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JORNAL INTERCOM NOTÍCIAS
Jornal semanal da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação

Ano 3, nº. 63, São Paulo – SP – Brasil 22 de junho de 2007

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Pedrada no reino da Globo


Antonio Brasil (*)

Fonte: Comunique-se, 18/06/2007

Ainda bem que era uma microssérie. A tortura foi um pouco menor. Tentei assistir a todos os capítulos com a maior boa vontade. Mas confesso que não resisti a tanta bobagem. A adaptação para TV de A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, exibida na semana passada pela Globo, é muito, muito, ruim. Muito, muito, chata. De duas, uma. Ou o jovem diretor Luiz Fernando Carvalho não entende nada de linguagem televisiva ou o pior, ele odeia o público e meio televisivo. Para ele deve ser realmente muito difícil, quase impossível, contar uma história de forma simples e clara. Assim como o herói Quaderno, ele também pretende ser o gênio da raça ao produzir a maior obra da TV brasileira. Não faz por menos. E como dizia a minha velha mãe: filho, pretensão e água-benta nunca são demais! 

Luiz Fernando de Carvalho conseguiu o impossível. Fazer de um épico de Ariano Suassuna, um antiprograma de TV. Um programa que não dá para assistir. Os labirintos de uma obra difícil se tornaram becos sem saída que se perdem na incompreensão. Não é hermético para TV. É ruim na telinha ou na telona. Da parte do diretor, faltou humildade para contar uma boa história numa linguagem pertinente ao meio. Contar uma história que quase todos entendessem. Adaptar literatura para TV é difícil. Exige humildade, competência e talento. Assim como Quaderno, o herói da microssérie, o gênio da Globo insiste na construção da uma obra televisiva que ignora o público.

Responsável pelos projetos “cabeça” na Globo, mais uma vez, Luiz Fernando Carvalho conseguiu a proeza de nos legar uma microssérie ainda mais incompreensível do que o Hoje é dia de Maria. No cinema, dirigiu Lavoura Arcaica, um dos piores filmes brasileiros que assisti nos últimos anos. Faz o mesmo gênero “é ótimo porque ninguém entende”.

Desastre anunciado
A crítica de TV que odeia TV adora tudo que o Luiz Fernando produz. Dizem que sua linguagem cinematográfica é boa demais para TV. Então a culpa é do meio. De qualquer maneira, apesar do fracasso de audiência  ver A Pedra do Reino deixa Globo em terceiro lugar (aqui), não faltaram elogios e explicações para as metáforas utilizadas pelo diretor. O problema é que metáfora que precisa de explicação na TV ou em qualquer lugar é uma péssima metáfora.

A baixa audiência também é justificada pelo mau gosto do público telespectador. Gentinha que não entende a ousadia de uma verdadeira “obra de arte” para TV. A culpa é daquele mesmo telespectador que vive há muitos anos entorpecido e “emburrecido” pelas mesmas novelas de sempre.

Dizem que é para ganhar prêmio e prestígio. Mas colocar no ar essas microcrises talvez tenha outra explicação. Agora podem alegar que o grande público é muito conservador, careta e que não gosta de boa literatura na TV. Gostam e querem novelas em todos os horários. Ninguém jamais culparia a incompetência do diretor na escolha de obras e na adaptação para TV.

Próxima vítima
Essa tal “estética hermética” ou “narrativa não-linear” tanto para a TV quanto para o cinema, não tem pé nem cabeça. Incompreensível é elogio. No reino de Luiz Fernando Carvalho nada faz o menor sentido. E o povo que não é bobo, mesmo o telespectador viciado em novelas da Globo, mudou de canal ou desligou a TV. Menos mal.

Não dava mesmo para assistir. Eu bem que tentei. Qualquer coisa, até mesmo filme non sense americano com uma tal Lara Croft no SBT ou novela ruim com muita violência na Record é melhor do que essa verdadeira pedrada no reino da Globo e do pobre do Ariano Suassuna. Ele não merecia.

Tenho certeza de que até mesmo o grande autor do Auto da Compadecia, o ilustre professor das maravilhosas aulas-espetáculo que lotam teatros por todo o Brasil, não conseguiu assistir ou entender essa proposta de TV para quem não gosta de TV.

Agora só nos resta aguardar a próxima “pedrada” do genial diretor global contra a literatura brasileira na TV. Segundo o Projeto Quadrante da Rede Globo (ver aqui) uma das próximas vítimas será Capitu, de Machado de Assis.  Ele também não merecia.

(*) É jornalista, professor de jornalismo da Uerj e professor visitante da Rutgers, The State University of New Jersey. Fez mestrado em Antropologia pela London School of Economics, doutorado em Ciência da Informação pela UFRJ e pós-doutorado em Novas Tecnologias na Rutgers University. Trabalhou no escritório da TV Globo em Londres e foi correspondente na América Latina para as agências internacionais de notícias para TV, UPITN e WTN. Autor de diversos livros, a destacar "Telejornalismo, Internet e Guerrilha Tecnológica" e "O Poder das Imagens". É torcedor do Flamengo e não tem vergonha de dizer que adora televisão .