,76 milhões de unidades em 2005. Em 2015 deverá ultrapassar o Japão e os Estados Unidos.
Eles adoram carros de luxo. As vendas totais da BMW cresceram 52,4% em 2005 e chegaram a 23,6 mil unidades. A Mercedes Benz vendeu no mesmo ano 16,2 mil sedãs aos chineses. A ostentação pode ser vista a olho nu nas ruas de Beijing, Xangai e Hong Kong, a maioria dos carros são dirigidos por jovens.
LIBERDADE
Aparentemente tudo é livre, os chineses são simpáticos e comunicativos, falam de tudo na língua em que conseguimos nos comunicar (quase sempre em inglês já que nenhum de nós, a não ser o Paul Liu, falava mandarim). Mas a expansão se restringe quando o assunto é política interna. Em relação ao passado, muitos ousam criticar o presidente Mao Tsé-Tung e a revolução cultural que reprimiu os intelectuais mandando-os para os campos de reeducação entre 1966 e 1976.
Nossa guia e intérprete em Beijing, uma mulher baixinha e inteligente que falava perfeitamente o espanhol e nos contava histórias da China antiga, chegou a queixar-se de ter sido enviada ao campo embora reconheça que acreditava, na época de sua juventude, na revolução cultural. Mas se fez de desentendida quando lhe perguntaram porque a China, que critica tanto o Japão invade, ocupa e reprime o Tibet.
IMPRENSA
Visitamos redações de jornais, TVs, portais, tudo do mais alto nível tecnológico e conversamos com diretores, nenhuma vez com jornalistas. Mas não tocamos em questões internas tipo censura à imprensa por delicadeza com nossos anfitriões.
Em Xangai visitamos o maior portal de notícias da China e um dos maiores do mundo, com acesso diário de um milhão de consultas. São 80 canais dos quais 11 só de noticias, em três línguas: chinês, inglês e japonês... Os blogs lá também fazem sucesso, são 30 milhões de acessos por dia. Normal num país de 140 milhões de internautas embora a internet seja controlada e censurada abertamente. Temas como direitos humanos, Dalai Lama, dissidentes chineses são proibidos no país. Os sites de noticias só podem divulgar textos produzidos por agências de notícias autorizadas pelo Estado, nacionais ou estrangeiras. Até o Google e o Yahoo cederam às pressões do governo e incorporaram a censura.
Apesar da expansão da internet, os dirigentes dos jornais nos disseram que a mídia impressa ainda não sentiu o impacto da mídia online, as tiragens continuam altas, são 10 mil jornais diários em circulação, quase todos com ações na Bolsa.
Alguém do grupo ousou perguntar numa reunião com dirigentes de grupos de mídia se existia censura no país e eles responderam: “Cumprimos a lei, seguimos o que está escrito”. Sem mais palavras. Nos documentos oficiais o Partido Comunista afirma que é seu dever “guiar a opinião pública”. Assim, todos os meios de comunicação estão vinculados ao Estado ou Partido Comunista, nenhum órgão é realmente privado.
Em Shenzhen, estão construindo o maior parque gráfico do mundo, com cem mil metros quadrados. Importavam papel da Dinamarca, hoje são auto-suficientes. Aqui a média de idade dos jornalistas é 20 anos. Os chefes tem 30. Por isso nos olhavam como dinossauros, éramos uma delegação de "anciões".
Leio agora no site “Comunique-se” que a organização internacional Repórteres sem Fronteira está na China realizando ações de crítica ao cerceamento das liberdade de imprensa no país. Segundo a organização, 30 jornalistas chineses e 50 internautas estão presos por criticar o governo.
PARADOXO
Termino aqui estas impressões sem resposta à principal questão: como explicar o paradoxo de uma economia de mercado livre e avassaladora num sistema político que se diz comunista ?
Enquanto isso, vá aprendendo mandarim. Ou diga a seus filhos e netos que é preciso aprender mandarim. O futuro está na Ásia.
Zélia Leal Adghirni
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